Pular para o conteúdo
Publicidade

Israel. Eis os principais temas de uma votação imprevisível

M
Minuto Fonte Externa
20 de outubro de 2026 • 9 min de leitura
Israel. Eis os principais temas de uma votação imprevisível

A política de segurança está no centro do debate de uma das eleições mais incertas de sempre em Israel e as primeiras desde o 07 de Outubro, da guerra na Faixa de Gaza e de outras frentes de conflito.

 

Três anos depois, a memória dos ataques dos islamitas do Hamas no sul de Israel continua a perseguir o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, nas legislativas de 27 de outubro, vistas como um referendo à sua atuação desde o dia mais sangrento da história do país.

Além da Faixa de Gaza, aquela manhã de outubro de 2023 foi o rastilho para uma espiral de violência em várias direções, que culminou com a ofensiva israelo-americana contra o Irão.

Mais de sete milhões de eleitores são ainda chamados a fazer escolhas sobre a controversa isenção militar aos judeus ultraortodoxos, bem como o elevado custo de vida associado a um estado de guerra permanente.

Eis alguns pontos essenciais sobre as legislativas:

+++ 07 de Outubro +++

Netanyahu enfrenta há quase dois meses revelações sobre alegados avisos prévios do Presidente dos Emirados Árabes Unidos e do chefe da "secreta" egípcia sobre a iminência dos ataques do Hamas, que resultaram na morte de cerca de 1.200 pessoas e 251 reféns.

Nos seus desmentidos veementes, o chefe do Governo chamou o caso para as eleições, atribuindo-o "a rivais políticos e atores estrangeiros hostis" com o objetivo de o derrubar.

Mas o caso já ultrapassa a esfera da campanha e adensou-se com trocas de acusações graves entre o primeiro-ministro e o ex-chefe dos serviços de segurança interna (Shin Bet) sobre os acontecimentos antes, durante e depois do 07 de Outubro, que deverão continuar nos tribunais.

Um ex-secretário militar de Netanyahu veio também lançar novas suspeições, ao acusar o seu gabinete de falsificar a "fita do tempo" daquela manhã de 2023, levando o líder do partido Yashar e favorito nas sondagens, o ex-general Gadi Eisenkot, a pedir ação ao Ministério Público e o também opositor e ex-ministro da Defesa Avigdor Liberman a reclamar o apuramento de "traição e conspiração".

Há um mês, os principais políticos da oposição concordaram com a criação, depois das eleições, de uma comissão de investigação independente ao 07 de Outubro, até agora recusada pelo primeiro-ministro.

Segundo o Instituto da Democracia de Israel, mais de 60% dos israelitas consideram que o 07 de Outubro é um tema crucial no seu voto. Mas nem tudo é sombrio para o atual líder israelita, na medida que uma parte importante do eleitorado apoia a sua política de força desde 2023, embora também exija esclarecimentos.

+++ Faixa de Gaza +++

O primeiro-ministro recusou em agosto o roteiro dos Estados Unidos, endossado pelo Conselho da Paz para a Faixa de Gaza, sobre as etapas seguintes do cessar-fogo que vigora há um ano no enclave palestiniano.

Na base da rejeição, está a recusa da retirada do exército até ao desarmamento "genuíno" do Hamas, que gere o enclave e já tinha aceitado a proposta, deixando as negociações de paz num impasse, enquanto os ataques israelitas prosseguem.

A generalidade da oposição não discorda desta abordagem, embora tenha visões diferentes sobre a entidade que deverá gerir o território pós-Hamas.

+++ Dois Estados +++

Uma sondagem do Centro de Pequisa Pew divulgada em setembro indica que apenas 17% dos israelitas e 21% dos palestinianos acreditam na coexistência pacífica.

Do lado oposto, uma vasta maioria em ambos os lados mostra-se descrente por razões históricas, violência acumulada e desconfiança.

Apesar da pressão internacional, reforçada em setembro de 2025 quando dez países ocidentais - incluindo Portugal - reconheceram o Estado da Palestina, Netanyahu avisou desde logo que isso "não vai acontecer", enquanto os seus aliados ultranacionalistas clamam pela anexação da Cisjordânia e retirada da população da Faixa de Gaza.

Já em plena campanha, comentou que essa é a questão central nas eleições: "A direita ou a Palestina", convertida em lema do seu partido, o Likud.

Com exceção dos partidos árabes, apenas a esquerda personificada por Yair Golan, da coligação Democratas, apoia abertamente um Estado palestiniano, o que complica eventuais acordos pós-eleitorais para viabilizar um governo da oposição.

+++ Irão e Estados Unidos +++

A ofensiva dos Estados Unidos e Israel contra o Irão, em 28 de fevereiro, foi o culminar de quase três anos de trocas de ataques de curta duração entre forças israelitas e iranianas, assumindo a confrontação direta após uma "guerra por procuração" através dos grupos aliados de Teerão no Médio Oriente.

Um estudo de opinião divulgado em junho pela Universidade Hebraica de Jerusalém indicou que acima de metade dos inquiridos avaliavam a atuação de Netanyahu contra o Irão como "fraca" ou "falhada".

