Na festa de Eisenkot, Netanyahu foi convidado "a ir para casa"
O favorito nas sondagens das legislativas em Israel, Gadi Eisenkot, reuniu no domingo à noite centenas de apoiantes em Telavive para avisar que o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, usará "medidas extremas" para ficar no poder mas deve "ir para casa".
Apresentado como "soldado e comandante", num evento reservado a convidados no porto da cidade, o ex-chefe das forças armadas acusou o líder israelita de usar o medo como instrumento eleitoral, a apenas dois dias de uma votação que continua marcada pela incerteza.
Gadi Eisenkot referia-se a uma imagem gerada por inteligência artificial, publicada no mesmo dia na rede X pelo chefe do Governo, da explosão nuclear em Telavive, acompanhada de um alerta sobre o risco de um "segundo Holocausto" por parte do Irão.
"Eu vejo as sondagens, conheço os dados e conheço Netanyahu", declarou o líder do Yashar! (íntegro), aclamado como "futuro primeiro-ministro" por apoiantes e outros candidatos do partido, advertindo: "Ele não medirá esforços, nenhuma mentira, nenhumas medidas extremas, para continuar no poder".
O líder do executivo e do partido maioritário, Likud, também disse nos últimos dias que os israelitas devem preparar-se para sanções internacionais, devido à guerra na Faixa de Gaza e à escalada de violência na Cisjordânia ocupada, e sugeriu o uso de criptomoedas como alternativa, gerando uma barreira de críticas da oposição e do próprio banco central.
As últimas sondagens continuam a colocar o Yashar! ligeiramente à frente do Likud, embora nenhum dos dois partidos consiga a maioria de 61 lugares para controlar o Knesset (parlamento), nem através de alianças pós-eleitorais com os grupos políticos pró-governamentais ou do chamado bloco da mudança, que precisaria do apoio extra das duas forças árabes concorrentes.
Face à possibilidade de um impasse pós-eleitoral, Gadi Eisenkot deixou um cenário em que o seu adversário planeia "manter Israel preso a um governo provisório", conservando-se na liderança até que o Presidente israelita convoque novas eleições.
"Não permitirei que isso aconteça. Está na hora de Netanyahu ir para casa", disse o dirigente israelita, num dos momentos altos do seu discurso proferido numa sala de concertos de Telavive.
A eleição de terça-feira é vista como um referendo à atuação do primeiro-ministro, em particular a gestão dos ataques do grupo islamita Hamas, em 07 de outubro de 2023, mas também uma controversa reforma judicial que tentou encetar no início do mandato e as acusações de corrupção que enfrenta na justiça.
A imagem de um chefe de governo em fim de linha foi explorada no palco do comício, através da projeção de retratos dos dois principais candidatos às legislativas, Eisenkot em fundo azul e Netanyahu a vermelho, acompanhadas da frase: "Se não for Gadi, é Bibi", em referência à alcunha do primeiro-ministro.
No seu discurso, o candidato dirigiu-se também aos apoiantes do Likud, ao observar que o seu partido "se desviou da sua própria trajetória" e, no fundo, "sabem que Israel não pode continuar assim, convidando-os, "antes que seja tarde demais", a mudar o seu sentido de voto
"Eu vou entregar-vos a mudança. Olhem nos meus olhos: podem confiar em mim", declarou.
Gadi Eisenkot revisitou algumas das suas promessas de campanha, desde logo, a criação, no primeiro dia do governo que tenciona dirigir, de uma comissão de inquérito ao 07 de outubro, até agora recusada por Netanyahu, e que, no sábado foi revindicação de um megaprotesto em Telavive, que juntou cem mil pessoas, segundo a organização.
Reafirmou igualmente que pretende acabar com a controversa isenção do serviço militar para os judeus ultraortodoxos, que descreveu como "evasão, fracasso, negligência e mentiras", e que levarão por sua vez a que "Israel deixará, muito em breve, de ser o país que se conhece".
Lembrando que já pagou "um preço elevado" pelo seu país, referindo-se a um filho morto em combate na Faixa de Gaza, o antigo chefe militar reforçou outra promessa já deixada durante a campanha de que o Hamas deixará de controlar o enclave palestiniano em 18 meses, abstendo-se de usar expressões habituais no discurso do seu adversário, como eliminar ou destruir o grupo islamita.
No entanto, insistiu, as suas promessas eleitorais só terão efeito "se o Yashar! for maior que o Likud por uma ampla margem", ou seja o controlo do parlamento e a formação de um governo que promova um Estado "judaico e democrático".
Perante a incerteza dos resultados, a abstenção pode ser um dos fatores decisivos, após as últimas legislativas terem registado uma participação de 70,6%, mas com previsões de subida na próxima terça-feira, incluindo da minoria árabe, cujos partidos podem ser o fiel da balança para entendimentos pós-eleitorais.
"A partir de terça-feira, nada vai ser fácil. Muito pelo contrário", reconheceu à Lusa a escritora e poeta Alex Rif, que integra as listas do Yashar! em lugar elegível, não se alongando sobre os cenários para a formação de um executivo, em caso de vitória, apenas a fazer "o melhor para todo país".
No rescaldo do discurso do seu líder, a candidata de origem ucraniana e residente há 35 anos em Israel, comentou que "a única hipótese de isso acontecer é o Yashar! obter uma maioria expressiva", após "tantos anos difíceis com Netanyahu, sobretudo desde o 07 de Outubro".
Num país altamente polarizado, Luka, um jovem apoiante de Gadi Eisenkot conta que a divisão atravessa a sua própria família, em que uma parte, incluindo o seu pai e antigo trotskista votará no Yashar!, uma irmã no Likud e outra está ainda indecisa.
"Nesta eleição não há esquerda nem direita. Há Netanyahu ou mudança", assinalou, esperando que "o debate ideológico volte um dia, mas antes disso o país precisa de alguma normalidade".
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