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Crise na habitação? "Não é muito diferente do que vivemos no Canadá"

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Minuto Fonte Externa
8 de novembro de 2026 • 7 min de leitura
Crise na habitação? "Não é muito diferente do que vivemos no Canadá"

A diretora executiva da agência federal canadiana de habitação, Ana Bailão, considerou semelhantes as crises habitacionais em Portugal e no Canadá e defendeu a habitação como bem essencial.

 

A responsável pela Build Canada Homes, antiga vice-presidente da Câmara Municipal de Toronto, falava à agência Lusa à margem da terceira gala Coração de Portugal, realizada no sábado em Vaughan, nos arredores de Toronto, quando questionada sobre os recentes protestos em Lisboa contra o aumento das rendas e as dificuldades de acesso à habitação.

"O que as pessoas estão a viver em Portugal não é muito diferente daquilo que nós vivemos no Canadá", afirmou Ana Bailão, apontando para as dificuldades crescentes das famílias da classe média em comprar ou arrendar habitação nos dois países.

A responsável luso-canadiana considerou que a subida dos preços da habitação, a pressão sobre os rendimentos familiares e o agravamento da situação das pessoas sem-abrigo são problemas comuns a Portugal e ao Canadá, exigindo respostas que ultrapassem as medidas tradicionais de apoio ao setor imobiliário.

"É uma classe média cada vez com mais dificuldades no poder de compra de casa. É uma classe média cada vez com mais dificuldades até a pagar as suas rendas", salientou.

Natural de Vila Franca de Xira, no distrito de Lisboa, Ana Bailão cresceu em Alenquer e emigrou para o Canadá em 1991, aos 15 anos, tendo-se instalado com a família na zona de Davenport, em Toronto, onde reside uma importante comunidade portuguesa.

Licenciada pela Universidade de Toronto, foi eleita vereadora da cidade em 2010, tendo exercido funções até 2022, incluindo cinco anos como vice-presidente da Câmara Municipal.

Candidatou-se à presidência do município em 2023 e foi nomeada diretora executiva da Build Canada Homes em setembro de 2025, depois de uma carreira ligada à política municipal e ao desenvolvimento de habitação acessível.

As declarações surgem numa altura em que Portugal atravessa uma nova vaga de contestação social relacionada com o acesso à habitação, particularmente em Lisboa e no Porto, onde milhares de pessoas participaram em manifestações durante o mês de outubro.

Confrontada com a situação portuguesa, Ana Bailão defendeu que a resposta à crise habitacional exige uma intervenção pública mais ativa, assente no investimento, na disponibilização de terrenos e na aceleração da construção.

"São problemas que estão a afetar os dois países. E aqui no Canadá, felizmente, o Governo tem tomado iniciativas. Iniciativas como a que eu estou a liderar a nível federal", afirmou.

A antiga autarca explicou que a Build Canada Homes, criada pelo Governo canadiano em setembro de 2025, procura aumentar a oferta de habitação acessível através de instrumentos financeiros, parcerias com organizações sem fins lucrativos e utilização de terrenos pertencentes ao Estado.

"O que nós estamos a fazer é usar terreno público. O Governo federal criou a organização e deu-nos mecanismos, sendo eles uma capitalização muito grande", explicou.

Segundo o Orçamento federal canadiano para 2026, apresentado na quinta-feira, a Build Canada Homes passará a dispor de uma capitalização total de 45 mil milhões de dólares canadianos (cerca de 28,6 mil milhões de euros), com o objetivo de apoiar a construção de 200 mil habitações em todo o país durante os próximos dez anos.

O documento prevê um reforço de 13 mil milhões de dólares canadianos (cerca de 8,3 mil milhões de euros) ao longo de dez anos, destinado a aumentar a construção de habitação acessível e a capacidade de intervenção da agência.

Ana Bailão destacou que a combinação de financiamento público, terrenos do Estado e parcerias com entidades comunitárias permite reduzir custos de construção e desenvolver projetos que dificilmente avançariam apenas através do mercado privado.

"É a flexibilidade de poder usar esse dinheiro em parcerias com organizações não lucrativas. É usar esse dinheiro para a aceleração de construções com modos mais modernos de construção", explicou.

A responsável considerou que a modernização dos métodos de construção constitui uma das condições fundamentais para responder à falta de habitação, permitindo reduzir os prazos de execução e aumentar a produtividade do setor.

"É a possibilidade de usar terrenos que estão no poder do Governo para tirar esse custo na produção das casas", acrescentou.

Questionada sobre quais destas soluções poderiam ser aplicadas em Portugal, Ana Bailão apontou para a importância de utilizar terrenos públicos, acelerar os licenciamentos e criar instrumentos financeiros que permitam responder às necessidades de diferentes grupos da população.

A diretora executiva da Build Canada Homes sublinhou que a crise habitacional não afeta apenas as pessoas com rendimentos mais baixos, atingindo igualmente famílias da classe média que, apesar de trabalharem, enfrentam dificuldades para suportar o custo de uma casa.

"O que nós temos que fazer é um sistema habitacional mais saudável, que é o que não temos aqui", afirmou.

Ana Bailão defendeu que a resposta à falta de habitação deve abranger todas as situações, desde as pessoas sem-abrigo até às famílias que procuram comprar casa, reconhecendo que cada segmento exige instrumentos de intervenção diferentes.

"As soluções para tratar das casas para pessoas sem-abrigo são completamente diferentes das soluções para a classe média. Mas essas soluções todas têm que ser tomadas ao longo do contínuo da habitação", explicou.

A responsável alertou que os problemas existentes num determinado segmento do mercado acabam por afetar os restantes, dificultando a mobilidade habitacional e agravando as dificuldades de acesso à habitação.

"Nós não podemos esperar que o mercado habitacional seja saudável quando há pontos nele que não estão a trabalhar certo, porque isto depois é uma questão de cadeia", observou.

Entre as medidas consideradas prioritárias, Ana Bailão destacou a simplificação dos processos administrativos e a redução dos prazos de aprovação dos projetos de construção pelas autoridades municipais.

"Nós precisamos acelerar os métodos de construção para termos mais casas a serem feitas mais rapidamente. Nós temos que ter a aprovação de licenças camarárias, tudo isso mais rápido para que as casas possam ser feitas mais rapidamente", afirmou.

A responsável defendeu igualmente que os terrenos pertencentes às diferentes administrações públicas devem ser disponibilizados para a construção de habitação, procurando reduzir um dos principais custos associados à produção de novas casas.

A diretora executiva da Build Canada Homes considerou que a multiplicidade de fatores económicos torna particularmente difícil encontrar soluções rápidas e duradouras para um problema que afeta tanto a população mais vulnerável como as famílias da classe média.

Apesar destas dificuldades, Ana Bailão defendeu que os governos devem alterar a forma como encaram o setor, privilegiando a função social da habitação.

Para a responsável luso-canadiana, a habitação deve ser entendida como uma necessidade fundamental das famílias e não apenas como um instrumento destinado a gerar rendimentos financeiros.

"Se um governo olhar para a habitação e tratar a habitação como um bem essencial, e não só como um veículo de investimento, certas decisões começam a ser tomadas de uma maneira diferente", concluiu.

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