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"O pecado está no pudor. O que categoriza a mulher é se merece ser morta"

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Minuto Fonte Externa
28 de outubro de 2026 • 32 min de leitura
"O pecado está no pudor. O que categoriza a mulher é se merece ser morta"

No dia 22 de maio de 2020, a família de Paula Lebre sofreu "uma amputação". Beatriz Lebre, que estava a meras semanas de celebrar 23 anos, foi assassinada por um colega de faculdade que, como tantos outros homens, não soube ouvir um "não". Aliás, o próprio homicida – que, já detido, colocou termo à própria vida – confessou à Polícia Judiciária (PJ) que Beatriz foi "a única mulher que não [conseguiu] dominar".

 

Naquele ano, 35 mulheres morreram em contexto de violência doméstica em Portugal, 19 das quais vítimas de femicídio. Uma delas foi Beatriz. Mas, desde então, o flagelo persiste: em 2025, 26 mulheres foram assassinadas, sendo que 22 dos homicídios foram considerados femicídios. Só este ano, pelo menos 16 mulheres foram mortas pelos atuais ou ex-companheiros.

Para retirar a filha "da vala comum das mulheres assassinadas", refletir sobre a exposição abusiva de que foi alvo e, sobretudo, prolongar-lhe a vida, Paula Lebre socorreu-se da escrita. "Beatriz – Uma Melodia Interrompida" é o resultado das "leituras obsessivas" de uma "mãe órfã de filha" que, munida com "uma dolorosa coragem e lucidez", procurou "compreender a sociedade e o que aconteceu", para que mais ninguém tenha de passar pelo mesmo.

Numa conversa com o Notícias ao Minuto, em que as memórias de Beatriz foram destaque, Paula Lebre assinalou que, "numa mulher, o pecado tem de ser sempre na vida íntima, no pudor. [...] O que categoriza a mulher é isso, se merece ser morta ou não". Importa, assim, questionar "como é que uma sociedade desenvolveu um jovem que foi capaz de praticar aquele ato" e estancar a hemorragia.

A vida de uma mulher vale menos do que a vida de um homem. Aliás, vale menos do que a honra de um homem. Nem se comparam as vidas. Compara-se a vida com a honra da autoridade. Portanto, há até um desnível no que se está a comparar. Com a mulher, comparamos uma vida com o nível de poder que um homem tem; não é vida com vida. Comparar vida com vida já seria uma coisa absurda, quanto mais comparar uma vida com o nível de poder de uma hierarquia. Temos de desconstruir isso tudo

O seu livro foi descrito como uma "tentativa de uma mãe prolongar a vida da filha através da sua história, da música, dos livros e das memórias". Essencialmente, pretendia eternizar a Beatriz e impedir que caísse no esquecimento? Afinal, dizem que só morremos quando a última pessoa que nos conhecia também morre.

Como diz Héctor Abad Faciolince, nós somos o esquecimento que seremos, não é? Ou seja, quando nos esquecerem, deixaremos de ser. Há essa motivação, mas não é apenas essa. Essa é pessoal, mas a motivação para ter coragem de me expor foi, sobretudo, os números da violência contra as mulheres e do femicídio. Os números são gritantes, mas ninguém ouve, porque são números, são impessoais. Ninguém toma atenção, ninguém valoriza. Impressiona-nos um bocadinho, mas pronto, esquece-se logo a seguir. Quando criamos histórias com essas desgraças, a ligação humana é diferente. Os afetos é que nos ligam e, havendo uma história, o afeto dá atenção aos números. Tenho este objetivo social de mostrar que os números representam pessoas. Não é só um número, não são 22 pessoas, não são 22 mulheres que morrem. São 22 vidas e as pessoas que estão à volta dessa vida. Essas vidas fazem falta a outras vidas.

É muito fácil esquecermos-nos de que não são só 22 pessoas, são 22 vidas com famílias, com amigos, com entes queridos que sentem a sua falta. Bastava ser uma, até.

Quando se diz que em 2025 morreram 22 mulheres, parece que está bem. Diz-se, "ah, credo", mas pronto, passou. Mas não – não são 22 mulheres que isso tem de representar. São 22 vidas, mais as colaterais, além do património humano, que somos todos nós.

Arranca a obra dizendo que "não é sobre a morte da Beatriz". Sente que, enquanto sociedade, ainda não interiorizámos que falar sobre a morte é falar sobre a vida de quem perdemos, e que não é necessariamente uma coisa mórbida? 

