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"Fazia 20 km na cela todos os dias. Isso não podiam tirar-me. Salvou-me"

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Minuto Fonte Externa
6 de novembro de 2026 • 8 min de leitura
"Fazia 20 km na cela todos os dias. Isso não podiam tirar-me. Salvou-me"

Enquanto a Europa - e o mundo - marcavam no calendário o dia 24 de fevereiro de 2022 como a data em que a guerra regressou à Europa, na Ucrânia, havia, a cerca de 3.400 quilómetros, a vida de um europeu que por si só entrava numa batalha, no Irão. Olivier Vandecasteele, belga e trabalhador humanitário, esteve 456 dias detido pelo regime de Teerão.

 

Vandecasteele marcou presença na 10.ª edição das Conferências do Estoril, em Lisboa, onde falou com o Notícias ao Minuto sobre o momento em que foi condenado a 40 anos de prisão, sobre como tentava "manter o controlo" todos os dias e também acerca da Protect Humanitarians, organização que fundou após ser libertado.

 

"Todos os sobreviventes têm isto: querem ser o último"

Em palco, Vandecasteele partilhou a sua visão ao lado do ativista venezuelano Jesús Armas - aliado de María Corina Machado, com quem o Notícias ao Minuto também falou. Ambos relataram as suas experiências e, nas palavras do belga, há algo que é comum não apenas aos dois, mas por todos aqueles que são levados por regimes para trás das grades, de forma arbitrária: "Todos os sobreviventes têm isto: querem ser o último".

Após falar para o público que assistia ao painel na Nova School of Business and Economics, Vandecasteele falou em exclusivo com o Notícias ao Minuto sobre o momento da condenação, que parece ter acontecido mais do que uma vez, dado que, segundo recorda, houve, primeiro, um anúncio da sua sentença - em que não esteve presente. "Foi pura propaganda do Estado e dos meios de comunicação social. A única vez em que estive naquilo que parecia um tribunal - lembro-me desse momento bastante bem - acho que durou menos do que meia hora. Foi-me pedido para confirmar a minha identidade. Nunca tinha conhecido a pessoa que dizia ser meu advogado. Então disse: 'Não reconheço esta pessoa e ele não é o meu advogado'. E eles continuaram", refere.

Não tendo o então detido reconhecido a legitimidade do tribunal, o "juiz carrasco" ["The hanging judge"], ficou descontente e o resto do tempo passou-se "muito depressa". "A televisão estatal estava lá e talvez não me tenha ajudado a partilhar [lá], mas para mim [aquela situação] era um circo. Lembro-me muito bem de dizer ao tradutor: 'Isto é um circo'", detalha.

Na altura em que foi condenado, tinham-se passado alguns meses da sua detenção e Olivier Vandecasteele, hoje com 45 anos, já tinha pedido para ter acesso a um advogado: "Era feito para 'parecer', mas não era algo justo. E, claro, depois da condenação voltei à minha cela e para a vida do dia a dia e para tudo o que se passou antes. Acho que o meu entendimento foi o de que era tudo engendrado para parecer uma escalada contra o meu país de origem. E tentei não dar poder às pessoas que, obviamente, o tinham".

"Não dormia sem fazer 20 quilómetros na cela. Todos os dias"

Numa pequena cela controlada pelas forças de Teerão, tentou sempre arranjar uma forma de conseguir sentir alguma paz de espírito e, por isso, criou um objetivo: "Não me permitia dormir sem antes fazer 20 quilómetros na cela. Havia, basicamente, um quadrado, um pouco mais pequeno do que isto [a sala onde decorreu a entrevista]. Fazia [percursos] na diagonal, mais de 6.000 [vezes]. Era uma forma de recuperar o controlo de algo e era o meu objetivo - como se fosse só meu. Como se não mo pudessem tirar".

Hoje em dia, o ativista interpreta este objetivo como um mecanismo de proteção necessário naquela altura. "Nos primeiros meses, estava num corredor com outras pessoas, que podia apenas ouvir - e não ver. Havia pessoas que estavam claramente a enlouquecer, a bater com a cabeça contra as paredes. Penso que [esse mecanismo] ajudou-me a não fazer isso - porque estava cansado, focado, tinha alguma coisa para fazer todos os dias. Estava a cansar-me, então conseguia dormir. Para mim era um objetivo fazer esses 20 quilómetros por dia. Introspectivamente, salvou-me. Porque era algo que conseguia controlar".

