"Borlas" imobiliárias em Cascais? "Pornográficas". O que está em causa
A Câmara Municipal de Cascais terá dado milhões em "borlas" imobiliárias. Segundo a revista Sábado, a autarquia distribuiu milhões em isenções milionárias a empreendimentos de luxo, com o Ministério Público (MP) a impugnar decisões de Miguel Pinto Luz, antigo vice-presidente da Câmara e atual ministro das Infraestruturas.
Em causa estão várias "borlas" dadas pelo município a promotores imobiliários no concelho e que, de acordo com a publicação, só entre 2021 e 2016 totalizaram "10 milhões de euros".
Na contabilização da revista Sábado, desde 2021, sem contar com as que estão para trás, referem-se as isenções de 1,3 milhões para a Poetikdiscovery num hotel e apartamentos em Carcavelos, 1,1 milhões para a Aquatecnica e um empreendimento na Marginal, 1,3 milhões à Greatflags num hotel e residência sénior ou 2,1 milhões num campus da saúde da CUF.
Isenções para projetos de luxo? "Insultuosas" e "pornográficas"Estas isenções de avultadas compensações urbanísticas a empreendimentos de luxo no município de Cascais são consideradas insultuosas e "pornográficas" por vereadores da oposição no executivo, apesar de o atual presidente da câmara justificar que se baseia num regulamento.
"Tendo em conta que isto representa um valor que podia ter sido investido em habitação, em habitação pública acessível, é particularmente insultuoso", comentou à Lusa João Maria Jonet, sobre o tema.
Já o vereador socialista João Ruivo considerou (e questionou) à Lusa: "Estas benesses são pornográficas. São uma coisa que não tem explicação. E mais, que é a única parte que é importante, que é qual é o benefício que Cascais e os cascaenses recebem por a câmara isentar estas empresas deste pagamento?"
Para o líder do movimento Jonet - Cascais para Viver, no caso da isenção da taxa de compensação ao empreendimento Penha Longa Elite Villas, aprovado no executivo, mas chumbado na assembleia municipal, "mesmo a razão pela qual as contrapartidas deviam ser pagas é insultuoso", por se tratar "de um empreendimento que cortou imensas árvores" e o estudo de impacto "concluiu que já não havia património para destruir".
"E depois, quando tem que pagar um milhão e tal de euros por compensação ao facto de não ter construído espaços verdes, nem isso paga", acrescentou João Maria Jonet, embora neste caso situado no Parque Natural de Sintra-Cascais (PNSC) a proposta de isenção de 1,2 milhões de euros tenha sido recusada pelos deputados municipais da oposição, após a maioria PSD/CDS-PP que governa o município se abster.
Embora a isenção se tenha fundamentado num regulamento municipal de taxas e compensações, para o autarca da oposição "o regulamento não é relevante" e "os políticos têm que ter a vergonha de não aprovarem estas medidas que ninguém percebe".
No próprio dia da assembleia municipal, Jonet publicou um vídeo no qual denunciava a proposta de isenção da "maioria PSD-CDS-Chega, que governa a Câmara de Cascais" no PNSC e incluía uma citação do presidente da autarquia, Nuno Piteira Lopes (PSD), a explicar que se tratava "apenas e exclusivamente o cumprimento de um regulamento que está em vigor".
O regulamento, acrescentou Piteira Lopes, "permite que o promotor faça esta solicitação" e que a "câmara tome a mesma medida, o mesmo caminho do que já foi seguido para o mesmo tipo de pedidos, no mesmo tipo de situações".
Por seu lado, o socialista João Ruivo admitiu que "o regulamento municipal prevê que possam haver algumas exceções ao pagamento das compensações", mas destina-se a instituições ou associações culturais que "não têm capacidade nem de ceder" para espaços verdes ou sem "capacidade financeira para o pagar".
"Alguém aproveitou essa possibilidade para alargar o âmbito a empresas privadas que lucram milhões com os apartamentos e que, mesmo assim, a câmara lhes dá milhões de benesse", apontou o socialista, considerando, no entanto, que a autarquia "não é obrigada a aceitar, só porque está prevista a possibilidade num regulamento".
Além disso, foi apresentada nas instâncias europeias uma queixa "porque essa benesse pode ser considerada como uma ajuda de Estado", colocando em causa a concorrência, por se privilegiar um promotor "em detrimento" de outro.
O Notícias ao Minuto contactou a Câmara Municipal de Cascais no sentido de obter mais informações e, até ao momento de publicação deste artigo, não obteve resposta.
Miguel Pinto Luz: "Tenho muito gosto de ir à Assembleia da República"Por sua vez, o ministro, questionado sobre a notícia da revista Sábado, segundo a qual o novo regime jurídico da Urbanização e Edificação (RJUE) e da Reabilitação Urbana (RJRU), aprovado em maio pelo Governo, encurtou prazos para impugnar licenciamentos, podendo impedir a contestação a decisões tomadas enquanto vice-presidente da Câmara de Cascais, disponibilizou-se para esclarecimentos no Parlamento.
"Não, não foi feita à medida, é um decreto-lei generalizado. Estou absolutamente tranquilo com essa dimensão e tenho muito gosto de ir à Assembleia da República, as vezes que forem entendidas, já fui muitas e continuarei a ir", assegurou Pinto Luz, questionado sobre o assunto na conferência de imprensa após o Conselho de Ministros.
O PS pediu uma audição parlamentar urgente do ministro da Habitação e Infraestruturas por suspeitar de conflito de interesses na aprovação do novo regime de reabilitação urbana, alegando que o governante pode ter beneficiado dessas alterações, nomeadamente no caso do Hotel Hilton, na Parede, embargado pelo Ministério Público.
Também o Bloco de Esquerda requereu a audição urgente no Parlamento de Miguel Pinto Luz sobre o RJRU, considerando que o diploma suscita dúvidas de isenção.
Lei de Pinto Luz é um "fato à medida", acusa vereador de CascaisVereadores da oposição no executivo municipal de Cascais não estranham as suspeitas sobre conflitos de interesses do ministro Miguel Pinto Luz na alteração de legislação urbanística, mas o governante recusou que o diploma tenha sido feito à sua medida.
Lusa | 20:47 - 14/10/2026Conteúdo importado automaticamente via RSS de Minuto.
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