Claro, claro. O que quero dizer aí é que não fiz o livro para escalar o ato de ela ter morrido como mulher. O que me interessa é ligar o nome da Beatriz a uma vida, e é a vida que é importante. Claro que a morte tornou-se importante, porque este tipo de morte tem de deixar de existir, mas a morte é inevitável para todos nós. Não é a morte que interessa aqui. Aqui o que interessa é uma vida e o que levou àquela morte. Ela poderia ter morrido de outra forma, como todos nós; uma morte mais anónima, mais natural, nas circunstâncias da vida. Mas, esta morte, além de ter esse significado, também representa uma vida que foi deteriorada, danificada, ou um património social, os valores que a representam. São valores que desenvolvemos ao longo da humanidade e parece que deixaram de ter valor, não é? Portanto, tudo isso carece de ser refletido.

Neste caso em concreto, também tem muito que ver com a sociedade patriarcal em que vivemos. 

Exato. A vida de uma mulher vale menos do que a vida de um homem. Aliás, vale menos do que a honra de um homem. Nem se comparam as vidas. Compara-se a vida com a honra da autoridade. Portanto, há até um desnível no que se está a comparar. Com a mulher, comparamos uma vida com o nível de poder que um homem tem; não é vida com vida. Comparar vida com vida já seria uma coisa absurda, quanto mais comparar uma vida com o nível de poder de uma hierarquia. Temos de desconstruir isso tudo, essa perspetiva de vida e a estrutura patriarcal, que reconhecemos que, historicamente, nos foi imposta. Só temos é de desconstruí-la. Não estamos a atacar ninguém, nem os homens. Estamos a querer desconstruir e a atacar uma estrutura, uma estrutura de pensamento e de construção social, que gera a hierarquia.

Capa de "Beatriz – Uma Melodia Interrompida"© Penguin Random House Portugal  

Costumam dizer que o maior medo dos homens é serem rejeitados por uma mulher, enquanto o maior medo das mulheres é serem mortas por um homem.

Já aí se compara. Quando me dizem, "ah, mas há mulheres que também matam". Quer dizer, isso é uma dissonância de pensamento e uma falsa simetria, comparar coisas que não têm nada a ver. Estamos a falar de uma estrutura, não estamos a falar de uma pessoa. Quando menciono o Rúben no livro, não é o Rúben. Questiono como é que uma sociedade desenvolveu um jovem que foi capaz de praticar aquele ato. Não é o Rúben; fosse o Rúben, fosse o João. Temos de questionar como é que aquilo foi possível e como é que ninguém podia prever aquele comportamento, nem o mais maquiavélico homem, só ele próprio. Portanto, temos de ser humildes perante a complexidade humana, porque não há certezas absolutas, não há verdades absolutas. A complexidade é tanta que tem de ser compreendida e gerida, mas com bom senso, com a maior lucidez possível. A única verdade absoluta que tenho é que uma vida vale sempre e nunca pode ser extinta por vontade de outra vida. É a única certeza absoluta que tenho. Sobre tudo o resto tenho dúvidas, reflito, não tenho certezas absolutas.

A propósito da lucidez, revelou que a escrita exigiu de si "uma dolorosa coragem e lucidez". Como é que lidou com esse processo?

Em todo o processo de busca de respostas, nada me satisfez, não tive respostas nenhumas. Não tenho respostas absolutas, não tenho resposta para nada. Abriu-me os horizontes do pensamento, os diversos caminhos de pensamento que posso seguir, mas sem certezas. A única certeza que tenho, como disse, é que nenhuma vida vale mais do que outra e nenhuma pode ser extinta por outra. Por isso é que José Saramago diz que a lucidez dói. E dói em dois sentidos: pelo esforço de encontrarmos a lucidez, e porque quanto mais noção tivermos da realidade, mais ela nos dói, porque é dura. Encontrá-la é difícil mas, depois, quando a encontramos, é dura. É uma realidade dura, difícil de gerir. O homem é cruel.

Fez-me lembrar a expressão "ignorance is bliss" [a ignorância é uma bênção].

A ignorância simplifica, mas também limita a nossa vida. Uma pessoa culta não é quem sabe mais, no meu ponto de vista. Para mim, uma pessoa culta é aquela que evolui todos os dias, que tenta melhorar todos os dias. O problema não está na ignorância, está em nos acomodarmos a ela. É impossível sabermos tudo. Uma pessoa culta tenta melhorar e diminuir a sua ignorância.

