Polarização política nos EUA marca hábitos de consumo de notícias
Apenas 15% dos norte-americanos politicamente identificados com a direita confiam nas notícias, segundo um estudo do Reuters Institute que evidencia profundas divisões ideológicas no consumo de informação, no dia das eleições intercalares.
O Digital News Report 2026, hoje divulgado pelo instituto da Universidade de Oxford, revela que a confiança dos norte-americanos nas notícias caiu para 25%, menos cinco pontos percentuais do que no ano anterior e o valor mais baixo desde que começaram a ser recolhidos estes dados, em 2015.
Entre os cidadãos que se identificam com a direita política, a confiança desce para 15%, um dos valores mais reduzidos encontrados em qualquer grupo ideológico dos 48 mercados analisados pelo estudo.
As diferenças políticas refletem-se também na escolha dos meios de comunicação social e das plataformas digitais utilizadas para acompanhar a atualidade, num país onde os eleitores são hoje chamados a renovar a Câmara de Representantes e parte do Senado, num escrutínio determinante para a segunda metade do mandato do Presidente Donald Trump.
Uma das tendências identificadas pelos investigadores é a transformação do perfil político dos utilizadores da rede social X, anteriormente conhecida como Twitter.
Segundo o relatório, desde a pandemia, a utilização daquela plataforma para obter notícias tem aumentado entre os norte-americanos de direita e diminuído entre os de esquerda, consolidando uma alteração na composição política da sua audiência informativa.
Apesar desta evolução, a utilização do X para acompanhar notícias caiu sete pontos percentuais nos Estados Unidos em 2026, depois de um crescimento registado no ano anterior, marcado pelo regresso de Donald Trump à Casa Branca e pela participação de Elon Musk na administração federal.
A polarização manifesta-se igualmente na crescente importância de comentadores e criadores digitais de conteúdos informativos, cujas audiências apresentam frequentemente orientações políticas bem definidas.
O estudo identifica figuras como Tucker Carlson, Ben Shapiro, Candace Owens e Joe Rogan entre os criadores associados a audiências mais à direita, enquanto Don Lemon, Hasan Piker, Brian Tyler Cohen e Aaron Parnas surgem associados a públicos mais à esquerda.
Segundo os investigadores, os criadores de conteúdos informativos mais populares em países como os Estados Unidos tendem a assumir posições políticas marcadas, reproduzindo e, em alguns casos, ampliando as divisões existentes nos meios de comunicação tradicionais.
A preferência por informação politicamente alinhada não significa, contudo, que a maioria dos cidadãos rejeite o princípio da imparcialidade jornalística.
O relatório conclui que, nos Estados Unidos, os inquiridos situados à esquerda e à direita manifestam uma maior preferência por fontes que partilhem os seus pontos de vista do que os cidadãos politicamente centristas.
Esta tendência é mais pronunciada entre os norte-americanos identificados com a direita, que demonstram também menor apoio relativo à informação que não assume posições políticas.
Ainda assim, à escala internacional, 45% dos participantes afirmam preferir notícias que não tomem partido, mais do dobro dos 20% que optam por informação coincidente com as suas próprias opiniões.
O afastamento dos meios tradicionais constitui outro traço do panorama informativo norte-americano: 45% dos inquiridos nos Estados Unidos admitem evitar deliberadamente as notícias, pelo menos algumas vezes, uma subida de três pontos percentuais relativamente a 2025.
A confiança nas notícias da Fox News e da CBS News caiu dez pontos percentuais em ambos os casos, enquanto os canais de televisão locais e os jornais regionais continuam entre os meios considerados mais credíveis.
O estudo documenta ainda o crescimento da importância das redes sociais e das plataformas de vídeo, que ultrapassaram globalmente os meios tradicionais como fontes semanais de informação.
Esta transformação é acompanhada pelo receio de desinformação, manifestado por 62% dos participantes nos 48 mercados analisados, mais quatro pontos percentuais do que no ano anterior.
Os resultados baseiam-se em inquéritos realizados sobretudo entre janeiro e fevereiro de 2026, pelo que não permitem estabelecer relações diretas entre os hábitos informativos dos eleitores e o resultado das eleições intercalares de hoje.
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