Francelina Chambel homenageada em Sardoal por papel pioneiro
Mais de 150 pessoas homenagearam hoje, no Sardoal, Francelina Chambel, uma das cinco mulheres eleitas presidentes de câmara nas primeiras eleições autárquicas democráticas, numa cerimónia marcada por emoção e memórias da construção do Poder Local.
"É um dia para recordar para sempre", afirmou à Lusa a antiga autarca, de 92 anos, que presidiu à Câmara do Sardoal entre 1977 e 1993 e agradeceu a presença de antigos colegas, amigos e familiares no almoço hoje realizado.
Autarcas e ex-autarcas do Médio Tejo, do distrito de Santarém e de outros pontos do país juntaram-se a habitantes do concelho de Sardoal, aos filhos e a outros familiares da homenageada, numa iniciativa promovida por cidadãos que quiseram reconhecer, em vida, o seu percurso.
Na intervenção perante a sala cheia, Francelina Chambel recordou a surpresa com que aceitou candidatar-se em 1976, sem esperar vencer, e as dificuldades que encontrou ao assumir uma autarquia com poucos funcionários e sem dinheiro suficiente para pagar vencimentos.
"Eu ainda hoje pergunto a mim própria como é que foi possível fazer tanto trabalho", confessou, evocando obras de abastecimento de água, saneamento, habitação e equipamentos municipais realizadas durante os seus mandatos.
Um dos momentos mais emotivos ocorreu quando pediu perdão aos quatro filhos pelo tempo que dedicou à autarquia em prejuízo da família, reconhecendo os sacrifícios pessoais que acompanharam o exercício do cargo.
O presidente da Comissão para as Comemorações do 50.º Aniversário das Eleições Autárquicas, Artur Torres Pereira, destacou o papel de moderação e conciliação desempenhado por Francelina Chambel na afirmação do associativismo municipal português.
O antigo presidente da Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP) recordou uma reunião, na Guarda, em maio de 1985, marcada por divergências partidárias sobre a escolha do primeiro secretário-geral da associação.
Segundo Torres Pereira, quando os ânimos se exaltaram, Francelina pediu a palavra e, num tom sereno, lembrou que aquilo que unia os municípios era mais importante do que as diferenças entre partidos, contribuindo para ultrapassar o impasse.
"Nunca mais me esqueço desta intervenção", disse, defendendo que a capacidade de diálogo e o bom senso da antiga presidente continuam a ser um exemplo num tempo em que considera necessário contrariar a divisão e o conflito político.
Torres Pereira lembrou ainda os primeiros tempos dos executivos democráticos, em que faltavam leis e estruturas de apoio, mas existia uma forte dedicação dos autarcas, considerando o Poder Local "a melhor escola da democracia".
Também o secretário-geral da ANMP, Paulo Braga, salientou o contributo de Francelina Chambel para a consolidação das instituições municipais e para a própria associação, na qual desempenhou funções nos órgãos dirigentes.
Luísa Salgueiro, presidente da Câmara de Matosinhos, presente em representação do secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, considerou a homenageada uma referência nacional e alertou para a reduzida presença de mulheres na liderança das câmaras municipais, apesar do caminho aberto pelas pioneiras de 1976.
O atual presidente da Câmara do Sardoal, Pedro Rosa (PSD), classificou Francelina Chambel como uma "marca indelével" do concelho e recordou que foi durante a sua presidência que a aldeia onde nasceu ganhou um acesso rodoviário, num testemunho pessoal das mudanças então concretizadas.
Os organizadores, Elisabete Areias e Francisco Assis Batista, conhecido por Zito, mostraram-se satisfeitos com a adesão ao almoço e sublinharam a importância de prestar esta homenagem enquanto a antiga autarca a pode partilhar com os seus.
À Lusa, Francelina Chambel disse ter recebido o reconhecimento com "muita alegria" e, questionada sobre o lugar das mulheres na política, considerou que "há um caminho muito grande a fazer", aconselhando as mais jovens a não terem medo dos desafios e a seguirem "sempre em frente".
Francelina Chambel será homenageada no Sardoal em novembroFrancelina Chambel, uma das primeiras cinco mulheres eleitas presidentes de câmara em Portugal, vai ser homenageada em novembro no Sardoal, no ano dos 50 anos das primeiras eleições autárquicas democráticas.
Lusa | 18:38 - 12/10/2026Conteúdo importado automaticamente via RSS de Minuto.
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