Escreveu que "no luto por uma filha ou um filho tudo é permitido e aceite como normal, porque nada é normal". Como é que se vive quando se é "órfã de filha" e se tem de lidar com o luto das outras pessoas que lhe eram próximas, em concreto o pai e o irmão?

O luto familiar é duro, porque é uma amputação. Temos outra organização, temos de ter outra capacidade de nos encararmos uns aos outros. Tudo quanto vemos no outro, falta qualquer coisa. Estamos todos amputados. Estamos amputados em conjunto e estamos cada um com a sua amputação. O luto familiar não é um luto em conjunto, é um luto individual no mesmo local, em que só nos amparamos com olhares, com o cuidado de não ferir, de proporcionar o maior conforto possível. Não é estarmos os três ali a chorar, nem nunca aconteceu isso. É um silêncio que parece que nos conforta, mas que incomoda, porque parece que é um peso. Ao mesmo tempo, parece que, se violarmos o silêncio, partimos qualquer coisa que se desmorona. Não sabemos como nos comportar. Eu não sabia como me comportar perante o meu filho. Se falo, vou agredi-lo, se não falo, vou agredi-lo... É muito difícil. É preciso muito estudo, muita humildade e pensarmos que não somos os únicos a sofrer.

De certa forma, sinto que o luto acaba por nos tornar mais egoístas, porque obriga-nos a olhar para dentro. Estamos tão em carne viva que acabamos por nos esquecer de que a outra pessoa também está a sofrer.

Todos temos momentos de direito ao egoísmo. Às vezes, também sinto que estou sozinha e que tudo à minha volta está a mais. Sinto-me abandonada, sem estar. Portanto, é muito difícil. Todos temos direito a ser um bocadinho egoístas em certos períodos, e temos de ter esses momentos só para nós, em que estamos a pensar só na nossa dor. Mas não devemos canalizar que somos os únicos a sofrer. Temos também de ser generosos, até mesmo por nós. Se só tivermos esse comportamento egoísta, e se só nos focarmos nisso, é autodestrutivo, porque deixamos de estar compatíveis e aptos para a vida. Para estarmos aptos para a vida, não podemos ser egoístas, afundarmo-nos na nossa dor. A vida é muito mais do que a nossa dor, embora a nossa dor faça parte da vida. É a tal coragem e lucidez.

Ela era muito responsável. Esforçava-se muito para corresponder às expectativas que colocavam nela. Tinha a preocupação de não desiludir os professores, os pais. No entanto, gozava de todas as oportunidades que tivesse para gozar, com leveza. Brincava com todas essas preocupações. Portanto, ela estava focada, mas sem drama. O drama dela era se algum amigo estivesse a sofrer, se estivesse doente; pensava que logo ia morrer. Ela era muito hipocondríaca, dramatizava logo uma dorzinha

De que forma é que, em família e individualmente, continuam a manter a Beatriz viva? Têm tradições ou rituais? Assim de repente, lembro-me de ler que o pai da Beatriz costuma acender incenso no dia 22, não é?

É hoje.

É hoje, exatamente. 

Foi hoje de manhã, já. Não dá para esquecer. Não fazemos um ritual rígido, mas é uma inspiração. Temos um comportamento inspirado nela. Ouço músicas e vejo os vídeos dela todos os dias, é claro, mas, neste dia, folheio cadernos da música dela, partituras… Dedico-me mais um bocadinho a essa busca; estou sempre na expectativa de encontrar uma coisa nova, qualquer coisa que ainda não vi. O pai, como ela gostava de incensos, de fazer meditação, acende-os pela casa. Acende uma luz no retrato dela, para não ser uma vela, para não haver nenhum azar com os cães. Mas é só por simbolismo, não somos religiosos. É para sentimos que hoje é dela. Fazemos ovos estrelados com salsichas e puré de batata.

Ela gostava muito desse prato?

Sim. Como não gostava de cebola, e era tudo com refogado, quando comíamos salsichas com ovos estrelados e puré de batata, era o encantamento. Então, no dia 22, comemos salsichas, puré de batata e ovos estrelados. Comemos gomas. Temos a nossa brincadeira. Mas eu gosto, porque para ela era tudo brincadeira.

Pelos episódios que contou, a Beatriz parece, de facto, ter sido uma jovem inteligente, cheia de luz e com toda a vida pela frente. Entre todas as descrições, há alguma que considere que resuma bem o carácter e a postura da Beatriz para com a vida?

