Eurodeputados portugueses debatem ameaça da extrema-direita na UE
A ameaça da extrema-direita na União Europeia preocupa os eurodeputados portugueses que debateram hoje a proteção da democracia europeia, mas a forma de combater o crescimento dos populismos divide as várias fações políticas.
Numa altura em que os cinco maiores países europeus (Alemanha, Espanha, França, Itália e Reino Unido) se preparam para eleições, a ascensão clara dos partidos de direita radical é uma preocupação assumida pelos eurodeputados do PS, PSD, Iniciativa Liberal e PCP, presentes numa mesa redonda sobre a democracia realizada na agência Lusa.
Para a eurodeputada socialista Ana Catarina Mendes, a situação deve ser combatida através do desenvolvimento do Estado social.
"Quando falha o Estado social, crescem os populismos e crescem os extremos", afirmou a vice-presidente do Grupo da Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas (S&D), defendendo que o descontentamento das pessoas em vários países europeus se deve ao sentimento de que "a Europa está a fraquejar".
Uma perceção que se intensificou nos últimos dois anos, com as questões da dependência do gás da Rússia e do afastamento dos Estados Unidos da defesa do espaço europeu, disse, sublinhando que isso tornou essencial a procura de novos parceiros e de autonomia.
Já o eurodeputado social-democrata Paulo Cunha considerou que o populismo é um problema, mas que a Europa tem respondido bem.
"O caso da Hungria é um exemplo. O que a Europa fez em relação à Hungria é um caso de enorme sucesso", apontou, defendendo que "as ferramentas financeiras são poderosíssimas" formas de combate.
Para responder ao recuo democrático da Hungria sob mandato de Viktor Orbán (2010–2026), a União Europeia congelou, a partir de 2022, os fundos comunitários dos quais o país dependia. Em abril, o Governo de Orbán perdeu o poder para a oposição liderada por Péter Magyar.
"A União Europeia não interferiu internamente, mas não deixou de agir no âmbito das suas competências e o povo húngaro respondeu de forma tão clara e equívoca", referiu o chefe da delegação do PSD, partido integrado na bancada do Partido Popular Europeu (PPE).
Admitindo que a evolução na Hungria lhe criou esperança de que os movimentos populistas não chegarão ao poder nos países mais fortes, Paulo Cunha referiu ainda que o exemplo da Itália também ajuda.
"Todos nós nos recordamos o que se dizia e escrevia a senhora [Giorgia] Meloni quando fazia campanha eleitoral".
Meloni, que é primeira-ministra de Itália desde 2022, lidera o partido de extrema-direita Irmãos de Italia.
"Não estou a dizer que a senhora é de esquerda, mas não se fala de Itália no que diz respeito ao dossiê populista", considerou, referindo que "aqueles que chegam às lideranças europeias com a veste populista vão, ao longo do tempo, despindo-a".
Já a eurodeputada da Iniciativa Liberal (grupo Renew Europe) Ana Vasconcelos discordou, lembrando que não foi que se viu nos Estados Unidos.
"Acho que contar que se rezarmos muito, vai correr tudo bem foi o que nos levou ao ponto em que estamos agora", afirmou, sublinhando estar preocupada sobretudo com a ascensão da AfD (Alternativa para a Alemanha).
O caso da candidata de extrema-direita às presidenciais francesas, Marine Le Pen, não será tão crítico porque "a França depende de tal maneira da Política Agrícola Comum que tenho dificuldade em vê-la a querer derrubar a União Europeia", admitiu, adiantando que, jáno caso da AfD alemão, o objetivo seria mesmo esse.
O exemplo da primeira-ministra italiana foi também apontado pelo eurodeputado comunista João Oliveira (da bancada da Esquerda Europeia), para quem Meloni é a maior prova de que a extrema-direita consegue encaixar-se com o sistema e adaptar o discurso consoante o que for mais conveniente.
Para combater o crescimento deste extremismo, é preciso "chegar às pessoas que estão a ser levadas por este discurso", considerou, lembrando que a extrema-direita "vende explicações simples, a maior parte delas falsas, mas que são fáceis de apreender".
A resposta, concluiu, é "resolver os problemas económicos e sociais que as pessoas enfrentam".
Os eurodeputados portugueses do Chega e do Bloco de Esquerda não participaram na mesa redonda.
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