Mais ainda (72%) não ficaram convencidos de que a ameaça existencial colocada pelo programa nuclear iraniano tinha sido eliminada.

Os principais candidatos de oposição concordam que o Irão não pode ter uma arma nuclear e também defendem mão firme contra os grupos aliados de Teerão.

Mas culpam o chefe do executivo por "ganhos zeros" na diplomacia, nas palavras do ex-primeiro-ministro Naftali Bennett, líder da coligação Juntos.

As críticas estendem-se à tensão instalada com a Casa Branca, que passou a ver Israel como um obstáculo às suas iniciativas de paz no Médio Oriente, e também à perda de apoios no mundo árabe.

A pouco mais de uma semana antes das eleições, o aliado norte-americano Donald Trump veio publicamente manifestar o seu "apoio total e incondicional" à reeleição de Netanyahu, que agradeceu prontamente.

"Obrigado, Senhor Presidente Trump, pelo seu imenso apoio e pelo nosso trabalho em conjunto. Juntos, levaremos a missão até ao fim!", escreveu Netanyahu na rede social X.

+++ Custos da Guerra +++

As vastas operações militares provocaram danos na imagem de Israel, após dezenas de milhares de mortos, na maioria civis, registados ao longo de três anos na Faixa de Gaza, Líbano e Cisjordânia, gerando crescente condenação internacional, depois da solidariedade inicial no 07 de Outubro, e grandes mobilizações de protesto em vários países.

Internamente, o 07 de Outubro trouxe mudanças na doutrina de segurança do Governo, que passou a adotar longas campanhas militares, refletidas na presença contínua na Faixa de Gaza, no sul do Líbano e na Síria, bem como ataques contra o Irão e os rebeldes Huthis no Iémen, a juntar às operações quase diárias na Cisjordânia.

Esta doutrina alimentou interrogações sobre a capacidade em sustentar um exército em múltiplas frentes. Dezenas de milhares de reservistas foram mobilizados desde 2023, mas os líderes militares continuam a queixar-se de falta de pessoal.

+++ Religião, Identidade e Recrutamento militar +++

As carências do exército ligam com as isenções militares para os ultraortodoxos, que Netanyahu concedeu como forma de segurar o apoio dos partidos desta comunidade (14% da população) à sua frágil coligação governamental.

Uma decisão nesse sentido foi adotada pelo parlamento mas travada pelo Supremo Tribunal a pedido da oposição, traduzindo o sentimento da maioria laica que não compreende a exceção nem os amplos protestos dos ultraortodoxos nas ruas.

As divisões não se resumem ao serviço militar. Pouco antes da dissolução, o parlamento aprovou também a separação de homens e mulheres em certos cursos superiores e a consagração do estudo da Torá (livro sagrado do judaísmo) como valor fundamental do Estado.

Este tipo de medidas é bem recebida pelos defensores do caráter judaico de Israel, mas outra parte da sociedade encara com preocupação a crescente influência da religião na vida pública.

+++ Netanyahu e a Justiça +++

Netanyahu tornou-se no primeiro líder israelita acusado por corrupção, sendo julgado desde 2020 em três processos por suborno, fraude e abuso de confiança.

Num caso, o chefe do executivo, que se diz vítima de "uma caça às bruxas" e "golpe de estado judicial", e a mulher, Sara, são acusados de aceitar artigos de luxo em troca de favores políticos. Nos outros, é visado por tentar negociar cobertura mediática positiva na imprensa.

A par disso, o gabinete do primeiro-ministro foi atingido pelo chamado "Qatargate", quando dois colaboradores próximos foram implicados num esquema de alegados pagamentos para promover interesses em Israel do Qatar, país financiador do Hamas.

Após a vitória nas eleições de 2022, o líder israelita procurou encetar uma polémica reforma judicial, que colidiu com grandes protestos nacionais e acusações de recuo democrático, tema que saiu da agenda após o 07 de Outubro.

+++ Custo de Vida +++

O crescimento da economia mais do que duplicou desde 2000, empurrada pelos setores tecnológico e da defesa, o desemprego é historicamente baixo, mas os israelitas enfrentam um dos custos de vida mais altos do mundo, enquanto os salários médios continuam aquém da média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE).

Os economistas apontam para um mercado interno pouco competitivo, barreiras comerciais e uma política de habitação inexistente, situação agravada por complicações nas cadeias de abastecimento e falta de mão-de-obra em tempo de guerra.

Desde 2023, o orçamento da defesa duplicou e os impostos também, fazendo com que o poder de compra das famílias e a desigualdade social sejam temas obrigatórios na campanha.

Leia Também: Como funciona a votação nas eleições legislativas em Israel

Conteúdo importado automaticamente via RSS de Minuto.

Todos os direitos autorais e de propriedade intelectual pertencem ao veículo de origem. Leia a matéria completa na fonte original

Publicidade

Gostou? Compartilhe

Mande para os amigos ou publique nas suas redes.

Comentários (0)

Nenhum comentário publicado ainda.

Seja o primeiro a compartilhar sua opinião sobre esta matéria!

Deixe seu comentário

Seu e-mail não será divulgado publicamente. Comentários passam por moderação antes da publicação.