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Escritor Benjamin Moser acusa sionismo de ameaçar tradição judaica

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Minuto Fonte Externa
8 de novembro de 2026 • 7 min de leitura
Escritor Benjamin Moser acusa sionismo de ameaçar tradição judaica

O escritor judeu norte-americano Benjamin Moser acusa o sionismo de ameaçar a tradição judaica, antevendo um "divórcio" tão profundo como a Reforma Protestante no Cristianismo, e recusa voltar a sinagogas cujos rabinos apoiem o "genocídio" em Gaza.

 

Em Lisboa para apresentar "Antissionismo - Uma História Judaica", livro em que recupera as histórias de vários judeus que ao longo do tempo se opuseram ao sionismo, Benjamin Moser, que cresceu nos Estados Unidos e foi educado nesta ideologia, explicou, em entrevista à agência Lusa, a rutura com as convicções que partilhou durante grande parte da vida.

"Eu posso garantir - e comigo milhares e talvez milhões de outros judeus -, eu não vou voltar para uma sinagoga com um rabino genocida; eu não tenho filhos, mas se eu tivesse, eu não os deixaria ir para um colégio sionista com gente que apoia racismo e genocídio; e eu não vou nunca mais apoiar as organizações judias que apoiaram isto. Nunca, jamais", afirmou.

Para Benjamin Moser, a violência exercida por Israel contra os palestinianos está a provocar uma rutura entre os judeus que defendem o sionismo e aqueles que consideram as políticas israelitas incompatíveis com a tradição religiosa e moral judaica (baseada na justiça e na compaixão).

O sionismo é um movimento nacionalista estabelecido no século XIX com o objetivo da criação de um estado judaico na Palestina.

"O sionismo tem-nos associado ao genocídio, a um grau de loucura que não tem paralelo na história judia", afirmou, acrescentando que não se trata de "uma disputa de família. É um divórcio", que torna impossível reconciliar a tradição espiritual judaica com o projeto de um Estado-nação militarizado.

"Eu tenho respeito pela religião judaica. Eu não quero ver isso desmoronar numa chacina de crianças. Eu acho horrível essa ideia", declarou.

Benjamin Moser considera que a dimensão desta rutura é comparável à Reforma Protestante, que dividiu o Cristianismo no século XVI, prevendo que as suas consequências se prolonguem durante gerações.

"E vai demorar séculos para ser resolvido", afirmou, ressalvando que a separação entre católicos e protestantes nunca foi revertida.

Assumidamente comprometido com a causa palestiniana, da qual se aproximou pela defesa dos direitos humanos e pela oposição à discriminação, Benjamin Moser apresenta o livro também como um contributo para a defesa e libertação da Palestina.

A obra, editada pela Penguin, abre com uma dedicatória ao povo palestiniano: "Concede-lhes a Terra Mãe que desejam, e fá-los de novo cidadãos do Paraíso".

Logo de seguida, na introdução, Benjamin Moser escreve que "é por isso que - embora este livro seja necessariamente sobre os judeus - ele só existe por causa dos palestinos", e mais adiante defende que os futuros pensadores e ativistas coloquem o povo palestiniano no centro da sua ação.

Distinguido com o Prémio Pulitzer de Biografia, em 2020, por "Sontag: Vida e Obra", e finalista do National Book Critics Circle Award com "Porquê Este Mundo: Uma Biografia de Clarice Lispector", de 2009, Benjamin Moser apresenta agora esta "história judaica", construída através de figuras religiosas, intelectuais, políticas e artísticas.

Ao longo do livro, o escritor recupera as histórias de judeus que, por razões distintas, contestaram o projeto sionista, entre os quais a filósofa Hannah Arendt, o historiador Avi Shlaim, a advogada Felicia Langer e a fotógrafa norte-americana Nan Goldin.

Segundo o escritor, a oposição judaica ao sionismo foi historicamente muito mais significativa do que a narrativa dominante permite reconhecer, mas as vozes dissidentes foram frequentemente afastadas do debate público.

"Essas histórias foram eliminadas", afirmou, salientando que algumas das pessoas retratadas no livro foram "censuradas, exiladas e até assassinadas".

