"Nove horas por dia no mundo digital é uma prisão. Enfraquece democracia"
Sete anos de investigação e milhares de páginas de notas tiradas culminaram em "Imaginação", livro de Francisco Louçã cujo segundo volume acaba de chegar às livrarias.
Em entrevista ao Notícias ao Minuto, o economista, fundador do Bloco de Esquerda (BE), apresentou o trabalho. A forma como explorou a arte, a religião e o amor no primeiro volume, e como se dedicou às utopias, à ciência e à vida quotidiana no segundo.
A obra, editada pela Bertrand Editora, nasceu do desejo de compreender o que nos distingue enquanto espécie dos outros seres: "a capacidade única de criar linguagem e acumular cultura através da imaginação".
A pesquisa levou o antigo Conselheiro de Estado, a viajar por bibliotecas mundiais e edições raras digitalizadas, destacando-se a visita à Biblioteca do Vaticano, onde manuseou cartas com 500 anos, escritas por Galileu. Entre as descobertas que alimentam "Imaginação", sobressai também a análise de cartas de amor, um património cultural que o autor lamenta ver ameaçado pelas efémeras SMS.
No centro da reflexão deste novo volume está a evolução do conceito de utopia, hoje em grande parte substituído por visões distópicas. Perante este cenário, o escritor, que é também professor universitário, deixa um apelo à "lentidão num tempo de precipitação", criticando o ritmo acelerado imposto pelas redes sociais e pelo consumo digital. Para Louçã, a aceleração desenfreada enfraquece o debate democrático e isola os indivíduos num "narcisismo líquido".
Apesar das críticas ao isolamento contemporâneo, Francisco Louçã encerrou a entrevista com uma nota de esperança, lembrando que o futuro depende das nossas escolhas.
São sete anos de trabalho sobre este tema de base, que é saber o que é que distingue os humanos dos outros animais, em medida que a imaginação especificou um processo de acumulação cultural, que é único
Lançou recentemente o segundo volume de "Imaginação". No primeiro explorou a pintura, a religião, as viagens. Agora, dedica-se às utopias, ciências e vida quotidiana. Em tempos de crises sobrepostas, acha que exercitar a imaginação tornou-se também num ato político e de sobrevivência?
Não, o livro não é escrito a partir de uma motivação associável aos ciclos políticos ou, digamos, aos temores civilizacionais. Eu comecei a juntar notas em dezembro de 2019. Dois meses depois começou a pandemia da Covid-19 e ficamos fechados em casa, intermitentemente, durante um ano ou dois anos. E a partir daí trabalhei intensamente. São sete anos de trabalho sobre este tema de base, que é saber o que é que distingue os humanos dos outros animais, em medida que a imaginação especificou um processo de acumulação cultural, que é único. Outros animais também imaginam, o Darwin dizia, e bem, que os mamíferos imaginam porque sonham, portanto também imaginam. Mas nós criámos ao longo do tempo um processo de imaginação que criou uma linguagem - que é talvez o grande transformador da civilização humana - e ela permite uma acumulação cultural.
Então, escrevi o livro como explorando alguns dos campos em que essa faculdade de imaginação se exerceu, em parte para mostrar a sua cumulatividade. Como é que ela se evoluiu, por exemplo, nas viagens. Uso viagens imaginárias, viagens fantasiosas, ou as descrições das viagens dos exploradores, que eram militares, diplomatas, sacerdotes, que iam descrevendo outras civilizações, viagens míticas.
No segundo volume, trato de imaginário, que é um pouco diferente. São sistemas culturais que têm uma narrativa sobre si própria, que é o caso das utopias. Quando a utopia surge no princípio do século XVI, é a ideia de uma sociedade perfeita, uma sociedade em que os homens e mulheres vivem em paz, em que não há guerra, em que não há moeda, não há propriedade privada, não há perseguição religiosa, a ideia de uma espécie de sociedade bondosa, que tem, depois, grandes efeitos, porque o género utópico transforma-se num género literário de grande potência, que, aliás, chega inspirar algumas experiências comunitárias no século XIX.
Durante os sete anos em que escreveu "Imaginação", falou com muitos especialistas, esteve em diversas bibliotecas, analisou documentos com séculos de história. Como é que foi essa experiência? De que forma foi progredindo o livro?
Fui compilando em livros de capa preta, que é como gosto de trabalhar. Algumas de várias dezenas, de milhares e milhares de páginas de notas variadas, e depois fui escrevendo, em alguns casos, por uma ordem completamente diferente da que aparece nos livros. Há esboços de capítulos que foram escritos 12 vezes [risos]. Por exemplo, comecei a escrever alguns capítulos que estão agora no segundo volume e não o primeiro. E ia compilando informações, conversando com muita gente, aliás, a sua lista de agradecimentos está no livro.
