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Marcelino Sambé estreia-se como coreógrafo na CNB

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Minuto Fonte Externa
20 de outubro de 2026 • 6 min de leitura
Marcelino Sambé estreia-se como coreógrafo na CNB

O bailarino Marcelino Sambé, estreia-se na quinta-feira como coreógrafo, na Companhia Nacional de Bailado (CNB), em Lisboa, com uma peça inspirada em Fernando Pessoa, e quer contribuir para renovar o bailado clássico, aproximando-o de novos públicos, sem perder a tradição.

 

Em "Eles, Invertidos", uma das duas novas coreografias do espetáculo "Desassossego", da CNB, o artista parte do universo introspetivo do "Livro do Desassossego", de Bernardo Soares/Fernando Pessoa, para explorar o pensamento interior e as perguntas que atravessam a existência humana.

"Há uma beleza em tentar traduzir palavras em movimento", disse Marcelino Sambé em entrevista à agência Lusa, entre ensaios, por telefone, a partir de Londres, onde é bailarino principal no Royal Ballet.

Com 13 bailarinos em palco, a peça – que marcará a primeira colaboração coreográfica de Sambé com a CNB - procura traduzir em movimento a dimensão interior através de uma espécie de inversão do ser humano, "como se fosse possível virar o corpo do avesso e observar cada um dos seus órgãos", explicou.

No processo de criação, Sambé concluiu que a obra de Fernando Pessoa exigia ser profundamente sentida e refletida, por colocar questões como "quem somos, o que queremos fazer, de onde viemos, como vemos o mundo".

"Quando comecei a pensar na forma como esta peça me fazia sentir, foi quase como uma inversão do ser humano, como virar do avesso o corpo e fazer uma inspeção por completo", descreveu sobre o resultado coreográfico a partir da obra literária.

Questionado sobre o que espera da reação do público, o coreógrafo afirmou que não procurou antecipá-la, preferindo partir da sua própria experiência, da relação com os bailarinos e da música, sem determinar o que os espetadores devem sentir.

"Eu quero fazer algo que talvez faça com que o público levante questões, e que fique um pouco mais curioso", afirmou, comparando a experiência desta criação à leitura do livro, que considera aberta à interpretação individual.

Publicado pela primeira vez em 1982, quase meio século após a morte de Fernando Pessoa (1888-1935), o "Livro do Desassossego" reúne reflexões sobre a consciência, a existência e a vida quotidiana em Lisboa, atribuídas em grande parte ao semi-heterónimo Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na Rua dos Douradores.

A estreia na CNB representa um novo passo no percurso artístico de Marcelino Sambé, bailarino principal do Royal Ballet, em Londres, onde ingressou em 2012 e foi promovido à categoria mais elevada da companhia em 2019.

Embora já tenha coreografado em Londres, sobretudo em projetos de menor dimensão, e trabalhado em direção de movimento para a moda, esta é a primeira vez que cria uma peça para a CNB e que desenvolve um trabalho desta natureza com uma companhia profissional de bailado, apontou à Lusa.

"É uma grande honra [coreografar para a CNB], e é mais um passo para o meu futuro numa área mais multidisciplinar", afirmou, acrescentando que, apesar de o bailado clássico continuar a ser uma das suas prioridades, sempre se interessou pelo teatro, pela televisão, o cinema e as artes visuais.

A experiência como coreógrafo surge também num momento em que sente maior confiança para explorar outras linguagens, depois de interpretar recentemente um dos protagonistas de "Manon", numa coreografia de Kenneth MacMillan, no Royal Ballet.

O contacto com artistas de diferentes áreas tem contribuído para o desenvolvimento da maturidade profissional e para a forma como pensa o futuro da dança, sublinhou o bailarino de 32 anos, nascido em Lisboa, de origem luso-guineense.

"Há um estigma muito grande em relação ao que um bailarino pode ou não pode fazer, porque nós passamos a vida no estúdio e somos sempre estudantes", observou, defendendo que a formação e a dedicação exigidas pelo bailado clássico não devem impedir a experimentação artística.

Para Marcelino Sambé, a dança precisa de dialogar com as formas contemporâneas de pensar e com questões sociais atuais, de modo a encontrar novas linguagens e atrair públicos mais jovens.

"A dança não pode ser só condenada aos parâmetros que já foram feitos nos anos 1800. Nós temos de fazer 'updates' e encontrar novas formas de encontrar outros públicos e de cativar os jovens a dançar e virem ver dança", sustentou o artista que passou pela Escola Artística de Dança do Conservatório Nacional e a Royal Ballet School.

O objetivo não passa, contudo, por abandonar a tradição, mas por descobrir novas possibilidades dentro de uma linguagem com séculos de desenvolvimento técnico e artístico, ressalvou na entrevista à Lusa.

"Eu não quero tentar replicar o 'Lago dos Cisnes' e outros clássicos outra vez. Quero mostrar onde é que estão as novas histórias", disse, defendendo a exploração de novas situações e contextos para o bailado, sem deixar de lado a dança clássica em pontas.

O coreógrafo considera que ainda há muito por descobrir nas técnicas e formas existentes, através da desconstrução e da sua utilização em novos contextos, sem que a procura de uma linguagem inovadora conduza ao abandono do conhecimento acumulado dos clássicos.

"É tentar pôr o ballet em novas situações, em novos momentos", resumiu Marcelino Sambé.

Portugal assume, neste percurso, um lugar particular, que o artista descreve como um espaço de segurança e liberdade criativa, onde sente que pode experimentar caminhos que talvez não fossem possíveis noutros países.

"Eu vejo Portugal como um porto seguro onde sei que os braços estarão sempre abertos", afirmou, destacando a coexistência entre um forte vínculo ao passado e um olhar dirigido ao futuro.

Depois de ter conquistado vários prémios em concursos internacionais de dança, Marcelino Sambé foi galardoado com o Critics' Circle National Dance Award (2017), o Prémio Personalidade do Ano / Martha de la Cal (2022), atribuído pela imprensa estrangeira em Portugal, a Medalha de Mérito da Câmara Municipal de Oeiras (2020), e a condecoração oficial como Cavaleiro da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada (2022).

"Desassossego", que abre a temporada 2026/2027 da CNB, reúne duas criações inspiradas no "Livro do Desassossego", de Fernando Pessoa: além de Marcelino Sambé, também o bailarino e coreógrafo Daniel Cardoso, cria igualmente pela primeira vez um bailado para a companhia, com a peça "Elsewhere within stillness".

O espetáculo estreia-se na quinta-feira, no Teatro Camões, e terá apresentações até 01 de novembro, no âmbito da programação de celebração dos 50 anos da CNB, fundada em dezembro de 1977.

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