50 mil cirurgias cardíacas. Moçambique com resposta reduzida
O cirurgião português Manuel Antunes, que chefia uma missão para cirurgias gratuitas no Instituto do Coração (Icor), em Maputo, disse hoje que Moçambique necessita de cerca de 50 mil cirurgias cardíacas anuais, mas a capacidade de resposta continua limitada.
Manuel Antunes, professor catedrático jubilado e atualmente convidado da Universidade de Coimbra, falava aos jornalistas no âmbito da 24.ª missão consecutiva de uma equipa portuguesa ao Icor, iniciada em 2001 e interrompida apenas durante os dois anos da pandemia da covid-19. A equipa integra ainda um cirurgião e dois enfermeiros especializados.
Segundo o médico, foram avaliados 16 doentes previamente selecionados pelos cardiologistas do instituto para determinar a necessidade de intervenção cirúrgica. Os casos incluem crianças e adultos com lesões nas válvulas cardíacas, sobretudo associadas à doença reumática, além de uma paciente com doença coronária grave na sequência de um enfarte agudo do miocárdio.
"Temos aí duas ou três crianças com menos de 12 anos que normalmente são afetadas nas válvulas cardíacas pela doença reumática, que é mais ou menos endémica nestes países. Em Moçambique há muita. Algumas dessas válvulas ficam completamente destruídas por esta doença", explicou Antunes, cuja especialidade inclui a reparação da válvula mitral e a substituição das que já não podem ser recuperadas.
Nos primeiros dias da missão, que decorre até 11 de novembro, a equipa realizou quatro intervenções cirúrgicas, em duas mulheres, um homem e uma criança de 13 anos, estando prevista pelo menos mais uma operação.
Entre os restantes pacientes avaliados encontram-se dois adultos de 51 e 75 anos. A missão decorre durante sete dias, dos quais seis são dedicados à atividade cirúrgica gratuita ao abrigo do programa de ação humanitária do Icor.
A cooperação entre as equipas portuguesa e moçambicana começou em 2001 e permitiu desenvolver, ao longo dos anos, capacidade local para a realização de cirurgia cardíaca.
Segundo Manuel Antunes, três cirurgiões moçambicanos passaram a efetuar autonomamente este tipo de intervenções em 2010, tendo as missões internacionais evoluído gradualmente para um modelo centrado também no acompanhamento e aperfeiçoamento técnico dos profissionais nacionais.
"Neste momento, os cirurgiões locais estão a fazer cerca de 200 cirurgias por ano. As missões todas, as quatro missões, conseguem fazer aí 50. Portanto, eles já estão a fazer mais do que nós, mas também estão cá durante todo o ano. E isso é importante", afirmou.
Apesar dos progressos registados, o especialista considera que a atividade permanece muito aquém das necessidades do país.
"Um país com 35 milhões de habitantes, ou mais de 35 milhões, necessita de 50 mil cirurgias por ano. Portanto, aquilo que se faz aqui é apenas uma gota de água no oceano", disse.
Manuel Antunes apontou a dimensão das unidades de saúde e a disponibilidade de equipas especializadas como os principais obstáculos à expansão da cirurgia cardíaca em Moçambique, considerando que o Icor, enquanto instituição privada, não consegue responder sozinho à procura existente.
Defendeu, por isso, o envolvimento de outras equipas e unidades hospitalares, referindo que o Hospital Central de Maputo (HCM), o maior do país, também realiza algumas intervenções, embora de forma pouco frequente.
O médico considerou que o equipamento do Icor tem qualidade comparável ao utilizado no serviço onde trabalhou em Coimbra, apontando a capacidade para realizar cirurgias em maior escala como o principal desafio.
Segundo explicou, uma cirurgia cardíaca pode custar entre 12 mil e 15 mil euros em Coimbra, enquanto no Icor o valor poderá situar-se entre cinco mil e seis mil euros, tendo em conta também o material transportado pela equipa portuguesa.
Dos 16 doentes avaliados nesta missão, 12 foram encaminhados pelo HCM para o Icor, indicou o médico, acrescentando que cerca de metade dos pacientes tem menos de 20 anos.
A doença reumática, comum em vários países africanos, pode provocar lesões nas válvulas cardíacas durante a infância, cujas consequências persistem frequentemente até à idade adulta e podem exigir tratamento cirúrgico.
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