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Jovens não querem filhos? "Estão a fazer contas" (e cuidar dos pais pesa)

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Minuto Fonte Externa
6 de novembro de 2026 • 6 min de leitura
Jovens não querem filhos? "Estão a fazer contas" (e cuidar dos pais pesa)

“Esta geração não está a recusar a parentalidade. Estão a fazer contas”. É esta a principal conclusão de um barómetro do Projeto Future, realizado no âmbito da Semana Europeia da Fertilidade, que visa perceber quais são as maiores preocupações que podem estar a adiar o desejo dos jovens portugueses de serem pais.

 

Entre as várias preocupações, onde se destacam os problemas financeiros e a falta de habitação, há uma em específico que surpreendeu os responsáveis pelo estudo: a necessidade de cuidar de outros familiares.

O estudo em causa pretendia compreender como as novas gerações percecionam os desafios associados à Economia do Cuidado, nomeadamente no que diz respeito à conciliação entre vida profissional, projetos pessoais, parentalidade e responsabilidades de cuidado; bem como ao papel do Estado, das empresas e das políticas públicas na resposta a esta realidade. E concluiu que existe uma situação talvez pouco percecionada até agora: há jovens a adiarem ou a desistirem de serem pais, por anteciparem que podem vir a ser responsáveis pelos cuidados de outros familiares, nomeadamente dos seus pais.

Jovens a pensar nos outros

No estudo, foi possível concluir que 74,8% dos jovens dos 18 aos 34 anos consideram provável vir a cuidar de familiares. E esta realidade assume uma consequência potencial nos projetos de parentalidade: 68,9% admitem que a necessidade de cuidar de um familiar poderia alterar os seus planos — 32,0% adiariam a decisão, 20,3% teriam menos filhos do que gostariam e 16,6% reconsiderariam a decisão de os ter. Isto significa que sete em cada dez jovens admitem mudar os planos de serem pais, caso tenham de assumir a responsabilidade de cuidar de um familiar.

“Este resultado chama a atenção para uma dimensão muitas vezes pouco visível: os jovens não estão apenas a planear o seu futuro profissional e a constituição de uma família; muitos antecipam também responsabilidades de cuidado relativamente às gerações mais velhas. Não devemos, por isso, partir da ideia de que o trabalho substituiu a família nas suas prioridades. O estudo mostra precisamente que as responsabilidades familiares continuam muito presentes nas suas expectativas”, afirma, ao Notícias ao Minuto, Pedro Moura, diretor-geral da Merck Portugal.

O mesmo responsável considera que estes resultados mostram que os jovens valorizam cada vez mais a “possibilidade de organizar a vida profissional de forma compatível com as responsabilidades familiares, presentes ou futuras. É uma preocupação que vai além de quem já tem filhos: inclui também quem antecipa vir a cuidar de pais ou de outros familiares”.

Habitação e falta de meios financeiros

Outros dos dados referentes ao estudo mostram que 50,5% dos inquiridos apontam a instabilidade financeira como um motivo para adiarem a parentalidade. Outros 17% falam em habitação. Estas são, aliás, as duas maiores preocupações refletidas no barómetro.

Para Pedro Moura isto prova que “variáveis ligadas à autonomia e segurança entram no planeamento da parentalidade” e não considerar “as condições económicas e habitacionais identificadas pelos jovens seria deixar de fora uma parte importante da realidade que o estudo retrata”.

Outra parte interessante do estudo aponta para a forma como as empresas podem assumir medidas que façam diferença na forma como os trabalhadores conciliam a  carreira com a parentalidade.

"O desafio não é apenas financeiro: é também de previsibilidade, estabilidade e organização do tempo, para que assumir responsabilidades familiares não signifique perder oportunidades profissionais", salienta Luís Ferreira Vicente, do Movimento +Fertilidade, que aponta medidas como a flexibilidade laboral, o reforço da partilha das licenças parentais, incentivos fiscais associados à partilha de cuidados e apoio estrutural ao segundo filho, como uma ajuda.

"Não se trata de afirmar que estas medidas, isoladamente, resolverão o adiamento da parentalidade, mas de reconhecer que as condições de trabalho podem facilitar ou dificultar escolhas familiares", defende.

+Fertilidade vai enviar 15 recomendações ao Governo 

Na sequência dos resultados do estudo, o Movimento +Fertilidade vai enviar ao Governo 15 recomendações, distribuídas por três eixos — Literacia, Trabalho e Acesso —, desenvolvidas no âmbito do trabalho do Tackling Infertility.

"O nosso ponto de partida é simples: não basta reconhecer que a parentalidade enfrenta obstáculos. É necessário discutir respostas concretas, que articulem informação sobre fertilidade, condições de vida e acesso aos cuidados de saúde", diz Luís Vicente, acrescentando que "o que esperamos é abrir um diálogo fundamentado que permita passar da identificação dos problemas à avaliação de medidas concretas". 

As medidas incluem uma consulta de aconselhamento sobre fertilidade nos cuidados de saúde primários entre os 20 e os 35 anos; incentivos às empresas que apoiem a parentalidade e o cuidado de familiares, e tempos máximos de resposta na procriação medicamente assistida (PMA) definidos em função da idade.

Estas prioridades enquadram-se nas 15 recomendações organizadas nos eixos Literacia, Trabalho e Acesso e as propostas resultam de uma análise comparativa das políticas de vários países europeus.

Jovens ainda vão a tempo de ter filhos?

Com tantas preocupações em cima da mesa e tantos obstáculos a fazer os mais novos adiarem as suas pretensões de serem pais, questionámos os responsáveis pelo estudo se os jovens ainda vão a tempo de serem pais.

"Muitos jovens poderão concretizar os seus projetos de parentalidade, mas não existe uma garantia igual para todos nem um calendário biológico único", refere Luís Vicente, lembrando que "a fertilidade depende de fatores individuais e clínicos" e que "a passagem do tempo deve fazer parte de decisões informadas".

"Há aqui uma tensão que precisamos de reconhecer: as pessoas procuram, legitimamente, estabilidade económica e profissional antes de terem filhos, mas a biologia não acompanha necessariamente esse calendário", atirou, lembrando para outra constatação do seu trabalho: "mais do que a idade, são as condições pessoais e financeiras aquilo que mais poderá 'condicionar' os seus planos de parentalidade".

Os resultados do estudo são lançados na Semana Europeia da Fertilidade e constam do Barómetro FutURe 2026, promovido pela Merck, e que contou com as respostas de 1.200 jovens.

Leia Também: Movimento +Fertilidade quer consultas nos centros de saúde

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