"Medida por Medida", de Shakespeare, estreia-se em Almada
A peça "Medida por Medida", a estrear-se na sexta-feira pela Companhia de Teatro de Almada no Teatro Municipal Joaquim Benite, naquela cidade, é uma obra "política e metafísica", disse o encenador à Lusa no final de um ensaio.
De acordo com Ignacio Garcia, o texto de William Shakespeare, na base do espetáculo, é uma peça "política e metafísica, na sua dupla dimensão", que, "sem dúvida", assenta "que nem uma luva nos tempos atuais".
A peça entra "numa dimensão política, porque nem todos somos julgados da mesma maneira, [e] porque os poderosos têm privilégios e os que sofreram sempre continuam a sofrer. E isso é a dimensão política da pergunta que continua. Evidentemente, basta sair à rua para ver que essa pergunta é pertinente hoje".
Quanto à questão metafísica, está presente porque a peça "aborda muitos temas que estão muito na ordem do dia, sobretudo com a existência das redes sociais", disse o encenador, confessando-se "preocupado, sobretudo pelas novas gerações, com o juízo (julgamento) permanente" que se vive atualmente.
"Esta coisa do 'like-a-like', de que desde o acordar de manhã até à noite devem julgar", acrescentou o encenador à agência Lusa, sublinhando não ter qualquer rede social por "preservar muito a privacidade".
E exemplificou: "Se alguém colocar no Instagram que está a beber um café devem julgar se é bom o café, se é bom o lugar, se deviam ou não tomar o café".
"Aparentemente estamos numa sociedade mais livre, mas é uma sociedade muito mais conservadora no sentido de estar todo o tempo a julgar. E no julgar estão todos os preconceitos sociais": se colocam no Instagram "uma foto de um homem a tomar um café com uma mulher, o julgamento não é o mesmo".
Tal como "se a mulher toma açúcar não é o mesmo que se o homem toma açúcar, se é uma pessoa racializada também não é o mesmo, se é uma mulher gorda, se é uma mulher velha, se é uma pessoa bem vestida ou se é alguém mal vestido", frisou.
Por isso, a pergunta que a peça deixa e que é "metafísica e pertinente" é a seguinte: "Na tua vida, estás a julgar os outros como te julgas a ti mesmo?" enfatizou o encenador, a propósito daquele que é o quarto espetáculo que põe em palco para a Companhia de Teatro de Almada (CTA).
A história de "Medida por medida" centra-se em Ângelo, escolhido para substituir o duque de Viena durante a ausência deste da cidade.
Temas como a justiça e injustiça exercida pelos governos, luxúria, lealdade, traição, bondade e perversão do poder perpassam toda a peça.
Ângelo aproveita-se do cargo para pôr em prática a sua maldade, com ameaças e chantagem, mas o Duque de Viena acaba por gizar um plano, para denunciar a sua hipocrisia.
Uma estrutura metálica de dois pisos - um superior e outro inferior - definem o cenário e as diferentes origens socias das 13 personagens: o piso superior é quase sempre ocupado pelo duque, por Ãngelo e pelos servidores da classe vigente; no inferior estão os pobres, os sem nada, os que habitam "quase os esgotos da cidade", como se diz na peça.
Escrita por Shakespeare em 1603 ou 1604, e publicada vinte anos depois, "Medida por Medida" contém todos os temas "recorrentes" nas peças do dramaturgo inglês, disse Ignacio García, sublinhando a "atualidade" de todos eles.
"Medir e ser medido" é uma premissa que atravessa toda a peça, "porque com o juízo com que julgardes sereis julgados" e "a medida com que medirdes será aquela que vos medirá", como o próprio texto insiste.
"Medida por medida" trata, assim, "do julgar e ser julgado, da vivência sob uma supervisão constante, permanente, sem piedade", restando apenas a esperança às classes mais desfavorecidas.
"Os infelizes não têm outro remédio senão a esperança", ouve-se no desenrolar do drama.
No fundo, a peça fala de se estar estar "toda a vida a julgar os outros", afirma Ignacio García, questionando se não é possível "deixar os outros viverem em paz".
Como diz Ângelo no final do espetáculo, quando as câmaras apontam para o público, "fui apanhado, fui castigado, vou-me embora, mas não sou o poder".
"Há um poder superior - as super-estruturas que nem conhecemos - que vai continuar a controlar, independentemente de os governos mudarem", observou Ignacio García.
E concluiu: "Sabemos que estamos numa sociedade sobre-informada e que há muita informação. A pergunta é para quê e para quem é essa informação".
"Medida por medida" fica em cena na Sala Principal do Teatro Municipal Joaquim Benite de 30 de outubro a 29 de novembro, com récitas à sexta-feira e sábado, às 21:00, e à quinta-feira e ao domingo, às 16:00.
No dia 31 de outubro e nos dias 07, 14, 21 e 28 de novembro, pelas 18:00, haverá as habituais conversas com o púbico.
A peça tem tradução de Fernando Villas-Boas, versão de José Gabriel Antuñano, cenografia de José Manuel Castanheira e figurinos de Sérgio Loureiro.
O desenho de luz é de Guilherme Frazão, e o vídeo de Pedro Castanheira.
A interpretar estão André Pardal, Ana Cris, Duarte Grilo, Duarte Guimarães, João Cabral, João Didelet, José Redondo, Maria João Falcão, Marina Albuquerque e Pedro Walter.
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Lusa | 12:56 - 29/10/2026Conteúdo importado automaticamente via RSS de Minuto.
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