Colombo? Apelos à "rebelião" são reais, mas criadores só queriam cliques
É verdade que circulam cartazes e vídeos a apelar à "rebelião" e até ao saque e vandalização de lojas no Colombo, no sábado, mas vários foram feitos por jovens criadores de conteúdos só para gerar cliques.
Alegação: "africanos apelam aos outros africanos para cometerem actos de vandalismo e assaltos no Colombo este sábado à tarde"
Na última semana viralizaram e foram notícia apelos e cartazes sobre uma alegada "rebelião" no Centro Comercial Colombo no próximo sábado, 31 de outubro, pelas 17:30, tendo como objetivo a "invasão" e saque de lojas como a JD Sports e a "vandalização" daquele espaço comercial: https://archive.ph/DaQWU, https://archive.ph/1nQpM, https://archive.ph/7tdne e https://archive.ph/OswPN.
O tema ganhou destaque com as denúncias feitas por várias contas de responsáveis do Chega e de grupos de extrema-direita, que amplificaram os alegados apelos à rebelião que estariam a circular no TikTok e em redes fechadas como grupos de WhatsApp.
Uma das primeiras denúncias partiu do deputado municipal do Chega, Ruben Migueis, que em várias redes sociais revelou que estaria marcada para dia 31 uma "rebelião no Centro Comercial Colombo para saquear como fazem em França" e informou que reportou o caso à PSP: https://archive.ph/TQgy2 e https://archive.ph/ENkmd.
Essa denúncia baseou-se em dois vídeos retirados do TikTok, onde um jovem dizia que já tinha a lista do que queria "pegar", nomeadamente "uma Play 5 e uns fatos na JD", e recomendava aos participantes para "irem de preto e com uma balaclava". Na segunda parte, outro jovem apelava à participação na rebelião "se todos concordarem" para dar apoio à França porque em Portugal as coisas não estão muito diferentes".
Os dois vídeos foram posteriormente partilhados por várias contas ligadas à extrema-direita, algumas com mensagens racistas, como "africanos apelam aos outros africanos para cometerem actos de vandalismo e assaltos no Colombo este sábado à tarde: https://archive.ph/NrDic, https://archive.ph/a7l8J e https://archive.ph/Z9aFg.
As imagens acabaram igualmente denunciadas pelo presidente do Chega, André Ventura, que lhes deu centenas de milhares de visualizações em publicações onde denunciou que "já têm hora e tudo para ir pilhar e vandalizar um centro comercial" e que "o país está a ficar sem controlo e temos de parar isto": https://archive.ph/U12jr, https://archive.ph/ToP4B e https://archive.ph/CkydT.
Factos: Apelos e cartazes são reais, mas muitos foram partilhados apenas para gerar visualizações e entretanto apagados
A Lusa Verifica começou a investigar as denúncias e as publicações nas várias redes sociais ainda na sexta-feira, 23 de outubro, e acompanhou ao longo da semana a evolução dos apelos à "rebelião" nas redes sociais, parte deles já eliminados.
Nesse processo, foi detetado que o mesmo fenómeno estava a acontecer em simultâneo em vários países, como entretanto também alertaram vários media e verificadores em Espanha, por exemplo: https://archive.ph/icT6n, https://archive.ph/NUTBL, https://archive.ph/rOxv5 e https://archive.ph/OmSSE.
Devido ao volume de publicações e a suspeitas de se tratar de um caso com origem em manipulação da informação e ingerência por parte de agentes estrangeiros (Foreign Information Manipulation and Interference ou FIMI), a Lusa solicitou apoio a Inês Narciso, investigadora especializada em FIMI e responsável pela integridade da informação na organização Protect.ngo.
Na investigação conjunta realizada desde então foi possível apurar que entre os dias 18 e 21 de outubro já circulavam no TikTok vídeos inspirados nos acontecimentos em França, alguns com a mesma música e frases do género "Eu e os meus amigos de olho na JD e na Apple caso as manifestações ultrapassem os limites em Portugal".
Nessa fase, estas publicações e o perfil de contas identificadas sugerem adaptações de uma tendência juvenil transnacional que foi sendo adaptada ao contexto português, inicialmente sem uma convocatória concreta para o Colombo.
No dia 20, surge pela primeira vez um vídeo de dois jovens, aparentemente menores, já a falar numa revolução no dia 31, ainda sem qualquer cartaz, mas com referências nos comentários à existência de um grupo de WhatsApp.
Mais tarde, no dia 26, um desses jovens, publicou outro vídeo a explicar que "a rebelião de dia 31" era tudo "uma brincadeira que foi longe demais".
Os posters com apelos à "rebelião", "invasão" e "vandalização" surgem também a partir de 20 de outubro, embora a origem não seja clara, e há contas que têm partilhado outros cartazes com uma espécia de contagem decrescente: https://archive.ph/hO2nG.