O escritor admitiu ter passado grande parte da vida sem conhecer essa tradição de contestação, nem as perseguições sofridas por quem se opôs ao sionismo: "O que me levou a escrever o livro foi a constatação de que havia toda uma história que me tinha sido ocultada".

A descoberta de judeus que se tinham oposto ao sionismo permitiu-lhe ultrapassar o sentimento de isolamento provocado pelo afastamento das convicções da família, da escola e da comunidade.

"É uma solidão muito grande", afirmou o autor, descrevendo o momento em que um judeu começa a questionar as ideias com que cresceu e a perguntar-se se está sozinho nessa oposição.

Benjamin Moser considera que a identificação entre judaísmo e sionismo contribuiu para apagar essa diversidade histórica e rejeita qualquer equiparação entre antissionismo e a antissemitismo.

"O sionismo é uma corrente política. O judaísmo é uma religião milenar. O sionismo surgiu no final do século XIX. O judaísmo tem três mil, quatro mil, ninguém sabe quantos mil anos de história", afirmou.

Para Benjamin Moser, confundir judaísmo e sionismo implica ignorar uma longa tradição de oposição judaica ao projeto sionista, representada por rabinos, sobreviventes do Holocausto e intelectuais como Hannah Arendt, cuja defesa da condição do judeu como pária, afastado das estruturas de poder, é apresentada no livro como alternativa à procura de influência política e militar.

Segundo o escritor, essa tradição assenta numa ética construída a partir da experiência histórica da perseguição e da discriminação, que deveria conduzir à solidariedade com todos os povos sujeitos à opressão.

"A gente quer representar uma tradição que sempre foi uma tradição pacífica, humanística", afirmou.

É também nessa perspetiva que interpreta a memória do Holocausto, recusando que a promessa de impedir a repetição de crimes semelhantes – que ficou marcada pelo lema 'Never again' (Nunca mais) - se aplique exclusivamente aos judeus.

"Nunca mais é para todos, não é apenas para os judeus, é para todo mundo", declarou.

Quanto à ofensiva israelita em Gaza, Benjamin Moser considera que está a provocar um crescimento da oposição judaica ao sionismo, mas também uma maior visibilidade de posições que sempre existiram.

O escritor contou que, durante uma recente passagem por Nova Iorque, encontrou entre os judeus com quem conviveu uma rejeição generalizada das políticas israelitas e uma procura crescente de informação sobre as origens do sionismo.

Na sua opinião, conhecer a história dos judeus antissionistas pode ajudar outras pessoas a ultrapassar o receio de se afastarem das posições dominantes nas suas comunidades.

O escritor interpreta as pressões sobre os críticos do sionismo como um sinal de enfraquecimento do movimento, argumentando que uma posição verdadeiramente consensual não necessitaria de recorrer à intimidação ou à exclusão do debate público.

A fotógrafa Nan Goldin, uma das personalidades retratadas no livro, é apresentada como exemplo de uma oposição que se desenvolveu durante décadas, mesmo quando o antissionismo tinha escassa visibilidade nas comunidades judaicas norte-americanas.

Benjamin Moser recordou ainda a expressão utilizada pela artista para descrever a exposição pública às imagens da violência em Gaza: "holocausto nos telemóveis".

Para o escritor, a divulgação dessas imagens contribuiu para uma transformação profunda da opinião pública e tornou impossível ignorar o sofrimento dos palestinianos.

O escritor estabeleceu mesmo uma comparação com a responsabilidade histórica dos alemães perante os judeus depois do Holocausto, considerando que existe uma "dívida impagável" para com o povo palestiniano, incluindo por parte dos judeus que nunca apoiaram o sionismo.

Apesar da profundidade da divisão que antevê, Benjamin Moser manifesta-se confiante de que "a tradição judaica vai conseguir derrotar o sionismo", e confessa que a principal mensagem que gostaria que o seu livro passasse fosse o regresso à universalidade da memória do Holocausto e à defesa dos direitos dos palestinianos.

Evocando novamente o lema "Nunca mais deve ser nunca mais para todo o mundo", Benjamin Moser declarou: "Não temos nenhuma obrigação de apoiar essa chacina, essa crueldade, e quem é pró-judeu tem de ser pró-palestiniano, porque a causa palestiniana é a causa judia e a causa de todos nós".

Leia Também: Israel. Moser acusa partidos de competirem pelo "campo de concentração"

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