Pular para o conteúdo
Publicidade

Ativistas de Newark gritam por liberdade frente a 'gulag' da imigração

M
Minuto Fonte Externa
26 de outubro de 2026 • 7 min de leitura
Ativistas de Newark gritam por liberdade frente a 'gulag' da imigração

A luta pelos direitos dos imigrantes nos Estados Unidos travou-se no domingo também perto de uma das maiores comunidades portuguesas no país, com um protesto que levou algumas dezenas de ativistas a uma prisão no meio de nenhures.

 

Doremus Avenue é uma longuíssima estrada numa zona industrial onde fica Delaney Hall, uma prisão local da polícia de fronteiras e imigração norte-americana.

Ouvem-se ao longe apitos de comboios de mercadorias e bandos de corvos que enchem os cabos e postes de eletricidade.

Os cerca de sessenta manifestantes representam sindicatos locais e organizações esquerdistas que não poupam nos adjetivos que aplicam às instalações e aos agentes que ali trabalham.

Ao cabo de meses de protestos em frente a Delaney Hall, os muros que rodeiam o complexo prisional ficaram cheios de pichagens, com uma que ressalta: "De Dachau a Delaney, um nazi é um nazi".

"Descrevê-lo como um campo de concentração não é um exagero. Isto é uma abominação. Queremos que toda a gente seja libertada, que isto seja fechado e literalmente demolido até só sobrar entulho, porque não devia existir", diz categoricamente à Lusa o sindicalista Geoff Johnson, que trabalha para a universidade pública de Nova Iorque.

O número exato de detidos é uma incógnita, mas calcula que sejam perto de um milhar no monolítico edifício rodeado de arame farpado e vedações, para onde são levadas as pessoas detidas na zona de New Jersey e Nova Iorque.

"O número varia, mas costuma haver sempre algumas centenas de pessoas aqui. É difícil, porque eles transferem-nas, algumas pessoas passam aqui pouco tempo enquanto outras ficam meses e meses. São forçados a trabalhar, é escravatura, pagam-lhes praticamente nada", refere.

Geoff Johnson salienta que "a maior parte destas pessoas tem um pedido de asilo por resolver ou está em processo de legalização".

"Toda a gente que aqui está podia estar em liberdade. Foi assim que a imigração funcionou durante a maior parte da história da América. Agora temos uma rede de 'gulags' com milhares de pessoas por todo o país", condena.

"Este sítio tresanda, o ar é poluído e ninguém vive aqui à volta. Pode viver-se em Newark a vida inteira sem ter noção de que este sítio existe", admite Geoff.

Em Newark, onde reside uma das maiores comunidades portuguesas e de lusodescendentes, há famílias que tiveram contacto com Delaney Hall pelas piores razões: ou porque amigos ou familiares foram detidos, ou porque testemunharam em primeira mão uma rusga do ICE.

Um membro do sindicato de bibliotecários de Newark, Karl, diz à Lusa que "muitas pessoas têm medo de sair à rua, não participam na vida social como antes e há muita gente a sofrer por causa disso".

"Temos visto o ICE prender pessoas na rua. Vi agentes de cara tapada aparecer de surpresa e as pessoas a fugirem em todas as direções", conta.

Os sindicalistas que apareceram hoje neste protesto mensal "trabalham ao lado dos imigrantes" e podem lutar, por exemplo, fazendo greves.

"Nós estamos organizados, temos recursos e influência no sistema eleitoral, que estamos a usar para dizer, como trabalhadores, que isto é inaceitável", afirma.

Geoff Johnson recorda que em Minneapolis, no estado do Minnesota, a mobilização de cidadãos conseguiu levar o Governo a retirar os agentes do ICE da cidade.

O que os ativistas presentes neste protesto e as organizações que representam tentam criar é uma cada vez maior "rede de resposta rápida".

"É uma designação geral para tentarmos responder às rusgas do ICE quando tentam raptar pessoas. Conversamos pela [aplicação de mensagens] Signal e quando alguém os avista, avisa e pede a quem pode que vá lá ter", descreve.

