"Fazer uma longa-metragem e estreá-la em cerca de cinco meses é invulgar"
O filme "O Pecado Mora em Cima" é uma produção de Sónia Resende, realizado por Rui Pedro Sousa, e chegou às salas de cinema no dia 15 de outubro. Em conversa com o Notícias ao Minuto, a produtora responsável pela longa-metragem contou que a ideia de trazer esta história para Portugal, escrita por Edson Athayde, surgiu de uma conversa com a Filmax - com quem já tinham trabalhado em coprodução no filme "Revolução (Sem) Sangue" - para adaptar o filme espanhol "Sentimental", de Cesc Gay.
No entanto, diz, "não queria fazer simplesmente uma versão portuguesa de um filme espanhol". Aliás, destaca, "existem já nove versões".
"Queria encontrar uma identidade própria, que fizesse sentido para o nosso público. Foi assim que surgiu a ideia de juntar um casal português e um casal brasileiro, pois é muito comum na nossa sociedade atual ter um vizinho imigrante e sobretudo brasileiro. E, assim, ir explorando as diferenças culturais, os preconceitos e, sobretudo, aquilo que temos em comum nas relações humanas", explicou.
"O argumento foi trabalhado com Edson Athayde, que conhece muito bem as duas culturas e conseguiu trazer esse olhar particularmente interessante para a história", acrescentou.
Sónia Resende levou esta produção ao Norte do país, abordando e lamentado o falta da descentralização. "Isso implicou mobilizar equipas, recursos e parceiros, demonstrando que é possível concretizar uma produção desta dimensão fora do centro habitual da indústria", destacou nas respostas às perguntas enviadas pelo Notícias ao Minuto.
E não deixou de partilhar ainda os momentos descontraídos que se viveram fora das câmaras. "Pareciam alunos indisciplinados numa sala de aula! Felizmente, ninguém teve de ir para a rua de castigo." Isto além de ter realçado o tempo recorde em que o filme foi feito e lançado.
Leia abaixo a entrevista completa:
Filmámos em junho e julho e tínhamos a estreia marcada para outubro. Tivemos de assegurar toda a pós-produção, finalizar o filme e preparar uma estratégia de comunicação e lançamento num prazo extraordinariamente curto
Houve algum desafio em particular quanto à produção do filme "O Pecado Mora em Cima"?
Quanto à produção, o maior desafio foi fazer acontecer um filme com esta ambição dentro da realidade financeira do cinema português. Durante quase dois anos, estive muito concentrada na construção do projeto, desde o financiamento à montagem da equipa, passando pelo elenco, pelos parceiros e por toda a estrutura de produção.
Mas houve um segundo desafio, verdadeiramente exigente: filmámos em junho e julho e tínhamos a estreia marcada para outubro do mesmo ano. Ou seja, tivemos de assegurar toda a pós-produção, finalizar o filme e preparar uma estratégia de comunicação e lançamento num prazo extraordinariamente curto, sem abdicar da qualidade que exijo em qualquer projeto.
Para se ter uma ideia, enquanto estávamos a filmar num estúdio, numa sala ao lado já estava uma equipa de pós-produção a trabalhar nas imagens rodadas nos dias anteriores. Era uma verdadeira corrida contra o tempo, com várias etapas a acontecer em simultâneo. Concretizar uma longa-metragem e estreá-la num intervalo de cerca de cinco meses é algo absolutamente invulgar no panorama cinematográfico português.
E como foi o processo de seleção e de ter um casal de atores brasileiro - juntar Miguel Falabella e Marisa Orth - e um casal de atores português - juntar Pedro Carvalho e Inês Aires Pereira?
Desde muito cedo que tinha uma ideia bastante clara do tipo de elenco que queria. Precisávamos de quatro atores com uma enorme capacidade de interpretação, pois dominam toda a ação do filme. Porque fazer comédia, ao contrário do que às vezes se pensa, é das coisas mais difíceis que existem.
O Miguel Falabella e a Marisa Orth eram uma combinação extraordinária. São dois nomes incontornáveis da comédia brasileira e têm uma cumplicidade que atravessa gerações. Confesso que, inicialmente, conseguir juntá-los num filme português parecia uma ambição quase desmedida. Abordei-os, apresenteilhes o projeto e tive a felicidade de ambos terem acreditado e confiado em mim – uma produtora independente, portuguesa, com uma empresa (Station) com menos de uma década e com um currículo ainda pequeno na área do cinema.
Do lado português, o Pedro Carvalho e a Inês Aires Pereira traziam exatamente a energia que procurávamos. O Pedro tem uma ligação muito interessante aos dois países, pela sua carreira no Brasil, e a Inês tem uma espontaneidade e um talento para a comédia absolutamente extraordinários.
O humor não ficava reservado aos momentos em que a câmara estava a filmar. Aliás, houve ocasiões em que os assistentes de realização tiveram de pôr alguma ordem no set
Houve alguma mudança ao longo do processo de concretização deste filme? Ou algum momento mais caricato que vai ficar guardado na memória de quem fez parte deste trabalho?