Ela era muito responsável. Esforçava-se muito para corresponder às expectativas que colocavam nela. Tinha a preocupação de não desiludir os professores, os pais. No entanto, gozava de todas as oportunidades que tivesse para gozar, com leveza. Brincava com todas essas preocupações. Portanto, ela estava focada, mas sem drama. O drama dela era se algum amigo estivesse a sofrer, se estivesse doente; pensava que logo ia morrer. Ela era muito hipocondríaca, dramatizava logo uma dorzinha. Contudo, era tudo com uma grande leveza, porque a vida, para ela, era para desfrutar.

Por exemplo, ela sacrificou-se muito pelo piano, porque exige muito estudo, muita disciplina, e ela tinha uma disciplina indisciplinada. Estudava todos os dias, durante horas. Às vezes, irritava-se quando não conseguia fazer certos exercícios, porque tinha a mão pequena e tinha de se adaptar às peças. Irritava-se, ficava ali a martelar. Mas, depois, gozava com ela própria. Era muito, muito generosa com ela própria, e com os outros também. Adorava a vida, adorava a sensualidade, sem tabu. Não era púdica. Quando estava com o período, toda a gente sabia, porque ficava mal-humorada, e dizia logo aos amigos, "olha, hoje não digas nada, que estou com o período". Era solta.

Referiu que a Beatriz era hipocondríaca. Também tinha medo do escuro e da morte, sobre a qual pensava com frequência. Aliás, a Paula até questionou como é que isto pôde acontecer a "uma rapariga com uma vida tão serena e isenta de perigos". O problema está intrínseco na nossa sociedade? Podemos ter todas as precauções e mais algumas, mas não sabemos o que é que nos pode acontecer.

Sim, sim, sim. Falava muito da morte. É verdade. E como é que conseguimos o equilíbrio entre a prudência e a liberdade? Sermos prudentes, pela segurança, mas termos a liberdade para desfrutar? É muito difícil porque, se estivermos sempre a desconfiar dos outros, não conseguimos desfrutar em pleno. Mas confiar sem ter prudência também tem os seus riscos. Aprendemos isso com muita vivência e maturidade, que ela com 22 anos ainda não tinha, e teve um azar. Foi uma questão de azar aquela pessoa cruzar-se na vida dela, porque nada fazia prever. Conheço quase toda a gente que participou na vida dela e são pessoas maravilhosas como ela. Mas aquela pessoa… É aquela coisa, sítio errado, lugar errado, pessoa errada. Foi assim. Não há explicação. É o tal absurdo, o acaso que a vida também tem.

Faço questão de ser superior à tragédia. Uso a minha arrogância para me sentir superior à tragédia, para não me sucumbir. Pode ser considerada arrogância, mas é uma defesa para enfrentar a vida. Isso ajuda. Fizeram-me ataques piores, que até tive vergonha de pôr no livro

Também mencionou o concerto em que Nick Cave dedicou "Into my Arms" à Beatriz, depois de lhe ter enviado uma carta. Como é que foi essa experiência? Alguma vez esperou que a carta chegasse sequer até ele?

Não foi uma carta. Ele tem uma plataforma onde os fãs podem entrar em contacto, o "The Red Hand Files". Tenho 60 anos, mas tenho a mania que sou nova. Como convivia com os meus filhos e partilhava as vidas deles, dos prazeres, a vida juvenil parece que ainda está em mim. Não tenho comportamento de senhora e tenho hábitos iguais aos meus filhos. Frequento os mesmos prazeres, os mesmos interesses. Sabia da existência do "The Red Hand Files" mas, se não fossem os meus filhos, não conheceria aquela plataforma. Então, já que íamos ao concerto com os amigos – eu vou porque os amigos vão, os amigos vão e levam a Beatriz em mim – lembrei-me de lhe pedir para incluir a música na setlist, não era mais do que isso. Justifiquei e ele fez mais do que isso. Estou-lhe muito grata, porque aquele foi um momento divino, solene, maravilhoso. Não sou muito crente nas coisas... Agora, sou menos cética. Não posso dizer que sou crente, mas há coisas que realmente são mesmo divinas. Temos de ver como divino, para darmos valor àquilo para sempre, eternamente.

E também para acreditarmos que estão bem, que estão a olhar por nós, o que seja. Que continuam por aí.

Não sei, mas que eu a sinto em mim... Juro. Não sei se ela existe, noutra vida, não faço ideia. Ouço o Luís Portela, adoro, quero acreditar naquilo, quero que seja verdade, desejo muito que seja mesmo assim, mas não sei se é. Se for, ainda bem. Se não for, não interessa. Que sinto a Beatriz em mim, sinto. Muitas vezes, parece que estou a fazer coisas como fosse ela, espontaneamente.

