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Como jovens moçambicanas transformaram frustração em negócio próprio

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Minuto Fonte Externa
26 de outubro de 2026 • 6 min de leitura
Como jovens moçambicanas transformaram frustração em negócio próprio

Margarida Pirilão, 19 anos, transformou a desilusão sentida ao falhar a entrada na universidade em oportunidade e abriu uma loja de artigos para confeitaria nos arredores de Maputo com apoio de um projeto da organização portuguesa Helpo.

 

Entre formas de alumínio para bolos, corantes alimentares e pacotes de farinha alinhados nas prateleiras da pequena loja que abriu no bairro de Possulane, em Marracuene, a cerca de 30 quilómetros de Maputo, Margarida Pirilão tenta construir um caminho alternativo para o sonho de ser a primeira licenciada da família, adiado quando falhou o acesso à universidade.

"Foi muito triste, muito triste, porque eu havia criado expectativas (...). Depois de terminar o ensino secundário, o meu sonho era mesmo ingressar na faculdade", conta à Lusa, ao recordar um dos momentos mais difíceis da sua vida.

Durante meses, Margarida imaginou-se numa sala de aulas universitária a estudar contabilidade. Depois de concluir a 12.ª classe, em 2024, candidatou-se a várias instituições de ensino superior.

"Se eu tivesse ingressado no ensino superior naquela época, eu seria a primeira em casa a fazer faculdade. Então também foi sonho deles [os pais] que eu fizesse faculdade", recorda.

A frustração aumentou quando viu várias amigas serem admitidas enquanto ela permanecia em casa, sem saber qual seria o passo seguinte.

"Quando falávamos, elas diziam que tinham sido admitidas. Então eu pensava: elas vão continuar e eu vou ficar em casa sem fazer nada. Será um ano perdido", lembra.

Todos os anos, milhares de jovens moçambicanos concluem o ensino secundário com o objetivo de ingressar no ensino superior, mas muitos ficam de fora devido à escassez de vagas nas universidades públicas, ficando durante meses ou anos sem estudar nem trabalhar.

Sem emprego e fora do sistema de ensino, Margarida passou meses entre a desilusão e a incerteza até integrar, em 2025, o projeto Informar, promovido pela Helpo, organização não-governamental para o desenvolvimento com sede em Portugal. A iniciativa destina-se a raparigas que concluem o ensino secundário e enfrentam dificuldades para prosseguir os estudos ou entrar no mercado de trabalho.

Um dos momentos mais marcantes da formação surgiu quando foi confrontada com uma dificuldade que carregava desde a reprovação nos exames de admissão.

"Eu não sabia lidar com as emoções. Quando não admiti, foi muito triste, até chorei", recorda.

"Depois que eu fiz a formação, pude perceber que tudo tem o seu tempo", acrescenta.

Foi durante esse período que começou a pensar numa alternativa. A ideia do negócio, orçado em cerca de 120 mil meticais (1.600 euros), surgiu depois de percorrer o bairro onde vive e conversar com moradores sobre as dificuldades do dia-a-dia.

"Conversei com algumas senhoras. Elas falaram que para comprar material para bolos precisavam ir para a vila, se não tivesse na vila, precisam ir para o Zimpeto"", explica.

Foi assim que identificou uma necessidade no mercado local e decidiu avançar com o projeto. Hoje, a jovem já tem clientes regulares e fala do futuro com confiança. Nos planos está a expansão do negócio, a criação de empregos para outras mulheres e a concretização do sonho de frequentar a universidade.

"Penso em não deixar o negócio, mas seguir o meu sonho que é fazer o ensino superior", diz.

A história de Margarida não é única. No bairro do Benfica, na cidade de Maputo, Thelma Mande, também de 19 anos, enfrentou dúvidas semelhantes quando terminou o ensino secundário.

Após concluir a 12.ª classe, em 2023, ficou sem estudar nem trabalhar.

"Eu era uma pessoa que não estava a fazer nada. Fazia algumas tarefas de casa e passava o resto do dia em casa", conta.

A rotina sem perspetivas começou a afetar a forma como se via a si própria: "Eu sentia que não fazia algo que contribuísse para o meu futuro".

Sem saber como transformar o desejo de independência financeira numa atividade concreta, atravessou um dos períodos de maior dúvida da vida.

"Sentei na minha casa e perguntei: o que eu vou fazer da minha vida? O que eu tenho a oferecer para melhorar a minha vida e alcançar os meus sonhos?", recorda.

Segundo a jovem, foi a mãe quem lhe deu a conhecer o projeto Informar.

"A minha mãe recebeu uma ligação do projeto Informar e disse para eu tentar entrar para ver no que dava", conta.

Thelma aceitou o desafio e acabou por transformar a fase de incerteza numa pequena mercearia no bairro do Benfica, aberta em março deste ano com um financiamento semelhante ao recebido por Margarida.

"O que mais me marcou foi aprender a reconhecer-me, a ganhar conhecimento e a confiar mais em mim", afirma.

Para a jovem, a maior mudança não foi apenas a abertura do negócio, mas a forma como passou a olhar para si própria.

"Consigo olhar-me no espelho e dizer que sou a Thelma que eu queria ser", diz.

A mudança fez-se sentir também dentro de casa. Se antes dependia inteiramente da mãe, hoje contribui para as despesas familiares.

"Consegui ajudar a minha mãe a pagar algumas coisas em casa, a pagar gás e a comprar alimentos", acrescenta.

Os planos não terminam na mercearia. Thelma quer regressar aos estudos já no próximo ano e sonha expandir os seus negócios.

"Pretendo voltar a estudar no próximo ano", afirma, referindo que gostaria "de empreender noutra área para criar oportunidades de emprego para outras raparigas".

Margarida e Thelma fazem parte de um grupo de jovens selecionadas em escolas secundárias da capital, nomeadamente a Noroeste 1 e a Heróis Moçambicanos.

Segundo Marília Carlos, formadora do projeto Informar em Maputo, a iniciativa nasceu depois de um estudo que procurou compreender por que muitas raparigas que concluem o ensino secundário acabam sem emprego e sem prosseguir os estudos.

"Primeiro é a própria barreira de como está o nosso sistema de ensino. São 30 vagas [nas universidades] para mais de seis mil alunos", lamenta.

A responsável explica que o projeto decorre em Maputo e Nampula e prevê formar cerca de 400 raparigas.

Para Marília Carlos, uma das principais dificuldades enfrentadas pelas jovens é a falta de informação sobre as alternativas existentes após o ensino secundário, desde oportunidades de formação profissional ao acesso ao ensino superior ou ao mercado de trabalho.

"Muitas vezes os jovens não têm um plano B. Tudo bem, não admito à universidade, depois o que eu faço da minha vida", questiona.

Para a formadora, o maior resultado do projeto não é apenas a abertura de negócios ou a integração profissional, mas a capacidade de as jovens recuperarem a confiança e perceberem que existem diferentes caminhos para alcançar os seus objetivos.

"Uma pessoa que é informada, uma pessoa que é capacitada, tem poder de escolha", resume.

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