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"A ascensão de Haaland é, de certa forma, culpa da I Liga e de Portugal"

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Minuto Fonte Externa
19 de outubro de 2026 • 10 min de leitura
"A ascensão de Haaland é, de certa forma, culpa da I Liga e de Portugal"

Gonçalo Feio é um nome incontornável quando falamos na internacionalização do treinador português na Europa, devido ao seu percurso de quase 15 anos como técnico na Polónia.

 

Focado nos projetos a longo prazo e com foco na ascensão de jogadores das camadas jovens às suas equipas principais, o timoneiro de 36 anos passou por vários clubes onde fez história.

No Motor Lublin, conquistou a promoção da II Liga para a I Liga (equivalente a subir da terceira para a segunda divisão), encaminhando muito bem a subida no ano seguinte, antes de seguir caminho para o Legia Varsóvia.

Depois acabou por sair, voltando mais tarde à Polónia, pela porta do Radomiak, onde ficou menos tempo do que o habitual, mas deixou o emblema polaco com a melhor média de pontos por jogo da história do clube na Ekstraklasa, que é a divisão de topo desse país, antes de acabar no Tondela

Detentor de uma Taça da Polónia e de múltiplas promoções às divisões superiores, acaba por também ter no currículo um feito histórico, ao levar o Legia Varsóvia ao triunfo, em pleno Stamford Bridge, frente ao Chelsea nos quartos de final da Liga Conferência, sendo a primeira equipa polaca a vencer em solo inglês.

Atualmente, o português está sem clube, depois de ter estado no Tondela na reta final da temporada passada, não aceitando o convite para comandar a turma de Viseu na II Liga em 2026/27.

Fique com a segunda parte da entrevista completa do Desporto ao Minuto ao treinador português Gonçalo Feio.

A época 2024/25 foi de muitos feitos para a sua carreira. Primeira vez em que esteve nas competições europeias e surpreende tudo, porque ninguém esperava que o Legia chegar onde chegou e vencer o Chelsea em Londres. Ainda mais, conquistou o seu primeiro troféu, com a Taça da Polónia… Foi um sonho tornado realidade?

Eu não escondo a minha paixão pelas competições europeias, eu acho que são noites especiais, estive lá em diferentes posições, tenho mais de 80 jogos já nas competições europeias, entre Liga Europa e Liga Conferência, infelizmente nunca competi na Liga dos Campeões, mas quero lá chegar, é um dos meus grandes objetivos.

Essa foi uma época em que conquistámos a Taça da Polónia, mas também foi importante pela forma como em apenas ano e meio incorporámos 14 jogadores da academia nos trabalhos da equipa principal, 12 deles tiveram a sua estreia no futebol profissional, e alguns foram vendidos e trouxeram muito dinheiro ao clube. Essa capacidade de apostar nos jogadores jovens e de desenvolver esses jogadores é algo que eu considero uma vitória de carreira e foi sem dúvida uma época interessante.

Acho que cumprimos os objetivos em duas das três competições em que estávamos inseridos, no campeonato não o fizemos e é uma pedra que fica no sapato. Na Taça, cumprimos a 100%, qualificámos a equipa para as competições europeias novamente e na Liga Conferência superámos todas as expectativas, escrevendo uma história muito bonita, e neste momento conseguimos a única vitória de equipas polacas em solo inglês e o melhor registo que uma equipa polaca alguma vez alcançou no futebol europeu. Fica a mágoa de não ter conseguido chegar às meias-finais, porque quando se está nos quartos de final de qualquer competição, ainda mais na competição europeia, quer-se sempre chegar às meias-finais.

Perdemos com o Chelsea, os favoritos, a equipa que acabou por vencer, que acabou por se sagrar campeã do mundo nessa temporada. Se não fossem 20 ou 30 minutos do início da segunda parte na primeira mão, porque foi uma primeira mão com coisas conseguidas da nossa parte, se calhar tínhamos conseguido lutar um pouco mais depois com a vitória em Stamford Bridge, mas deixámos tudo e foi uma noite acho que vai ser recordada por muita gente que lá esteve durante muitas décadas.

O quinto lugar na Liga da Polónia podia ter sido melhor. Ainda assim, acaba por se qualificar para as pré-eliminatórias da Liga Europa através da Taça, mas deixa o Legia na época seguinte. Foi uma decisão sua ou do clube?

Foi uma decisão minha. Nós tivemos reuniões e eu tive a proposta de continuidade e o meu grande objetivo era, ficando, desenvolver tanto a estrutura como a equipa para sermos capazes de lutar pelas três competições. Não só em duas frentes e não ter de, a determinado momento da temporada, dar prioridade a duas das competições em detrimento de outra, que foi o que fiz na temporada anterior.

Durante essas conversações, já com a experiência que adquirimos durante a época que lá estivemos falámos de realizar algumas alterações para conseguirmos lutar pelas três competições. O resultado dessas conversações foi que não me foram dadas essas garantias. A partir daí, decisão muito difícil, obviamente, mas eu decidi não renovar o contrato.