Dizem que os átomos não desaparecem, não se destroem. Portanto, nós estamos aqui, a Beatriz está aqui...

Pois, não sei. Tenho comportamentos que, depois de os praticar, penso que parecia ela. E não os faço com consciência. Na escrita, aconteceu muito, porque houve partes em que a mão não parava. A mão seguia e não sei justificar o que é que foi. Há outras partes que sim, foi consciente, foi preparado. Compilei resumos que tinha já feito das minhas leituras obsessivas, para compreender a sociedade e o que aconteceu. Mas, muitas vezes, não sei explicar. A escrita fluía. Nunca tive inspirações para criar nada, nunca fui artista, não tive talento para nada, mas foi saboroso. Foram bocadinhos saborosos.

E continua a escrever? 

Sim, mas em consciência. Por exemplo, eu era muito pouco de poesia. Era mais de prosa, literatura de romances e artigos jornalísticos, muita sociologia. Poesia lia muito pouco. Não comprava livros de poesia, mas a Beatriz levava-os para casa. Eu lia poesia daqueles livros obrigatórios da escola, que estavam em casa, ou porque me aparecia na Internet ou na televisão. Consumia programas de poesia, mas não era consumidora de livros de poesia. Agora, passei a comprar, porque descobri a poesia. Eu não entendia, havia poesia que não entendia.

O que é que a maioria das pessoas espera de alguém na minha condição? Por um lado, espera que esteja a sofrer uma depressão profunda. Depois, quando uma pessoa está numa depressão profunda e deixa de estar apta para a vida, vem o contrário. "Ah, reage. Não estejas assim. A vida continua." Quer dizer, primeiro esperam que a pessoa desfaleça e, depois, tentam animar, com toda a sua sabedoria de vida, como se conseguissem colocar-se no lugar do outro

Pouco depois do crime, alguém questionou-a: "Então, a tua filha morreu e vens ao teatro?" Como é que se mantém a compostura perante um comentário destes?

Percebo que é desconcertante todo o meu comportamento de luto. A maioria das pessoas tem-me aceitado e, se fazem julgamentos, não me dizem. Mas percebo que há a tendência de julgar antes de compreender; sei que isso é um impulso da maioria dos seres humanos, que têm necessidade de julgar para se sentirem, não sei, superiores ou com mais moralidade. No entanto, eu faço questão de ser superior à tragédia. Uso a minha arrogância para me sentir superior à tragédia, para não me sucumbir. Pode ser considerada arrogância, mas é uma defesa para enfrentar a vida. Isso ajuda. Fizeram-me ataques piores, que até tive vergonha de pôr no livro. Encaro isso como parte da tragédia, e eu sou superior. Portanto, não me atingem, desvalorizo, ignoro completamente e só incluí no livro para desconstruir estas ideias. Não estava no manuscrito e, quando contei este episódio a uma das editoras que me estava a acompanhar, ela é que disse que tinha de estar no livro, porque é importante. Depois, percebi que sim, que era importante.

A sociedade espera que os enlutados regressem ao "normal" – que já não existe – ao fim de um mês ou dois. Portanto, fazer um comentário deste tipo acaba por ser contraditório, não é? 

Mas o que é que a maioria das pessoas espera de alguém na minha condição? Por um lado, espera que esteja a sofrer uma depressão profunda. Depois, quando uma pessoa está numa depressão profunda e deixa de estar apta para a vida, vem o contrário. "Ah, reage. Não estejas assim. A vida continua." Quer dizer, primeiro esperam que a pessoa desfaleça e, depois, tentam animar, com toda a sua sabedoria de vida, como se conseguissem colocar-se no lugar do outro. Eu não correspondi à expectativa de sucumbir e, portanto, há ali qualquer desconcerto na expectativa das pessoas. Compreendo isso e faz parte da minha arrogância sobrepor-me à ignorância, ao ignorar esse julgamento. Não cedo a ele, não cedo. Continuo a rir, falo dela a rir, porque é espontâneo. Estou a sofrer, mas não estou em tristeza profunda, não estou infeliz. Tenho uma tristeza profunda, mas não estou nada infeliz. Tenho imensos prazeres na minha vida, gosto imenso de estar viva, gosto imenso de falar dela, faço-o por ela.

Recordou que, na primeira vez que conheceu o Rúben, sentiu algo de estranho nele. Os próprios amigos da Beatriz também não simpatizavam muito com ele. O que é que todos viram que a Beatriz não viu – ou viu, mas optou pela empatia?