Os guardas iranianos também ofereciam comprimidos para dormir, comprimidos estes que Vandecasteele nunca aceitou.

Outro dos temas abordados na conversa foi sobre se alimentava a expectativa de que viria a ser libertado - portanto, de que sairia vivo da prisão. Essa esperança o belga descreve como uma questão delicada. "Há néons na prisão, mas encontramo-nos no escuro no que diz respeito a tudo o que está à nossa volta. Não tinha acesso a jornais, rádio, televisão. Lembro-me de ter menos esperança e mais uma questão de confiança. Tinha de confiar que as pessoas começassem a fazer coisas. De outra forma, entra-se na loucura. Porque, basicamente, não se pode comunicar com o mundo lá fora. Receber mensagens de família era impossível. Mesmo receber uma carta não era possível. Escrevi cartas à minha família que nunca chegaram".

"Uma pessoa fica tão bloqueada do mundo que é preciso confiar que as pessoas vão começar a fazer as coisas certas e a esperança estava lá - às vezes ajudava a passar o dia. Mas, outras vezes, também era dolorosa. Porque há a frustração, a desilusão. Esperas que algo vá acontecer, como uma chamada. No meu aniversário eu esperei ter uma chamada, pelo menos. Espera-se que algo aconteça no Natal ou Ano Novo, por aí... E depois comecei a perceber que a esperança poderia ser algo traiçoeiro. Quando se tem esperança e nada aparece, regressa-se à cela e nada mudou... pode cair-se no desespero. E começa-se a gerir a esperança. E talvez a baixar as expetativas e a viver o dia a dia".

"Basicamente, sabia que era tudo injusto, errado e encenado. Não havia fim. Sabia que o fim iria ser algum tipo de acordo entre os governos por causa da minha nacionalidade. É preciso confiar no processo. Mas há momentos de desespero enorme. Não quero dizer que fui corajoso e que todos dias tive esperança, porque isso seria mentir", aponta.

Protect Humanitarians. "A ajuda não alcança pessoas que precisam dela"

Após a saída, em maio de 2023, Vandecasteele começou a trabalhar na Protect Humanitarians, uma Organização Não Governamental (ONG) que saiu do papel para a realidade no ano seguinte, em 2024. "Trabalhamos com apoio legal e também psicológico, fazendo campanhas para pessoas que estão detidas. O que nos move é a necessidade", aponta o ativista, lembrando que o o número de trabalhadores humanitários detidos está a atingir números recorde.

"O que vemos, em particular, é um aumento de detenções e raptos", descreve, dando o exemplos dos hutis e do Iémen, onde trabalhadores humanitários são feitos reféns - não só, mas também.

"Estamos a apelar aos governos para fazerem mais contra essas ações porque vimos que estas situações estão a ser normalizadas e trabalhamos num contexto em que isto está a acontecer. Já apoiámos casos em que foram detidos na Venezuela, por exemplo; na República Centro-Africana. Estamos atualmente muito focados no Iémen, [onde] há trabalhadores humanitários que estão detidos há dois anos. Apoiamos as famílias e tentamos aumentar a defesa, tentando encontrar uma solução para a liberdade. Diria que vamos onde o trabalho humanitário está sob pressão", frisa, acrescentando: "A ajuda não alcança pessoas que precisam dela. Assim, vemos isto como essencial. [É] O mesmo trabalho dos Repórteres sem Fronteiras ou aquele que o Comité de Proteção dos Jornalistas faz pelos jornalistas. Nós construímos o mesmo para os trabalhadores humanitários".

Quanto ao "modus operandi" da ONG, o fundador explica que a equipa está sediada em Bruxelas, na Bélgica, mas está "sempre em movimento". "Por vezes são os membros da família que nos contactam, outras vezes é a organização [que avança], outras ainda são as pessoas que são libertadas. Achamos que não é correto que pessoas que ajudam outros estejam a ser criminalizadas e detidas. E assistimos a isto a nível global, a piorar - e mesmo perto das fronteiras europeias, por exemplo, na Tunísia. Também acontece muito perto de casa. Não é apenas no Sudão ou Afeganistão".

"Não vai ser impossível, mas será difícil para Delcy atacar María Corina"

Jesús Armas, ativista venezuelano, é o convidado desta segunda-feira do "Vozes ao Minuto". Armas, de 39 anos, é um antigo preso político que passou 14 meses atrás das grades, saindo quando o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, foi capturado pelos EUA.

 Ana Teresa Banha | 08:30 - 02/11/2026

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