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Casa onde viveu Samora Machel na Mafalala inspira sonho de museu

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Minuto Fonte Externa
18 de outubro de 2026 • 6 min de leitura
Casa onde viveu Samora Machel na Mafalala inspira sonho de museu

A antiga casa onde Samora Machel viveu como inquilino na Mafalala, Maputo, transformada pelo tempo e crescimento urbano, inspira, 40 anos após a sua morte, apelos à conversão num museu dedicado à memória do primeiro Presidente moçambicano.

 

Hoje reconstruída em alvenaria e com traços mais modernos, a pequena e histórica casa guarda poucos traços da antiga, de madeira e zinco, que acolheu o então enfermeiro Samora Machel nos anos 1960, antes de assumir a liderança da luta de libertação nacional e, mais tarde, do país independente.

"Era boa pessoa. Ajudava muita gente, dava injeções, andava casa a casa, ajudou muita gente", conta à Lusa Aua Mussá Anacleto, de 72 anos, a poucos metros da antiga residência, enquanto acompanha da varanda da sua casa o movimento quotidiano das ruas estreitas da Mafalala, bairro que foi também palco central da luta anticolonial em Maputo.

Nascida e criada no bairro, Aua Mussá Anacleto diz ter crescido a ouvir histórias sobre Samora Machel, que morreu num acidente aéreo há 40 anos, em 19 de outubro de 1986, contadas pela mãe e por outros moradores mais velhos. Muitas dessas recordações remetem para o período em que o futuro Presidente trabalhava como enfermeiro e era conhecido pelo apoio prestado à população.

Nascido em 29 de setembro de 1933, em Chilembene, distrito de Chókwè, província de Gaza, Samora Machel trabalhou como enfermeiro na Ilha de Inhaca e no então Hospital Miguel Bombarda, atual Hospital Central de Maputo, antes de abandonar o país, em 1963, para se juntar à Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), fundada no ano anterior na Tanzânia.

A memória desse período atravessa também a própria casa de Aua Mussá Anacleto. Ao apontar para uma sala modesta que conserva traços das antigas construções da Mafalala, recorda histórias associadas aos últimos anos do período colonial.

"Essa sala era a reunião deles", afirma, indicando o compartimento onde, segundo recorda, se reuniam figuras ligadas aos movimentos nacionalistas.

A poucos metros dali, as recordações ganham uma dimensão mais concreta na antiga residência onde Samora Machel viveu como inquilino. A proprietária da casa, que prefere não ser identificada, recorda-se dos anos em que o futuro Presidente arrendava o imóvel aos seus pais.

"Eu passava o recibo e já estava na terceira, quarta classe e já sabia escrever. Passava o nome dele", conta à Lusa.

Segundo recorda, Samora Machel vivia na residência com uma tia e dois irmãos, uma casa de quatro divisões: duas salas e dois quartos.

A família guardou sempre uma imagem positiva do antigo inquilino.

"Pelo que ouvi e vi, ele passava todos os meses para mandar o dinheiro da renda. A minha mãe nunca se queixou", brinca.

Também ela ouviu inúmeras histórias sobre o enfermeiro que ajudava os moradores do bairro: "Soube que ele era enfermeiro e ajudava muitas pessoas aqui".

Anos depois, Samora Machel assumiria o comando das Forças Armadas de Libertação de Moçambique, tornar-se-ia líder da Frelimo após o assassínio de Eduardo Mondlane, em 1969, e proclamaria a independência nacional em 25 de junho de 1975, assumindo o cargo de primeiro Presidente da República.

Durante a sua governação, adotou um modelo político socialista, promoveu a nacionalização de setores estratégicos e apostou na expansão dos serviços públicos de educação e saúde.

A casa onde viveu, porém, seguiu um percurso mais discreto. Com o passar dos anos, a degradação da estrutura obrigou à realização de sucessivas obras.

"Calhou chover e aquilo estava a pingar. A primeira coisa que ele fez foi comprar chapas de zinco", recorda a proprietária, referindo-se a um dos irmãos que regressou da África do Sul e decidiu recuperar a habitação.

As obras acabariam por alterar o aspeto original da residência.

"Quando foram reabilitar a casa viram que a própria madeira já estava cansada. Tinham de tirar tudo e pôr de novo. Já agora, em vez de pôr outra vez, vamos pôr em blocos", explica.

Apesar das transformações, considera que a ligação da casa à história do país continua a ser motivo de orgulho.

"Foi uma honra muito grande. De certa forma dignificou-nos. Ele viveu na casa que era dos meus pais", afirma.

É precisamente essa memória que Arnaldo Nuvunga, de 29 anos, procura transmitir aos filhos.

"Desde a infância. Os cotas diziam que ele residia aqui", conta à Lusa. Crescido na Mafalala, recorda que ouviu desde cedo relatos sobre a passagem de Samora Machel pelo bairro.

"Na altura não era assim. Era de madeira e zinco", recorda o jovem, já pai de duas crianças, que faz questão de mostrar a casa aos filhos sempre que passa pelo local.

"Quando passamos por aqui, aponto e digo que esta casa foi do primeiro Presidente", afirma.

Segundo relata, a reação das crianças é sempre de surpresa: "Eles ficam 'uau'".

Para Arnaldo Nuvunga, a preservação dessa memória não deve depender apenas das histórias transmitidas pelos moradores.

"Podia mesmo, de facto, ser um museu", defende, acrescentando: "Ser uma biblioteca, recordar ainda mais dele".

A ideia é partilhada por outros residentes, que defendem a transformação da antiga residência num espaço de memória dedicado à história da Mafalala e do primeiro Presidente moçambicano.

Para o jovem, seria uma forma de preservar o legado de Samora Machel, "para não esquecer dele e do que ele fez pelo país".

Samora Machel morreu em 19 de outubro de 1986, num desastre aéreo em território sul-africano. Quarenta anos depois, a casa onde viveu na Mafalala continua a sobreviver entre as mudanças da cidade e as memórias dos moradores, que defendem que o imóvel encontre um lugar permanente na história que ajudou a construir.

Leia Também: Frelimo anuncia apoio à candidatura de Chapo a Presidência em 2029

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