Estavam a pensar em excluí-lo dos grupos. Só soube disto depois, na preparação para o julgamento, a juntar as mensagens, quando pensávamos que tínhamos de defendê-la. Ela é que evitou a exclusão e, pelo historial, percebe-se que era o comportamento normal dela. Ela não conseguia excluir ninguém.

E ele partilhou que estava com problemas, não é? Ela provavelmente quis ajudá-lo.

Ela partilhou comigo essa preocupação com ele. Ainda estávamos afastados; ela estava em Elvas e ele estava em Lisboa. Ela partilhou comigo a preocupação que tinha com aquele colega, porque não estava bem, porque já tinha ido duas vezes para o hospital e continuava com dores de cabeça. Ela perguntou-me, "mãe, será meningite?". Disse-lhe: "Não, filha, não penso que seja meningite, mas ele é que tem de ver com a mãe dele, com a namorada dele. Não é contigo." Mas ela...

Inicialmente, até nem foi a pensar nos pais. Depois, para justificar, pus-me no lugar deles, mas a minha primeira preocupação foi aniquilar ou interromper aquela cadeia de ódio e de satisfação pelo suicídio de alguém. Quando apareceu nos telejornais, fiquei espantada

Estava a ser amiga.

Estava a ser amiga. Teve um comportamento de amiga, nada de especial. Quando li o livro finalizado, pensei: "A minha filha teve o comportamento que todos nós devemos ter." Agora, relações amorosas? Quero lá saber das relações amorosas. Isso faz parte do íntimo. Temos as relações amorosas que quisermos ter, não é isso que está em causa. De ser humano para ser humano, ela teve sempre o comportamento que todos nós devemos ter. Mesmo as traquinices e as coisas estúpidas que fazemos, temos de fazê-las para aprender. Faz parte. Não é aos 60 que vou fazer as coisas estúpidas que devia ter feito aos 20. A lucidez dói, porque a injustiça fica mais flagrante.

As reações ao facto de ter mostrado compaixão para com a família do Rúben, quando se soube que ele tinha colocado termo à própria vida, deixou-a perplexa. Temos tendência a esquecermo-nos de que as famílias dos agressores não são responsáveis pelas suas ações e que também lidam com as consequências dos atos cometidos pelos seus entes queridos, não é?

São pessoas. Todas as vidas têm o mesmo valor e ninguém tem de tirar a vida a ninguém. Às vezes, tenho a arrogância e o desplante de pensar que a vida da minha filha talvez tivesse mais valor do que outras, mas não. No fundo, ela era uma vida boa, era um bom ser humano, mas não é isso que dita o valor da vida. O valor da vida não é mensurável. Portanto, a vida daquela família vale tanto quanto a minha. Não vale mais nem menos. O sofrimento deles tem o mesmo valor, merecem a mesma dignidade.

Também tem um pouco que ver com o que mencionou há bocado. As pessoas provavelmente esperavam uma determinada reação de si e, como teve uma atitude completamente oposta, acabou por deixá-las desconcertadas.

Fiquei perplexa, porque tive o comportamento normal de um ser humano. A minha intenção era acabar com aquela corrente de verbalização horrível de satisfação para com a morte, o suicídio. Inicialmente, até nem foi a pensar nos pais. Depois, para justificar, pus-me no lugar deles, mas a minha primeira preocupação foi aniquilar ou interromper aquela cadeia de ódio e de satisfação pelo suicídio de alguém. Quando apareceu nos telejornais, fiquei espantada. Não é estranho uma mensagem de condolências aparecer num telejornal, como se fosse uma coisa especial? É estranho.

Para ter a perspetiva de uma jornalista, tem que ver com o facto de ser a mãe de uma pessoa que foi vitimada pelo indivíduo que optou por colocar termo à própria vida.

Mas ter o Rúben morto ou vivo, o que é que a mim me aflige para a dor? Nada. Não altera a dor. Do mesmo modo, não é o livro que valida a minha dor, nem é para ser a coitadinha que é mãe da Beatriz. Espero que ninguém vá por aí. É para enfrentarmos o problema e fazermos com que isto não volte a acontecer. Todas as dores são válidas, mesmo que não estejam à vista. Repudio completamente este discurso de ódio, de satisfação e de vingança. Não me sinto digna. A minha filha também não se sentiria digna, nem o sacrifício dela seria mais digno pela sensação de vingança, de raiva e de ódio, dente por dente, da justiça de Julião. Não é assim. O mundo segue esse caminho, os nossos líderes diabólicos e grotescos seguem esse caminho, mas à nossa escala podemos fazer a diferença.

