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Raquel André estreia "A fila J é a melhor" no Theatro Circo de Braga

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Minuto Fonte Externa
30 de outubro de 2026 • 5 min de leitura
Raquel André estreia "A fila J é a melhor" no Theatro Circo de Braga

A criadora Raquel André estreia, no sábado, no Theatro Circo, em Braga, "A fila J é a melhor", um espetáculo "de comemoração e de celebração dos vinte anos de reabertura" daquela sala de espetáculos.

 

A partir do seu último espetáculo, "Coleção de Espetadores", Raquel André põe em cena dez elementos do público de Braga que vão contar as suas histórias de vida a partir das memórias do Theatro Circo, disse hoje a criadora à agência Lusa.

O convite à criadora partiu do próprio teatro para que criasse um espetáculo que celebrasse a efeméride com os espetadores. Para isso, o teatro fez uma "chamada pública", tendo a criadora convidado dez pessoas, partindo de "uma ideia de diversidade".

A partir dos depoimentos dos dez espetadores selecionados e de entrevistas a alguns trabalhadores do teatro, que "normalmente têm um lugar muito invisível", pois "estão escondidos no 'backstage', vestidos de preto, ou nos escritórios", "A fila J é a melhor" conta "alguns segredos do teatro, da relação deste com os espetadores, com os lugares que ocupam no teatro e o trabalho que fazem", descreveu a criadora.

Para a artista, "A fila J é a melhor" é "uma grande homenagem a esse trabalho invisível dos trabalhadores e também às memórias dos espetadores do Theatro Circo".

O elenco reúne pessoas de diferentes idades, com ocupações e histórias de vida também muito diferentes, que se tornam artistas a partir das 21:30 deste sábado, cada uma delas desfiando histórias e memórias pessoais relacionadas com a sala histórica de Braga.

Questionada sobre como surgiu o título da peça, Raquel André disse ter partido da opinião de uma espetadora do teatro, Maria Esteves, também a mais antiga trabalhadora desta sala, para onde entrou aos 17 anos e que já leva 57 ao serviço do Theatro Circo. Maria Esteves, que estará em cena, trabalha na bilheteira, e disse que a fila J é a melhor da sala.

A fila J é a central da plateia e a que "proporciona melhor vista" do palco; tem um corredor de passagem à frente, permitindo aos espetadores "esticar as pernas e ficarem mais à vontade".

A contradição reside, todavia, no facto de a fila J ser "muitas vezes guardada para convites institucionais e especiais", o que, para Raquel André, constitui "uma ironia" já que, sendo o melhor lugar da plateia, "muitas vezes está vazio".

Daí que, neste espetáculo, os atores deixem também um manifesto para que os ingressos da fila J sejam vendidos ao público em geral, o que não acontece sempre.

Conhecedora da melhor fila do teatro, Maria Esteves "sempre que pode diz aos espetadores para comprarem bilhetes naquele fila" e, caso haja lugares, "faz sempre questão de os vender", disse Raquel André à Lusa, referindo-se a 'falas' daquela trabalhadora na peça.

Testemunhos como o de Marcello Freire, que não perde uma sessão de cinema e para quem o teatro é a sua segunda casa, ou de Vivaldo Franco, que frequentava o teatro ainda antes de se mudar para Braga, fazem igualmente parte do espetáculo, disse ainda Raquel André.

Imigrante do Brasil a residir em Portugal há oito anos, Vivaldo Franco frequentava o Theatro Circo ainda antes de ter casa em Braga, daí que considere aquele espaço "a sua primeira casa".

"Acho que é muito interessante como, para muitos espetadores, o teatro é um lugar de pertença, um lugar de conforto, um lugar onde reconhecemos os códigos, onde é seguro, porque sabemos que, durante aquelas horas, vamos poder ter uma boa experiência".

Mesmo que não se goste de um espetáculo ou se saia de lá "'mais mexidos', é sempre uma experiência positiva nesse sentido, porque é sempre um lugar de conforto mesmo que seja para sermos questionados", sublinhou a criadora à Lusa.

E como o teatro é uma local onde o espetador consegue "reconhecer o lugar e os seus códigos", por ser um lugar "de conhecimento e de pensamento crítico e um espaço democrático que tenta chegar ao maior número de pessoas", o espetáculo deixa ainda um repto para que o Theatro Circo continue a "trabalhar com as pessoas da cidade e com os espetadores, e não pense apenas nos artistas e nas programações", concluiu Raquel André.

Produzido pela Missanga, "A fila J é a melhor" é um espetáculo dirigido por Raquel André, está marcado para as 21:30 de sábado, dis 31 de outubro, e tem como intérpretes Catarina Bernardo, Catarina Carvalho Gomes, Eugénia Silva, Gisele Knust, Helena Meireles, Joana Lopes, Marcello Freire, Maria Esteves, Paulo Barbosa e Vivaldo Franco.

O vídeo é de Francisco Fidalgo, a música de Odete, enquanto o desenho de luz é de Cárin Geada.

A operação de luz está a cargo de Hélio Pereira e a operação de música e vídeo, de Nuno Pinheiro.

Questionada sobre outras criações, Raquel André disse estar a trabalhar num projeto que vai estrear em Évora, em 2027, no âmbito da programação da Capital Europeia da Cultura.

"Colecionar para ensaiar o mundo" é o título desse espetáculo, financiado por Évora 2027, no qual tem estado a trabalhar ao longo do último ano e que resultará num filme e numa exposição, que entrarão depois em itinerância com uma caravana adaptada, para ser apresentado em várias localidades alentejanas, avançou Raquel André à Lusa.

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