Um dos imaginários mais poderosos da humanidade, da história da humanidade, são as religiões. O que é natural, dos primeiros imaginários, é dar um nome ao desconhecido, aos poderes desconhecidos. E eu conhecia pouco, hoje conheço um pouco mais, mas não sou um especialista nem na história do cristianismo, nem da cultura hebraica que o precede, nem do islamismo, e, portanto, tenho de me basear muito em imensas leituras e em muitas conversas com muitas pessoas diferentes. E visitei bibliotecas. Aliás, estive na Biblioteca do Vaticano, que é uma joia da arquitetura e de uma maravilha, de um ponto de vista simbólico. Estive em muitas outras bibliotecas e beneficiei de uma coisa que há 20 anos não teria: algumas das grandes bibliotecas mundiais já digitalizam muitos livros. Ou seja, se preciso ler um livro de Molière ou um livro de Descartes e ver as edições do século XVIII, ele está digitalizado na Biblioteca Nacional Francesa. Ou seja, houve muitas bibliotecas e muitos livros, digamos, centenas de livros que pude ler online. E que são livros raros, não é? Nem era muito fácil encontrar numa biblioteca. Em alguns casos, só em bibliotecas muito especializadas. E isso é um grande serviço à cultura, devo dizer.
Como foi essa visita à Biblioteca do Vaticano?
Na Biblioteca do Vaticano, o diretor, que é o nosso cardeal Tolentino de Mendonça, mostrou-me cartas do Galileu ao Papa. Quando o Galileu registava manchas solares. Olhar para aquele papel que ele teve na mão, aquele papel que tem 500 anos...
Chega a ser emocionante...
É emocionante. É fantástico.
Portanto, além da sua biblioteca pessoal e do conhecimento que já tinha consultou muitos livros digitalizados de várias bibliotecas espalhadas pelo mundo...
Sim, pude ler muito na base da biblioteca pessoal, de muitos livros que adquiri, de muitas notas que tomei. E, sobretudo, de muitas bibliotecas digitais. E há muitas, em universidades, Congresso Americano, Museu Britânico. Muitas universidades norte-americanas, europeias. Muitos acessos. Não tive, em geral, dificuldades. A não ser, num ou noutro caso, onde só havia textos originais em latim ou grego. E eu não sei nem latim nem grego. Tinha de pedir ajuda a colegas. Há, por exemplo, uma expressão muito artificiosa de Tomás de Aquino, sobre os pecados veniais. Nesse caso tive de pedir ajuda a um especialista em latim. O Frederico Lourenço traduziu a Bíblia a partir da versão grega. Não sei grego, portanto, baseei-me muito nas traduções dele, que dizem que são excelentes. E eu acredito. Têm notas formidáveis. E ele é um grande classicista. Enfim, com todos esses recursos, pude fazer este trabalho.
As utopias esgotaram-se. Em grande medida, esgotaram-se (...) A sobrevivência da utopia como escrita sobre a bondade humana foi muito atropelada pela realidade da luta, das guerras, da política
E qual foi a descoberta que mais o surpreendeu durante estes sete anos?
Houve muitas coisas. Muitas viagens que não conhecia. Conhecia Marco Polo, mas não conhecia o Ibn Battuta, que é um pouco posterior e que viajou praticamente o dobro da distância de Marco Polo. E também escreveu, como eu, sobre o Marco Polo no final do século XIII. E, portanto, ver estas descrições de alguém que chega a uma civilização diferente, que conta os hábitos, as roupas, os alimentos, que consegue ir traduzindo a língua, enfim, tudo isso era novidade para mim. Quando escrevi sobre os amores, dediquei um capítulo à correspondência entre amantes. Há muitas, eu tratei de algumas, poucas. Do tempo em que ainda havia cartas [risos]. Há um espólio cultural extraordinário.
Que se vai perder, infelizmente...
Sim, que vai deixar de existir. No século XXI, com o envio de SMS, vamos perder isso, vai ser uma tristeza [risos]. Mas há coisas maravilhosas. O Cântico dos Cânticos, o último livro da Bíblia Hebraica, que é uma carta de amor. E outras. Algumas são muito conhecidas, outras não. Por exemplo, as cartas da Simone de Beauvoir ao seu amante americano, Nelson Algren. As cartas entre Anaïs Nin e Henri Miller. Tudo isso é muito conhecido. As cartas da Virginia Woolf à sua amante, Rita Sackville West. Foram publicadas nos diários, nos livros. Tudo isso é um material que eu discorri. Mas encontrei algumas que não tinham sido ainda divulgadas, embora fossem durante o período em que eu estive a trabalhar. Por exemplo, as cartas de James Joyce à sua mulher. Porque a família, os filhos, não tinha autorizado que fossem publicadas. E depois mudaram de posição e as cartas foram publicadas. E são cartas eróticas e densas, com um perfil literário interessante e sobretudo uma descrição de um enamoramento que é fascinante. Ou seja, toda esta pesquisa permitiu-me encontrar coisas que não conhecia. Imensas coisas que não conhecia.
