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Manuel Lopes, o "cônsul" de Newark que vende sementes

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Minuto Fonte Externa
26 de outubro de 2026 • 6 min de leitura
Manuel Lopes, o "cônsul" de Newark que vende sementes

No meio da avenida mais portuguesa dos Estados Unidos, um 'consulado' oficioso liga a comunidade imigrante e luso-descendente, é onde se vai para copiar qualquer chave e vende até sementes de couve penca de Chaves.

 

O fundador e dono da Lopes & Sons Hardware, Manuel "Manny" Lopes, tem 69 anos de vida e 53 de América, onde se juntou ao pai para construir uma vida "cá fora" em que nunca deixou de ser orgulhosamente português.

"Sou de Ganfei, uma aldeia a quatro quilómetros de Valença, onde nasceu o primeiro santo português: São Teotónio", diz em entrevista à agência Lusa.

Em mais de meio século na Ferry Street, só mudou uma vez "do número 95 para o 98" na artéria que hoje tem o cognome de Portugal Avenue, reconhecida pelas autoridades da cidade de Newark, estado de New Jersey.

"Temos que ser bairradinos. Eu tenho, como se diz no Minho, uma chieira. E sou vaidoso nessas coisas. Agora, consideram a minha loja como um 'mini-consulado'. É um orgulho, depois de tantos antos numa terra que não é nossa, porque viemos para aqui emprestados, eu era dos que vinha para ir, mas afinal fiquei, porque a vida mo proporcionou e constituí família aqui", admite.

Não é preciso muito tempo à porta do estabelecimento onde a televisão está sempre sintonizada nos canais portugueses para perceber que "Manny" responde a todo o tipo de necessidades da comunidade de Newark, portuguesa ou não, que mora no bairro conhecido como Ironbound.

Pela porta entram portugueses que se despedem antes de voltar a Portugal para "os Fiéis" e visitar os seus mortos no cemitério, outros que perguntam a Manuel Lopes onde e como podem votar antecipadamente nas eleições norte-americanas de dia 03 de novembro.

Em frente da loja, recebe acenos de gente com todos os sotaques e até da polícia que persegue rapazes a conduzir trotinetas à maluca por cima dos passeios.

Assistiu à transformação de Ferry Street num pequeno território autónomo dominado pela língua e cultura de Portugal que a partir de meados da década de 70, sobretudo com o 25 de Abril, mudou quando os portugueses ali emigrados "começaram a trazer as famílias e a comprar casas".

"Depois, crescemos. 'Corremos' com os italianos, com os polacos, com os cubanos, porque os portugueses lhes compraram os negócios", recorda, assinalando que hoje, os desafios dos imigrantes em Newark são diferentes e começam pelo choque trazido pela atuação da polícia da imigração e fronteiras norte-americana, o ICE.

"Vi-os aqui. Estava à porta a conversar com um polícia local e ele, polícia, diz "oh-oh!". Pararam três carros de onde saíram dois. Dirigiram-se a um rapazito que parecia hispânico e prenderam o moço. Deram a volta e foram agarrar outro ali em frente. É chocante", admite.

Manuel Lopes admite que "ainda há alguns portugueses ilegais aqui e estão com medo de sair à rua, rapazes que trabalham na indústria hoteleira, nos restaurantes, e andam com o coração nas mãos".

"Brasileiros também, mas é mais a comunidade hispânica. Tenho visto homens que vão [presos pelo ICE], ficam as mulheres, os filhos...são pessoas que têm casas e pagam impostos", lamenta.

"Eu arrepio-me a falar disto. Eu vim para cá legal, mas o meu falecido pai foi primeiro para o Canadá, passou [para os Estados Unidos] na mala de um carro, andou aos trambolhões, um advogado ficou-lhe com dinheiro. A preocupação dele era trazer-me a mim, porque na altura, se se fizesse 17 anos em Portugal, já não se ia para lugar nenhum" por causa da guerra colonial.

'Manny' defende "a imigração e os imigrantes", e assinala que "o ICE está a dar prejuízo" em Newark, que "é uma cidade de imigrantes" e onde os restaurantes, as pastelarias, a sua loja, vivem dos clientes locais, que "agora vêm comprar com medo".

Reconhece também o outro lado da moeda, quando o antigo presidente Joe Biden "abriu as portas" da fronteira com o México e os imigrantes entraram a dizer "a América tem que nos receber, tem que fazer, tem que nos dar".

"Estou de acordo com [o Presidente Donald] Trump num aspeto. Todo o indivíduo com cadastro no país dele tem que sair do nosso. Acho que isso está certo. A democracia é muito bonita, mas não funciona com toda a gente. Isto tinha chegado a um ponto em que não se se sabia quem mandava", admite.

Diz a brincar que recomenda a quem lhe confessa andar com medo que "meta o cartão do Manny no bolso", como se fosse uma espécie de salvo-conduto pela ligação ao 'cônsul' de Ferry Street.

"Isto é das coisas que mais me choca. Uma coisa é ver vídeos nas redes sociais, outra é ver prender as pessoas na rua", salienta.

Com a perspetiva de acabar o domínio republicano no Congresso norte-americano nas eleições de meio do mandato presidencial, afirma que a maior parte da comunidade portuguesa que contacta lhe diz que "isto tem que mudar para os democratas".

Mas prevê que seja Trump a ganhar, porque "o estado de New Jersey não conta nada nos votos".

"O sistema eleitoral aqui é do piorzinho, não tem jeito nenhum, é complicadíssimo. Perdem tempo com tanta coisa e não mudam isto", lamenta.

Com dois filhos e netos nascidos nos Estados Unidos, Manuel Lopes já não pensa voltar a Portugal, grato a um país onde ficou "sozinho aos 17 anos" e a um pai que "lhe permitiu viver melhor" e tentar melhorar a vida da comunidade onde se fixou.

"O meu estabelecimento não tem clube, religião ou partido político. É de todos, é uma porta aberta", até para quem precise de fugir dos homens da cara tapada armados até aos dentes que fazem cumprir o desígnio de Trump na América que também é um pouco de Portugal.

Leia Também: Ativistas de Newark gritam por liberdade frente a 'gulag' da imigração

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