Pular para o conteúdo
Publicidade

"Medida por Medida", de Shakespeare, estreia-se em Almada

M
Minuto Fonte Externa
29 de outubro de 2026 • 5 min de leitura
"Medida por Medida", de Shakespeare, estreia-se em Almada

A peça "Medida por Medida", a estrear-se na sexta-feira pela Companhia de Teatro de Almada no Teatro Municipal Joaquim Benite, naquela cidade, é uma obra "política e metafísica", disse o encenador à Lusa no final de um ensaio.

 

De acordo com Ignacio Garcia, o texto de William Shakespeare, na base do espetáculo, é uma peça "política e metafísica, na sua dupla dimensão", que, "sem dúvida", assenta "que nem uma luva nos tempos atuais".

A peça entra "numa dimensão política, porque nem todos somos julgados da mesma maneira, [e] porque os poderosos têm privilégios e os que sofreram sempre continuam a sofrer. E isso é a dimensão política da pergunta que continua. Evidentemente, basta sair à rua para ver que essa pergunta é pertinente hoje".

Quanto à questão metafísica, está presente porque a peça "aborda muitos temas que estão muito na ordem do dia, sobretudo com a existência das redes sociais", disse o encenador, confessando-se "preocupado, sobretudo pelas novas gerações, com o juízo (julgamento) permanente" que se vive atualmente.

"Esta coisa do 'like-a-like', de que desde o acordar de manhã até à noite devem julgar", acrescentou o encenador à agência Lusa, sublinhando não ter qualquer rede social por "preservar muito a privacidade".

E exemplificou: "Se alguém colocar no Instagram que está a beber um café devem julgar se é bom o café, se é bom o lugar, se deviam ou não tomar o café".

"Aparentemente estamos numa sociedade mais livre, mas é uma sociedade muito mais conservadora no sentido de estar todo o tempo a julgar. E no julgar estão todos os preconceitos sociais": se colocam no Instagram "uma foto de um homem a tomar um café com uma mulher, o julgamento não é o mesmo".

Tal como "se a mulher toma açúcar não é o mesmo que se o homem toma açúcar, se é uma pessoa racializada também não é o mesmo, se é uma mulher gorda, se é uma mulher velha, se é uma pessoa bem vestida ou se é alguém mal vestido", frisou.

Por isso, a pergunta que a peça deixa e que é "metafísica e pertinente" é a seguinte: "Na tua vida, estás a julgar os outros como te julgas a ti mesmo?" enfatizou o encenador, a propósito daquele que é o quarto espetáculo que põe em palco para a Companhia de Teatro de Almada (CTA).

A história de "Medida por medida" centra-se em Ângelo, escolhido para substituir o duque de Viena durante a ausência deste da cidade.

Temas como a justiça e injustiça exercida pelos governos, luxúria, lealdade, traição, bondade e perversão do poder perpassam toda a peça.

Ângelo aproveita-se do cargo para pôr em prática a sua maldade, com ameaças e chantagem, mas o Duque de Viena acaba por gizar um plano, para denunciar a sua hipocrisia.

Uma estrutura metálica de dois pisos - um superior e outro inferior - definem o cenário e as diferentes origens socias das 13 personagens: o piso superior é quase sempre ocupado pelo duque, por Ãngelo e pelos servidores da classe vigente; no inferior estão os pobres, os sem nada, os que habitam "quase os esgotos da cidade", como se diz na peça.

Escrita por Shakespeare em 1603 ou 1604, e publicada vinte anos depois, "Medida por Medida" contém todos os temas "recorrentes" nas peças do dramaturgo inglês, disse Ignacio García, sublinhando a "atualidade" de todos eles.

"Medir e ser medido" é uma premissa que atravessa toda a peça, "porque com o juízo com que julgardes sereis julgados" e "a medida com que medirdes será aquela que vos medirá", como o próprio texto insiste.

"Medida por medida" trata, assim, "do julgar e ser julgado, da vivência sob uma supervisão constante, permanente, sem piedade", restando apenas a esperança às classes mais desfavorecidas.

"Os infelizes não têm outro remédio senão a esperança", ouve-se no desenrolar do drama.

No fundo, a peça fala de se estar estar "toda a vida a julgar os outros", afirma Ignacio García, questionando se não é possível "deixar os outros viverem em paz".

Como diz Ângelo no final do espetáculo, quando as câmaras apontam para o público, "fui apanhado, fui castigado, vou-me embora, mas não sou o poder".

"Há um poder superior - as super-estruturas que nem conhecemos - que vai continuar a controlar, independentemente de os governos mudarem", observou Ignacio García.

E concluiu: "Sabemos que estamos numa sociedade sobre-informada e que há muita informação. A pergunta é para quê e para quem é essa informação".

"Medida por medida" fica em cena na Sala Principal do Teatro Municipal Joaquim Benite de 30 de outubro a 29 de novembro, com récitas à sexta-feira e sábado, às 21:00, e à quinta-feira e ao domingo, às 16:00.

No dia 31 de outubro e nos dias 07, 14, 21 e 28 de novembro, pelas 18:00, haverá as habituais conversas com o púbico.

A peça tem tradução de Fernando Villas-Boas, versão de José Gabriel Antuñano, cenografia de José Manuel Castanheira e figurinos de Sérgio Loureiro.

O desenho de luz é de Guilherme Frazão, e o vídeo de Pedro Castanheira.

A interpretar estão André Pardal, Ana Cris, Duarte Grilo, Duarte Guimarães, João Cabral, João Didelet, José Redondo, Maria João Falcão, Marina Albuquerque e Pedro Walter.

Festival Zero regressa a Tomar com duas semanas de cultura

O Festival Zero regressa a Tomar com programação de 31 de outubro a 14 de novembro, incluindo teatro, música, fotografia e poesia em diversos espaços da cidade.

Lusa | 12:56 - 29/10/2026

Conteúdo importado automaticamente via RSS de Minuto.

Todos os direitos autorais e de propriedade intelectual pertencem ao veículo de origem. Leia a matéria completa na fonte original

Publicidade

Gostou? Compartilhe

Mande para os amigos ou publique nas suas redes.

Comentários (0)

Nenhum comentário publicado ainda.

Seja o primeiro a compartilhar sua opinião sobre esta matéria!

Deixe seu comentário

Seu e-mail não será divulgado publicamente. Comentários passam por moderação antes da publicação.