O Rúben fez questão de se manter perto de vocês e da investigação, sob a fachada de amigo preocupado. O que é que lhe passou pela cabeça quando soube que ele era o responsável pela morte da Beatriz, ainda para mais por ter sido "a única mulher que não [conseguiu] dominar"?

É verdade. Não sei o que é que senti. Acho que não se sente nada, porque o espanto e a perplexidade são muito superiores a qualquer coisa. Ficamos atónitos, paralisados, não conseguimos raciocinar uma coisa que é totalmente absurda. Só depois é que dá para digerir, com tempo. Foi ao escrever o livro que me fui lembrando de coisas já esquecidas. Quando se está a viver, não temos noção do tempo. Não tinha noção de que tinha passado um dia, dois dias, uma semana. Estava a viver noutro espaço, noutra dimensão. O tempo de espera pelo corpo dela foi infinito; já não me lembro se foi dias, se foi semanas, se foi meses. Ao escrever o livro, fui obrigada a procurar essas datas, e foi pela comunicação social que as recolhi, porque não tinha apontado nada.

Escreveu que não teve oportunidade de ver o corpo da Beatriz. Isso afetou o seu luto de alguma forma? 

Sim. Não ter abraçado o cadáver, dado carinho… Isso ainda me está aqui atravessado. É do que ainda me custa mais falar, até mais do que da tragédia. Da tragédia em si consigo falar, porque é um acontecimento de frenesim. Mas isso é tão interior... É horrível não a ter abraçado antes de ir. Supostamente, ninguém se lembraria disso, não é? Como é que o mais importante era abraçar a filha cadáver? Mas é. É o que ainda mais me custa lembrar: essa falha, essa ausência de não a ter abraçado.

Mas deveu-se às restrições da pandemia ou foi por causa do estado do corpo? 

Pois. Acho que se não fossem as restrições da pandemia eu ainda forçava. Insistia, no estado em que estivesse. Mas, com as condições da pandemia, era tudo proibido, e tirou-me a coragem de insistir.

Ao longo do livro, manifestou as suas ponderações quanto ao que poderia ter feito de diferente para salvar a Beatriz. Queria salvá-la não só de forma literal, visto que esteve com ela uns dias antes do crime, mas também no sentido figurado, face à cobertura jornalística e aos julgamentos típicos de uma sociedade patriarcal que se seguiram?

Penso que isso deu-me o impulso para a tal arrogância de que falei há pouco. Pensei: "Não, tenho de ser superior a isto. Tenho de vencer esta tragédia de uma forma arrogante, porque isto não me vai derrubar, porque a Beatriz precisa ainda de defesa, ainda está a precisar de mim. Tem de ser, tenho de a defender." Ela foi atacada, eram ataques.

Numa mulher, o pecado tem de ser sempre na vida íntima, no pudor. O foco é esse, os outros não interessam. Os valores da pessoa não interessam. O comportamento dos outros não interessa. Interessa saber: Quantos amantes é que tinha? Tinha namorado? Tinha sexo? Era sossegadinha? Era atinadinha? Sexualmente. Isso é que interessa, numa mulher. O que categoriza a mulher é isso, se merece ser morta ou não

Ia perguntar precisamente isso, se sentiu que ela acabou por ser vitimada novamente.

Exatamente. Até dou o exemplo do "Mineirinho", da Clarice Lispector. A polícia brasileira matou um criminoso, o senhor já estava morto e continuavam a disparar. Quer dizer, o delito tinha sido praticado, já estava castigado, mas continuavam a dar tiros. Senti-me assim. Continuavam a atacar-me, a dar tiros à minha filha, depois de ela já estar morta.

A vida da sua filha foi vasculhada, não para ficarmos a saber que era uma jovem de 22 anos que não suportava deixar alguém de lado, que adorava Chico Buarque e que era alegre e festiva, mas para tentar encontrar uma justificação para ter sido assassinada por um colega que não aceitou ouvir um "não". Enquanto mãe, o que é que sentiu?

