Bispos alertam para crise humanitária e empobrecimento na Venezuela
A Conferência Episcopal Venezuelana (CEV) alertou hoje para o "empobrecimento generalizado" na Venezuela e apelou à realização urgente de eleições livres e transparentes como caminho para superar a grave crise política e social.
"Comprovamos que continua a agravar-se o clima político do país, marcado pela polarização, falta de institucionalidade e a restrição de garantias democráticas [...]. O país requer a realização de eleições livres e transparentes, com um Conselho Nacional Eleitoral imparcial e um Supremo Tribunal de Justiça independente", alertam os bispos na exortação pastoral "Encontro, Escuta e Comunhão", divulgada ao finalizar da CXXVI Assembleia Ordinária Plenária.
No documento, a Igreja Católica traça um diagnóstico crítico da realidade venezuelana, sublinhando que a população sofre o impacto de uma "crise humanitária" marcada pela perda do poder de compra, destruição das pensões e falhas em serviços essenciais como a eletricidade.
"Reafirmamos que a Igreja não permanece alheia à dor do seu povo, [...] contemplamos com preocupação o empobrecimento generalizado, a violação dos direitos humanos e o sofrimento dos venezuelanos, tanto dentro como fora do país, devido à violência, à lentidão processual com presos políticos [...] assim como ao abandono institucional", explica a CEV, exortando a "colocar a dignidade humana acima de qualquer conjuntura".
A CEV aponta que a educação atravessa uma "trágica e profunda crise estrutural", com salários paupérrimos dos docentes, escolas precárias e alta deserção. Na saúde, denuncia a "escassez persistente de insumos" e salários insuficientes do pessoal médico, lembrando que a caridade eclesial "não substitui a obrigação fundamental do Estado".
Economicamente, a CEV nota que o povo não tem salários dignos, mas sim "uma compensação salarial através de bónus, a pulverização das pensões, a distorção causada pelo uso de múltiplas moedas [...] e a informalidade laboral".
"Tudo isto gerou uma profunda desigualdade onde a maioria não cobre a cabaz básico. A esta situação soma-se o gravíssimo problema do sistema elétrico, que afeta profundamente a qualidade de vida do venezuelano. Olhamos com preocupação que, apesar da ´'tutelagem económica' [dos EUA], as receitas da produção petrolífera não repercutiram no bem comum do povo venezuelano", sublinham.
Apesar do cenário, a CEV diz encontrar "sinais de esperança", destacando a libertação de presos políticos — que "deve continuar para que ninguém esteja detido por pensar diferente" —, uma maior liberdade de expressão para a imprensa, a diminuição de operações stop extorsivas e a recuperação petrolífera.
Como linhas de ação, os bispos propõem o fortalecimento das Vigarias de Direitos Humanos, a criação de um "acordo nacional baseado na verdade, perdão, justiça e reconciliação" e a revogação das leis que restringem a atuação das ONG.
"Convocamos todos os venezuelanos a juntarem-se num grande plano de reconstrução nacional: um caminho integrador, democrático e ético que nos encaminhe para a paz duradoura", conclui o documento.
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