A rapidez é essencial porque "tudo se passa em minutos: as pessoas são apanhadas na rua, levadas para centros de detenção como este e, muitas vezes, levadas para outros estados", o que se pode tentar travar legalmente, mas tudo tem que ser feito imediatamente.

Os protestos como o de hoje chamam-se "Labour eyes on ICE" – "Sindicatos de olho no ICE" e decorrem frente a Delaney Hall desde maio de 2025.

O ambiente, relata Geoff, costuma ser pacífico, sem grandes interações.

Hoje, uma das ativistas dirigiu-se aos agentes na guarita por trás da vedação, mas sem grande respostas por parte dos agentes, câmara GoPro ao peito, caras cobertas por máscaras, uma delas com as cores da bandeira dos Estados Unidos.

"Para mim, os agentes do ICE são como mercenários, caçadores de recompensas. O que fazem é completamente ilegítimo, não andam atrás de criminosos. Os únicos 'crimes' destas pessoas são multas por pagar ou estão relacionados com o seu estatuto de imigração", considera Geoff Johnson.

"Não são gangsters, são pessoas com famílias, que trabalham, estão cá há décadas, os filhos nasceram cá. Toda a gente devia ter papéis. É absurdo, ridículo deportá-las" ou prendê-las em sítios como Delaney Hall, que é gerido e controlado pelo grupo privado GEO, dono de uma centena de prisões nos Estados Unidos, Austrália, África do Sul e Reino Unido.

"Eu vejo isto como uma forma de tortura. Não há acesso a cuidados de saúde. Que saibamos, já morreram aqui três pessoas. Isto é tão extremo, isto é que é fascismo", condena Geoff.

Nos cartazes dos manifestantes, pontuam vários nomes, como Emiliano Andrade Covarrubias, um mexicano de 56 anos que morreu na semana passada num centro como Delaney Hall em Laredo, no Texas.

Mary e o marido David estão reformados, mas o caso comoveu-a tanto que decidiu trazer o nome de Covarrubias para Newark.

"Já cá estivemos antes para afirmar que há pessoas que ainda têm coragem de enfrentar este regime fascista que agora domina os Estados Unidos", diz à Lusa.

Mary tem, como muitos dos manifestantes, pouca fé na possibilidade de as eleições de meio de mandato, a 03 de novembro, mudarem alguma coisa para deixarem de morrer pessoas como o mexicano Covarrubias.

"Penso que se fosse uma eleição justa e livre, os democratas ganhariam o congresso e podiam estar em boa posição para ganhar o Senado. Mas não tenho confiança nisso por causa de todos os que estão por trás de Trump. Ele diz há anos: "Porque é que não hei de ser um ditador? Porque é que não hei de ter um terceiro mandato?".

Karl espera apenas que "Trump perca as 'midterms'".

"Seria horrível se Trump ganhasse e se pusesse a mexer no sistema eleitoral, portanto é importante que ele perca. Mas não acredito que os democratas consigam trazer justiça às nossas comunidades da maneira que queremos que aconteça", admite.

O sol começa a pôr-se e os manifestantes, que tomaram à vez um megafone para apelar à mobilização e expor as razões do protesto, põem-se a andar em círculo gritando palavras de ordem: "Free them all" ["Libertem todos"] e, em castelhano, "Papeles para todos".

"Sabemos que as pessoas lá dentro já nos ouviram. Conseguem ver-se silhuetas de pessoas à janela, sobretudo quando houve ali dentro uma greve de fome e ao trabalho. Algumas tinham acesso a telemóveis e conseguiram falar para as pessoas que aqui estavam", conta Geoff Johnson.

Leia Também: Passageiro amarrado com fita adesiva em pleno voo após insultos racistas

Conteúdo importado automaticamente via RSS de Minuto.

Todos os direitos autorais e de propriedade intelectual pertencem ao veículo de origem. Leia a matéria completa na fonte original

Publicidade

Gostou? Compartilhe

Mande para os amigos ou publique nas suas redes.

Comentários (0)

Nenhum comentário publicado ainda.

Seja o primeiro a compartilhar sua opinião sobre esta matéria!

Deixe seu comentário

Seu e-mail não será divulgado publicamente. Comentários passam por moderação antes da publicação.