Eleições em Israel: Nazaré e a influência das forças árabes
Nazaré apresenta-se como uma cidade abandonada pelos turistas bíblicos e minada pela criminalidade organizada, mas este bastião árabe pode assumir um papel central na escolha do próximo governo em Israel. Desde que alguém queira os seus votos.
A menos de uma semana das legislativas de 27 de outubro, as sondagens continuam sem apontar um vencedor claro: nem o partido Likud, do primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, nem o Yashar!, do antigo chefe das forças armadas Gadi Eisenkot. Nem sequer através de coligações que permitam, a um ou a outro, o controlo dos 120 lugares do Knesset (parlamento).
É nesta complexa equação de alianças e de desempates pós-eleitorais que entram as duas formações árabes, a Lista Conjunta (uma união de candidatos dos partidos Balad, Hadash e Ta'al) e o Ra'am, uma força islamita moderada, que esteve de modo inédito no Governo que antecedeu Netanyahu e que, pela primeira vez, lança nas suas listas um surpreendente candidato sionista, o antigo comandante da polícia Yoav Segalovitz.
Subindo Israel no mapa em direção a norte, a paisagem vai-se tornando cada vez mais árabe, na direção de Nazaré e seus 75 mil habitantes, a principal cidade de uma vasta rede de outras povoações de maioria palestiniana e um reduto desta comunidade que representa 21% da população de Israel.
Em plena campanha para uma das mais incertas eleições de sempre, reina a sensação de que esta é uma oportunidade rara para que os árabes sejam o 'joker' eleitoral e tenham uma palavra no futuro do país.
"Vamos pôr todo o nosso poder nesta votação", declara à Lusa Fadi Ajawi, membro da comissão política do Ra'am, que, a partir da próxima semana, espera estar em condições de derrubar a atual aliança do chefe do Governo com a extrema-direita e, que à luz das sondagens, arrisca-se a perder a recondução.
Desde os ataques do grupo islamita palestiniano Hamas, em 07 de outubro de 2023 em Israel, o político do Ra'am descreve que a discriminação dos cidadãos árabes se foi degradando nos últimos anos, por ação de "um Governo de direita cada vez mais agressivo, que os deixou em perigo e completamente sozinhos".
Se não for travado desde já, receia que o próximo passo seja "a própria expulsão dos árabes" do país, como diz ser "cada vez mais claro" em discursos que "já perderam a vergonha" e se tornaram públicos.
"É por isso que o primeiro passo tem de ser simplesmente afastar Netanyahu, [Itamar] Ben-Gvir e [Bezalel] Smotrich. Depois logo se vê", insiste, referindo-se aos líderes ultranacionalistas e anti-árabes que integram o bloco governamental.
Passou menos de um mês desde que estas expectativas saíram reforçadas quando o Supremo Tribunal reverteu uma deliberação da Comissão Eleitoral que, a pedido da extrema-direita, afastava os partidos árabes das legislativas. Na altura, foi relatado que muitos habitantes de Nazaré ficaram colados aos televisores e exaltaram a decisão naquelas mesmas ruas sujas, em crise e lojas sem clientes.
O desafio "número dois" é a participação. Há quatro anos, votaram apenas 56% dos eleitores árabes na votação que devolveu Netanyahu ao poder, depois do Governo de curta duração, chefiado em rotação por Naftali Bennett e Yair Lapid e que contou com uma participação sem precedentes do Ra'am. Agora, Fadi Ajawi espera que a fasquia ultrapasse os 75%.
Só depois será decidida a integração num eventual governo de coligação com as atuais forças de oposição. Resta saber se elas a querem.
Nas suas declarações, Gadi Eisenkot, o principal favorito a destronar Netanyahu, tem descartado um governo com as forças árabes, mais a sua agenda pró-palestiniana, que poderá colidir com a intenção de dar continuidade à política de segurança do atual executivo e afugentar a base do seu eleitorado de centro-direita e maioria judaica. Outros dirigentes de oposição têm expressado igualmente essa rejeição.
Mas esse não parece ser um grande problema para Fadi Ajawi, que aponta um "plano b", através do apoio parlamentar dos partidos árabes a um executivo minoritário, que garanta a sua sobrevivência em votações importantes, como atualmente acontece com o Likud e os ultraortodoxos no Knesset.
Nem parece inquietá-lo a continuidade de uma agenda que possa comprometer os interesses dos vizinhos palestinianos na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, na medida em que o Ra'am "pode estar numa posição inicial de influenciar as políticas". Mas para isso tem de entrar "no centro da decisão", ou seja, no poder, e preservando a moderação do seu líder, Mansour Abbas, que diz faltar à outra formação árabe, a Lista Conjunta.
Sentado junto de uma oliveira seca, Mbada Seleman, um pensionista inválido de 58 anos, estaria tentado a concordar com uma oportunidade de ouro nas próximas legislativas, embora o enfadem os políticos que aparecem naquele jardim de pedra no centro de Nazaré com um papel na mão e uma flor na outra: "Pedem o voto sem dizer no quê. E o que querem que eu faça com uma flor murcha?".
Apesar de se assumir ignorante em assuntos de política, este eleitor árabe não tem dúvidas sobre as prioridades que se colocam à sua comunidade no dia 27 de outubro: "Paz, paz, paz", depois de um ciclo de "agressividade da direita, que, como é sabido, provoca mais instabilidade ainda".
Descrente nos ciclos eleitorais, que a cada quatro anos, ou menos, "prometem mudanças que nunca mais acontecem", alerta que estas eleições só serão vencedoras "se os árabes se unirem e afastarem as pessoas que criaram esta situação", referindo-se à coligação governamental e à tensão entre as comunidades, sobretudo a judaica e a islâmica.
"O meu filho vive em Telavive. Lá usa roupas diferentes, porque não quer correr o risco de ser visto como um radical. Teve de mudar a sua vida toda, até a sua aparência", lamenta em desabafo: "Isto nunca foi assim".
No coração político árabe em pleno Estado judaico, "os carros desapareceram, o comércio fechou e não se vê ninguém nas ruas", comenta Abdallah Ahmed, um desempregado de 64 anos, que descreve "uma cidade indesejável", até para as poucas que ainda visitam a Galileia e o lugar onde o Novo Testamento situa a anunciação do nascimento de Jesus.
"Dantes tínhamos milhares de visitantes por dia, agora apenas alguns grupos de vez em quando", relata Wojciech Bołoz, guardião e reitor da Igreja da Anunciação, à porta de um dos templos mais sagrados no mundo cristão, enquanto no interior apenas rezavam dois fiéis.
Como antecedente desta crise, que atinge também a Basílica da Natividade, em Belém, e Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém, o responsável polaco aponta a pandemia de covid-19, que, mal acabou, deu lugar ao 07 de Outubro e à guerra que se seguiu na Faixa de Gaza, a sul, e na fronteira com o Líbano, a norte, além do aumento galopante da violência na Cisjordânia ocupada.
As peregrinações em massa eclipsaram-se e, com elas, o motor de uma cidade inteira, vivendo "sob uma pressão económica muito grande", acompanhada do colapso das finanças das autoridades locais e do brutal aumento do crime organizado e da violência armada, que nos últimos anos se tornou numa das principais preocupações dos habitantes.
"A crise e as máfias estão a fazer com que muitos cristãos se vão embora para outros lugares em Israel ou para países vizinhos", segundo o guardião da igreja, contribuindo com estas partidas para que a cidade fique "cada vez mais árabe".
E é essa população que poderá despertar em 27 de outubro. Mas até lá, também tem de lutar para que o poder que emergir das eleições vai ouvi-la.
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