A Lusa Verifica enviou várias questões a este jovem de 19 anos, mas não obteve respostas, e embora tenha arquivado e analisado vídeos e publicações de dezenas de contas, optou por não divulgar a maior parte desses registos por se poderem tratar de jovens menores de idade.
A investigação identificou também dois grupos fechados de WhatsApp, um deles com 260 membros a cujos contactos foi possível aceder, mas que entretanto deixou de estar disponível, e outro com mais de 760 membros, a cujos conteúdos apenas foi possível aceder parcialmente, mas que revelam que muitos dos participantes têm alertado para a atenção que a PSP está a dar ao tema, como também tem sido noticiado (ver links já citados).
No caso dos vídeos denunciados pela extrema-direita, ambos os jovens já os eliminaram ou ocultaram e publicaram vários pedidos de desculpa e explicações a negar apoio a qualquer roubo ou ação violenta, alegando que pretendiam fazer vídeos humorísticos para ganhar visualizações com o tema.
Por exemplo, ainda na sexta, 23, o jovem com a conta @dengobaz, identificável nas denúncias, publicou uma 'live' de mais de 45 minutos em que explicou o contexto "irónico" e "humorístico" da publicação e posteriormente partilhou pelo menos três esclarecimentos no mesmo sentido: https://archive.ph/tyoOd, https://archive.ph/TMMkM e https://archive.ph/yJWoA.
Para a investigadora Inês Narciso, este episódio parece resultar de "uma tendência juvenil inspirada em França que foi adaptada por alguns criadores portugueses, ganhou uma dimensão de mobilização concreta e acabou por fugir ao controlo de quem inicialmente a promoveu."
Ou seja, tanto quanto foi possível apurar, e ao contrário das suspeitas iniciais e dos indícios que investigações noutros países detectaram, não se tratará de um caso direto de FIMI porque, entre outros aspetos, não foram detectados indícios de amplificação artificial.
Além de não terem sido detectadas contas recém criadas apenas com o propósito de divulgar a "rebelião", o que poderia apontar para FIMI, "os resultados da análise realizada também não revelaram desvios particularmente significativos face ao comportamento habitual de cada conta envolvida".
"As percentagens de partilhas e 'saves' estavam, de forma geral, dentro dos intervalos observados noutras publicações dos mesmos utilizadores e, em alguns casos, vídeos sem qualquer relação com o Colombo apresentavam até taxas superiores", explica a investigadora.
Neste cenário, a conclusão de Inês Narciso é a de que "para os vídeos associados a esta narrativa, não existem aparentes indicadores de interações anómalas que sustentem a hipótese de amplificação artificial ou de comportamento inautêntico coordenado (CIB). Isto não exclui outras formas de manipulação, mas enfraquece bastante essa hipótese com base nas métricas disponíveis."
Avaliação Lusa Verifica: Verdadeiro, mas
É verdade que estão a circular nas redes sociais vários cartazes e vídeos a apelar a uma "rebelião" e até ao saque e vandalização de lojas no Colombo, no sábado, 31 de outubro, mas várias dessas publicações foram feitas por jovens criadores de conteúdos apenas para gerar cliques.
A análise de dezenas de publicações e de contas revela que ao contrário de indícios registados noutros países, onde estão a acontecer apelos semelhantes, em Portugal o fenómeno parece não resultar de uma amplificação coordenada de ingerência estrangeira, mas sim de uma adaptação, por mimetismo, de uma tendência juvenil transnacional.
Grupo convoca "rebelião" em centros comerciais. PSP acompanha informaçãoVídeos partilhados nas redes socias mostram uma convocatória para uma "rebelião" em centros comerciais, informação que a Polícia de Segurança Pública está "a acompanhar". Grupo com cerca de 500 pessoas no WhatsApp estará associado a esta mobilização.
Notícias ao Minuto | 15:19 - 24/10/2026
Conteúdo importado automaticamente via RSS de Minuto.
Todos os direitos autorais e de propriedade intelectual pertencem ao veículo de origem. Leia a matéria completa na fonte original
Leia Também
Ver todas as notícias →
Musica
Rafyah convoca a um despertar urbano em "Várias Fitas", primeiro single de seu álbum solo "A Gota"
30/10/2026
Cultura & Lazer
Colubrina do século XVI de Angra do Heroísmo proposta para tesouro
30/10/2026
Cultura & Lazer
Peça "A 20 de novembro" de Teatro Gíria nomeada para prémio no Uruguai
30/10/2026Comentários (0)
Nenhum comentário publicado ainda.
Seja o primeiro a compartilhar sua opinião sobre esta matéria!
Deixe seu comentário
Seu e-mail não será divulgado publicamente. Comentários passam por moderação antes da publicação.