O talento polaco tem vindo a estar cada vez mais presenta na I Liga, mas há um nome que é impossível ignorar desde a sua chegada. O Gonçalo esteve na ascensão de Oskar Pietuszewski na Polónia e também o defrontou depois em Portugal. Como foi ver 'nascer' este craque? 

Eu competi contra o Oskar Pietuszewski ainda na Polónia, o talento e o potencial dele já me era conhecido. Não vou esconder que o que me surpreendeu mais foi a velocidade com a qual ele se afirmou no FC Porto. Eu não esperava que fosse tão rápida a afirmação dele num contexto da I Liga. Por um lado, tem que se dar muito o valor à estrutura de recrutamento ao que identificaram nele, por outro lado, a estrutura do FC Porto, ao seu treinador, à sua equipa técnica, que lhe deram as ferramentas e as oportunidades, e depois, acho que isso fala muito também do grupo e dos jogadores que ele tem à volta. Eu sei que o Jan Bednarek e o Jakub Kiwior foi e são muito importantes para o que é o bem-estar do Oskar

Tem que se dar também valor ao que é o trabalho do Oskar, à sua mentalidade. Isso demonstra muito do que é o potencial dos jovens polacos neste momento. É uma cultura de trabalho, de intensidade, onde acho que as infraestruturas se têm desenvolvido bastante nesta década e meia, tanto no nível de futebol profissional como no nível de futebol de formação, as infraestruturas são fantásticas, têm tido uma evolução muito grande

E quais são os principais diferenciais entre os jovens que são formados em Portugal e nos que são formados na Polónia?

O produto do jogador polaco tem uma relação com bola interessante, a nível técnico o jogador polaco, acho que quanto mais jovem, cada vez mais vem com uma preparação técnica muito interessante, a capacidade física, a mentalidade, as questões de intensidade, competitividade, é algo que eles têm, e depois acho que há passos a fazer no que é a criação do produto do jogador polaco, essencialmente tem que ser dado ao nível do que é o ensinar e o formar a compreensão do jogo, dos seus movimentos, dos seus comportamentos, dos princípios do jogo, e acho que aí há ainda muitos passos para fazer

Por exemplo, Portugal, sendo um país com menos população, tem uma capacidade extraordinária de formar talento, baseado no que é o conhecimento sobre o jogo e a capacidade técnica. A Polónia, na minha opinião, tendo quase 40 milhões de pessoas no centro da Europa, a nível de população e de condições de trabalho, acho que tem tudo para se tornar num país muito importante, ter uma seleção nacional muito importante no que é o panorama internacional, mas ao nível da formação está ainda em crescimento

E como é que o modelo de formação português é visto pela Europa e mundo fora?

Em jeito de curiosidade, um dos meus adjuntos, que esteve comigo também no Tondela, o Pal Arne Johansen, eu chamo-lhe Paco, norueguês, treinou os sub-19, sub-20 e sub-21,toda esta geração da Noruega que agora encantou muito no Mundial2026, com Erling Haaland, Andreas Schjelderup, Oscar Bobb, Nusa, entre outros.

Ele é uma pessoa muito importante no desenvolvimento de projetos na Noruega, relacionado com o Bodo/Glimt, com o Viking, ou seja, equipas norueguesas na Liga dos Campeões. E ele fundou e trabalhou na Federação Norueguesa de Futebol, num departamento em que o trabalho deles era trazer sabedoria para o país sobre como formar, sobre questões táticas, questões técnicas, etc.

E então fizeram um estudo há alguns anos, em que os países que relativamente à população que conseguiam, de certo modo, ter um sobre rendimento na produção dos jogadores relativamente à população, sobressaíam na Europa dois países: Países Baixos e Portugal.

O que eles fizeram foi viajar para ambos e, em contornos muito gerais, entenderam que, em Portugal, era tudo muito mais metodológico do que propriamente nos Países Baixos. E, a partir daí, incidiram muito no estudo do futebol português, desde a capacidade de formação até às metodologias do futebol português e implementá-las.

E ele foi uma pessoa chave em implementar alguns desses ensinamentos na Federação da Noruega e o resultado é o que estamos a ver. E eu sei, porque estou por dentro, que há mais talento por vir e muito disso, acho que poucas pessoas em Portugal sabem, foi influenciado, precisamente, pelo futebol português. Eu acho que isto fala muito da nossa capacidade.

Portanto, é quase como dizer que o Haaland é culpa dos portugueses, quase. Não só, porque o talento está lá, mas...

É mais complexo do que isso, porque eles criaram uma cultura naquela seleção muito interessante, uma cultura de trabalho, de pensamento, confiança, de ir atrás dos sonhos. Isto tem que aumentar, é muito interessante, mas parte disso, não tenho dúvidas nenhumas, que sim, que fomos nós os 'culpados' pela ascensão do Haaland.

"Vou estar sempre grato ao Tondela. Treinar na I Liga foi muito especial"

Gonçalo Feio conversou, em exclusivo, com o Desporto ao Minuto, numa entrevista sobre o percurso desde o início até ao ponto atual da sua carreira, passando pela Polónia e falando na sua aventura no Tondela, onde escolheu não ficar após a despromoção.

Davide Rodrigues Araújo | 07:35 - 19/10/2026

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