É impressionante. Numa mulher, o pecado tem de ser sempre na vida íntima, no pudor. O foco é esse, os outros não interessam. Os valores da pessoa não interessam. O comportamento dos outros não interessa. Interessa saber: Quantos amantes é que tinha? Tinha namorado? Tinha sexo? Era sossegadinha? Era atinadinha? Sexualmente. Isso é que interessa, numa mulher. O que categoriza a mulher é isso, se merece ser morta ou não, se tem razões para ser assassinada ou não. Agora pergunto: e se a Beatriz fosse uma prostituta? E se a Beatriz tivesse vários namorados? E se fosse uma libertina? Se tivesse uma vida de liberdade completa? Que tinha, porque era uma característica dela. Já merecia ser assassinada? Já estava justificado? Pergunto.

Há vários casos que comprovam que, para muitos, sim. São vítimas que são descartáveis. 

São descartáveis e ninguém fala porque, olha, pôs-se a jeito, tal e qual como alguém com responsabilidade disse na televisão.

Volvidos seis anos, o que é que sente ao pensar nisto tudo?

Não sinto nada de especial. Não tenho aquelas emoções destrutivas; pelo menos até agora. E sinto-me orgulhosa de mim. Tenho orgulho nela e tenho orgulho em mim. É de uma forma humilde que o digo. Não vou fingir. Com isto tudo, fiquei com coragem de não fingir; deixei de ter essa preocupação, de agradar. Tenho orgulho em mim e digo-o com muito gosto, porque dá-me a sensação de que estou a vencer, de que estou a sobreviver à morte dela e estou a fazê-la sobreviver.

Referiu que pretende "denunciar os tempos sombrios que vivemos neste presente de recuo civilizacional imposto por falsas e hipócritas doutrinas morais estereotipadas". Como é que encara o fenómeno das tradwives e da manosfera, que acabam por contribuir para a perpetuação da violência contra as mulheres?

Temos aqui um monstro. Estamos a lutar contra um monstro nas redes sociais, que dominam o circuito de comunicação dos mais vulneráveis. Os miúdos, agora, também estão baralhados. Ouvem conversas como a que estamos a ter e, logo a seguir, ouvem um discurso oposto. Com 12, 13, 14 anos ficam baralhados. Não têm ainda a formação completa para distinguir o que é o caminho certo, porque veem os dois caminhos. O que é que acho que tem de ser o pilar? A educação de quem está mais próximo, e de quem está próximo fisicamente. As escolas têm de estar educadas para fazer este trabalho e, muitas vezes, não estão. Os professores não sabem lidar com isto. Os pais muito menos; às vezes não sabem ou não têm tempo, mas a incompetência existe da nossa parte. Aprendi imenso agora, depois de me ter acontecido isto, porque também não estaria preparada. Todo o esclarecimento que tive deveu-se às leituras obsessivas que fiz para tentar compreender, mas foi depois de acontecer. Só alerto os pais para fazerem essa procura antes de acontecer, porque não estamos preparados.

A tendência contrária das tradwives e da manosfera… A crítica que posso fazer prende-se com o livre-arbítrio de cada um. Acho que as mulheres têm o livre-arbítrio de escolher a vida que querem ter – mas que não a imponham aos outros. Aí é que está a questão. Se optar por casar com um homem e ser dona de casa, abdicar do meu trabalho, dedicar-me aos filhos e ser feliz assim, tudo bem. Tenho esse direito. Não tenho direito é de obrigar outra pessoa a fazer o mesmo que eu. Tal como nós, que somos mulheres ativas, com trabalho ativo fora de casa, não temos de julgar quem não o pratica. É o princípio de igualdade pela diferença, de respeito geral. Agora, politizar e decretar comportamentos, aí sou completamente bruta, farei julgamentos contra e manifestarei a minha indignação. Desde que não seja para decretar comportamentos, todos os comportamentos são de livre-arbítrio, mas as pessoas também têm de ter a capacidade de arcar com as consequências. É tão simples quanto isso. Decretar modelos de vida não tem sentido, é ditadura. É um comportamento ditatorial e de autoritarismo, que temos de combater nem que seja ao irmos com tendas para a rua.

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Precisa de falar com alguém? Está a viver uma situação de sofrimento emocional, violência física ou psicológica? Ou conhece alguém que possa estar em perigo? Reunimos aqui todos os contactos de apoio, gratuitos e confidenciais, para pedir ajuda ou orientar quem precisa "O produto cultural mais popular de hoje é, provavelmente, a pornografia"

Jornalista na revista The Atlantic há 12 anos, Sophie Gilbert debruçou-se sobre o quanto a cultura – e a misoginia – dos anos 2000 moldaram as mulheres desde a infância, levando uma geração "a voltar-se contra si própria".

Daniela Filipe | 10:40 - 25/06/2026

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