Houve muitas mudanças, como acontece em praticamente todas as produções cinematográficas. Um filme começa por ser uma ideia, depois transforma-se num argumento e, quando chega às mãos dos atores e do realizador, ganha uma vida própria.
Uma das decisões mais importantes foi precisamente a adaptação cultural da história e tornarmos esta história dos remakes mais diferentes, ou com mais camadas de história, dos que até então foram feitos. Não quisemos limitar-nos a traduzir diálogos. Alterámos dinâmicas, construímos novas referências e brincámos até com algumas expectativas do público, nomeadamente ao apresentar um casal brasileiro mais conservador e um casal português mais liberal. E porque acho que mesmo a comédia tem que nos ensinar algo, quis colocar em evidência a literatura e música portuguesa e brasileira.
Quanto aos momentos caricatos, numa rodagem com Miguel Falabella, Marisa Orth, Inês Aires Pereira e Pedro Carvalho, seria estranho que não existissem! O humor não ficava reservado aos momentos em que a câmara estava a filmar. Aliás, houve ocasiões em que os assistentes de realização tiveram de pôr alguma ordem no set, porque, mal havia um intervalo, os quatro começavam a cantar, a conversar, a brincar e a rir. Pareciam alunos indisciplinados numa sala de aula! Felizmente, ninguém teve de ir para a rua de castigo.
Mas essa descontração revelava também uma coisa muito bonita: a sintonia que se criou entre eles. E acredito que essa cumplicidade, tão espontânea e natural fora das câmaras, acabou por se refletir no próprio filme.
Talvez o verdadeiro desafio da descentralização seja também esse: não apenas descentralizar as produções, mas descentralizar o reconhecimento, as oportunidades e os lugares à mesa onde se decide o futuro da cultura
Levou esta produção ao Norte do país, e já disse anteriormente que “faz falta” mais projetos nesta região. Este filme é também uma prova de que a descentralização não só é possível, como pode ser bem sucedida?
Sem dúvida. E esta é uma questão que me é particularmente próxima. Continuamos a ter uma indústria audiovisual muito concentrada em Lisboa, quando existe talento, capacidade técnica, criatividade e condições de produção noutras regiões do país. O Porto e o Norte não têm de ser apenas locais onde se vai filmar uma paisagem bonita. Podem e devem ser lugares onde se desenvolvem, produzem e concretizam projetos cinematográficos.
Em "O Pecado Mora em Cima", filmámos no Porto e construímos os interiores nos estúdios da RTP Norte. Isso implicou mobilizar equipas, recursos e parceiros, demonstrando que é possível concretizar uma produção desta dimensão fora do centro habitual da indústria.
E há uma diferença importante entre filmar no Norte e produzir a partir do Norte. A verdadeira descentralização não pode resumir-se a deslocar uma equipa durante alguns dias. Tem de significar criar oportunidades, desenvolver estruturas e permitir que os profissionais da região tenham continuidade de trabalho.
Enquanto produtora, sinto também que, no meio cultural, o reconhecimento e a visibilidade nem sempre acompanham a qualidade do trabalho. Existem círculos e espaços de influência aos quais nem todos têm o mesmo acesso, deixando muitas vezes na sombra profissionais cujo trabalho é tão digno, competente e relevante como o de quem está dentro.
Sou advogada, produtora cinematográfica e desenvolvo investigação de doutoramento na área do Direito e do Cinema. Conheço o setor na sua dimensão jurídica, académica e prática e, ainda assim, sinto que nem sempre é fácil ter voz nos espaços onde se discute e decide o futuro da cultura. Não se trata de retirar mérito a ninguém, mas de reconhecer que o talento, a experiência e a competência não pertencem a círculos exclusivos.
Talvez o verdadeiro desafio da descentralização seja também esse: não apenas descentralizar as produções, mas descentralizar o reconhecimento, as oportunidades e os lugares à mesa onde se decide o futuro da cultura.
Às vezes parece que temos de pedir desculpa por querer fazer rir, quando o riso também é uma forma muito poderosa de comunicar
Qual a principal reflexão que gostava que este filme provocasse nas pessoas que o vão ver?
Antes de mais, gostava que se divertissem. Fizemos uma comédia e não tenho qualquer problema em assumir que queremos que as pessoas entrem numa sala de cinema e passem um bom momento. Às vezes parece que temos de pedir desculpa por querer fazer rir, quando o riso também é uma forma muito poderosa de comunicar.
Mas, por detrás do humor, o filme fala de temas bastante universais: a intimidade, o desgaste das relações, os preconceitos, as diferenças culturais e a dificuldade que tantas vezes temos em comunicar com quem está mais próximo de nós.
Há uma ideia que me interessa particularmente: julgamos com enorme facilidade a vida dos outros, mas nem sempre temos coragem de olhar com a mesma honestidade para a nossa.
No fundo, gostaria que o público saísse do cinema a rir, talvez a comentar algumas cenas com a pessoa que levou consigo e, quem sabe, a fazer uma ou outra pergunta sobre a sua própria relação.
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