Se acho que o imaginário religioso é dos primeiros porventura na história dos seres humanos, tenho a certeza de que a fome é das primeiras realidades da vida de grande parte da humanidade que nos precede
Neste volume de "Imaginação" diz que o imaginário da utopia requer "consistência". Numa altura em que as utopias parecem ter sido substituídas por distopias, como é que encontra essa consistência? Como é que a reconstruímos?
As utopias esgotaram-se. Em grande medida, esgotaram-se. Então, é mais uma reconstrução. A minha tese, como defendo no livro, é que, digamos, as utopias do género literário do século XVI, com o Thomas More, foi desde o princípio muito posta em causa. Aliás, pouco tempo depois, há textos que nós hoje tratamos como literatura da aventura juvenil, mas que, na verdade, foram escritos e publicados com a intenção de atacar a ideia utópica, que é o "Robinson Crusoe" e as "As Viagens de Gulliver". Nós tratamos como texto de divertimento que, na verdade, são letras de utopias escritas contra Thomas More. E, portanto, essa polémica existiu sempre. Ao chegar ao século XIX, quando as utopias se começam a transformar em comunidades pela inspiração do Euler ou do Cabet, ou, sobretudo, do Fourier, são desastres. Elas fracassam. Os revolucionários da comuna de Paris não se consideram utópicos. Os revolucionários russos de 1917 consideram têm algum desprezo pela ideia da utopia. Nem todos, mas, em geral, têm. Definem a utopia como uma coisa impraticável. E, na verdade, na literatura, na passagem do século XIX ao século XX e, sobretudo, no século XX, o que há é distopia. A distopia é que é poderosa. O "Admirável Mundo Novo", a ficção científica, que é essencialmente distópica, fala, sobretudo, de mundos apocalípticos.
Portanto, a sobrevivência da utopia como escrita sobre a bondade humana foi muito atropelada pela realidade da luta, das guerras, da política. E, portanto, perdeu consistência. Em alguns casos, sobrevive. Há alguns laivos utópicos. Ursula K. Le Guin, Kim Stanley Robinson ou mesmo a Margaret Atwood, que é muito famosa por causa de "A História de Uma Serva", tem livros em que há vislumbres utópicos dentro das distopias. Há casos de amor que sobrevivem ao autoritarismo. Portanto, digamos, há reconstruções de bondades por interpretação emancipatória que aparecem nesses contextos. Mas o mundo de hoje é marcado por um mundo distópico.
A lentidão é a afirmação do primado da consciência, da atitude antinarcísica, a atitude de procurar comunidades, encontros, linguagens
A certa altura, defende "a lentidão num tempo de precipitação". O que quer dizer com isto? Onde é que quer chegar?
A última parte é sobre a vida quotidiana. Eu exploro vários aspetos. Se acho que o imaginário religioso é dos primeiros porventura na história dos seres humanos, tenho a certeza de que a fome é das primeiras realidades da vida de grande parte da humanidade que nos precede. Portanto, há a procura do alimento, há abundância, e o livro trata para isso. Agora, há um capítulo em que trata das formas de comunicação. Da avalanche de informação, da intoxicação da informação, da transformação dos modos de nos vermos como sociedade a partir, sobretudo, das redes sociais e do poder algorítmico. E isso é um mundo de precipitação porque é um mundo de comunicação em que é como se tudo recomeçasse no dia seguinte, como se qualquer informação recomeçasse no dia seguinte, como se tudo partisse do zero, como se nunca houvesse uma memória, como se nunca houvesse uma continuidade. Isso é precipitação, e é um tempo acelerado. E eu creio que, para a democracia e para as formas de comunicação, a lentidão é a afirmação do primado da consciência, da atitude antinarcísica, a atitude de procurar comunidades, encontros, linguagens. Enfim, o que o desenvolvimento da acumulação cultural nos fez, e que não pode ser destroçada por um algoritmo.
A linguagem é infinita. Nós podemos sempre escrever um romance novo. A Inteligência Artificial também pode, mas só pode imitar. Com muita capacidade, mas só pode imitar
A Inteligência Artificial (IA) promete substituir algumas tarefas também neste âmbito. Na criação artística, no pensamento abstrato. Acha que corremos o risco de delegar até a nossa imaginação às máquinas?
Trato muito pouco a Inteligência Artificial. Sou prudente, leio com atenção. O meu ponto de partida é que a inteligência artificial não imagina. Não cria imaginação. Associa memórias, registos, que no nosso caso são memórias, mas nós que precisamos das memórias para imaginar, também imaginamos algumas coisas que não existem. Concebemos relações amorosas ou objetos culturais ou narrativas que não existem e queremos que existam. Portanto, são atos de vontade e de criação e isso acho que é a humanidade. Não acho que a Inteligência Artificial o faça. Por isso acho que essa é a diferença.
O António Damásio discute isto no último livro dele: a inteligência natural e a inteligência artificial. A inteligência natural é esta forma de conceber para além do existente que nos permitiu inventar a escrita e comunicá-la. Uma criança que estivesse sozinha nunca falaria, mas fala porque tem a capacidade cerebral e anatómica que permite ir aprendendo essa capacidade. Isso é a acumulação cultural. É o que nós fazemos. Por isso mesmo a linguagem é infinita. Nós podemos sempre escrever um romance novo. A Inteligência Artificial também pode, mas só pode imitar. Com muita capacidade, mas só pode imitar.
Nos últimos anos, a vida quotidiana mudou radicalmente. Além das muitas horas de trabalho, o tempo é passado muitas vezes atrás de um computador, de um telemóvel, nas redes sociais. Como é que o afastamento do espaço público e dos momentos coletivos, dos momentos em comunidade, enfraquecem a democracia?
Sim. Acho que sim, acho que é um perigo. Li agora que, no Brasil, a média de tempo das pessoas - e é a média nacionalmente, de pobres e ricos, de toda a gente - nas redes sociais e no mundo digital é de nove horas por dia. Isto é uma prisão. É um sistema de narco-satisfação. É uma intoxicação alienante, é um narcisismo líquido, é a expressão que uso no livro, é compensatória, mas é enganadora porque cria uma sociedade de gente separada. Isto enfraquece muito a democracia e, aliás, prova que são esses mecanismos da alta intensidade intoxicante que são mais vulneráveis à mentira e ao ódio, e à violência e à destruição.
Acha que isso tem contribuíndo para o aumento da extrema-direita, para empolar medos, mitos e até saudosismos? E levado, por sua vez, a Esquerda a perder militantes, a perder a capacidade de encantar os eleitores e fazer sonhar?
Não trato esse tema no livro. Porque acho que isso o levaria para uma análise das circunstâncias no tempo político de hoje. Não é o que pretendo fazer. Percebo que a associação surja, mas não é o que pretendo fazer. Embora sei que há esse risco de desencantamento do mundo e da perda de capacidade de criação de imaginários poderosos, mas isso em grande medida é uma escolha. São responsabilidades nossas. Nós já tivemos o fascismo. Já tivemos a escravatura e ela acabou. Já houve a tortura generalizada e hoje, enfim, é ilegal. Já se ostentou que a mulher não podia votar e agora essa simples ideia parece grotesca. Portanto, há mudanças que vão ocorrendo ao longo do tempo e cuja naturalização é disputada sempre. O mundo tem sempre esses avanços e recursos.
De regresso ao livro - e para terminar-, apesar da imensa erudição demonstrada, declara-se aprendiz e demonstra esperança. Não esperança no sentido ingénuo mas como uma decisão quase política, uma vontade humana. Que motivos encontra em Portugal e no mundo de hoje para ter esperança?
A realidade da vida, o ser humano constituiu uma capacidade extraordinária de sociabilidade. Nós não existíamos sempre sem comunidade. Nós transformámos a plasticidade do nosso cérebro através de uma linguagem que inventámos. É, portanto, um resultado evolutivo maravilhoso. A Irene Valero, uma grande escritora espanhola, dizia que 'nós somos os únicos que articulam o poder contando histórias a nós próprios'. Nós contamos histórias, inventamos histórias, criamos narrativas, criamos ligações, criamos empatia e simpatia. E, portanto, a possibilidade humana está inscrita no que nos trouxe a este processo de acumulação cultural. Outros animais imitem sons. Outros animais têm formas de imaginação, formas preliminares de imaginação, mas não houve nenhum que se constituísse uma comunidade como nós.
Portanto, a nossa força é essa. Isso pode significar o bem e o mal, pode significar a bondade, pode significar os campos de concentração. Tudo isso é realidade humana, mas a escolha é nossa. A decisão de como somos e o que vivemos é nossa e, portanto, acho que o sentido da esperança mais radical é esse. Nós temos uma capacidade infinita de organização social e de comunidade. E, portanto, temos essa escolha. Podemos escolher sim ou não.
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