'Trend' dos anos 80 no ChatGPT: o que você está entregando de graça para a IA e como se proteger
'Trend' dos anos 80 no ChatGPT: o que você está entregando de graça para a IA e como se proteger ChatGPT Cabelão, fotos granuladas e cores neon. Se suas redes sociais parecem ter voltado algumas décadas no tempo, você não está sozinho. Muitas pessoas têm usado ferramentas de inte...
'Trend' dos anos 80 no ChatGPT: o que você está entregando de graça para a IA e como se proteger
ChatGPT
Cabelão, fotos granuladas e cores neon. Se suas redes sociais parecem ter voltado algumas décadas no tempo, você não está sozinho. Muitas pessoas têm usado ferramentas de inteligência artificial para transformar suas selfies em retratos inspirados nos anos 80.
Criadas a partir de prompts no gerador de imagens do ChatGPT que incentivam os usuários a enviar suas próprias fotos, essas imagens são convincentes e fáceis de compartilhar. Isso ajudou a tendência a se espalhar rapidamente pelo Instagram, TikTok e X.
Mas, por trás da nostalgia, especialistas alertam que os usuários podem estar compartilhando muito mais do que imaginam.
'Diversão para dados'
A popularidade da tendência das fotos inspiradas nos anos 80 reflete uma mudança mais ampla no uso da inteligência artificial generativa.
Há poucos anos, as ferramentas de geração de imagens por IA estavam restritas a entusiastas e usuários com conhecimentos técnicos. Hoje, elas estão cada vez mais integradas ao cotidiano, impulsionando desde tendências nas redes sociais até ferramentas de trabalho e aplicativos de consumo.
A transformação com estética dos anos 80 é apenas a mais recente de uma série de modas impulsionadas por IA, que já incluiu retratos personalizados da infância, versões de usuários como personagens de fantasia e imagens temáticas para datas comemorativas.
Segundo Catarina Doria, especialista em ética da IA, essas tendências virais atraem novos usuários e os incentivam a compartilhar dados pessoais.
"Essas tendências acontecem porque são benéficas para as empresas de IA generativa", afirma. "As pessoas são incentivadas a enviar cada vez mais imagens de si mesmas e de outras pessoas."
Doria descreve esse fenômeno como "fun for data" ("diversão por dados", em tradução livre para o português): a troca de informações pessoais por entretenimento, muitas vezes sem que os usuários considerem plenamente as implicações dessa escolha.
OpenAI afirma que a confiança e a privacidade são fundamentais para seus produtos
Getty Images
Carissa Véliz, professora associada de filosofia no Instituto de Ética em IA da Universidade de Oxford, no Reino Unido, concorda que os usuários devem pensar cuidadosamente antes de compartilhar informações pessoais com sistemas de inteligência artificial.
"Ao enviar fotos para uma IA, você está compartilhando alguns dos dados mais sensíveis que possui", afirma. "As imagens podem conter metadados como localização, mas também fornecem dados biométricos."
Informações biométricas, como características faciais, são especialmente sensíveis porque não podem ser facilmente alteradas caso sejam comprometidas.
"Você pode trocar sua senha se ela for roubada", diz Véliz. "Mas não pode trocar de rosto."
Doria afirma que os riscos podem ser maiores do que os associados a plataformas de redes sociais, como Instagram e Facebook, ou até mesmo a aplicativos de namoro, como o Tinder. Isso porque os usuários costumam enviar várias imagens de alta qualidade, feitas justamente para mostrar seus rostos com clareza.
Ela também ressalta que muitas pessoas compartilham informações pessoais detalhadas com chatbots de IA ao conversar sobre trabalho, relacionamentos e interesses. Quando combinados com fotografias, esses dados podem contribuir para a criação de perfis cada vez mais detalhados dos usuários.
Publicidade direcionada
Mas a privacidade não é a única preocupação. Especialistas também alertam para a incerteza em torno de como os dados compartilhados hoje poderão ser usados no futuro.
"Parte do desafio da era digital é que não fazemos ideia de como nossos dados serão utilizados daqui a alguns anos", afirma Véliz. "Nem sabemos exatamente para onde eles vão, porque muitas empresas comercializam essas informações, muitas vezes de forma irresponsável."
Tanto Doria quanto Véliz apontam o rápido avanço dos deepfakes gerados por inteligência artificial como um exemplo de como essas tecnologias podem evoluir de formas difíceis de prever. Imagens enviadas hoje para fins aparentemente inofensivos podem, no futuro, contribuir para sistemas de IA muito mais sofisticados.
"Há cinco ou seis anos, não imaginávamos que chegaríamos a esse ponto", diz Doria, referindo-se à proliferação recente de imagens ultrarrealistas criadas por inteligência artificial. "Estávamos apenas postando fotos na internet, sem pensar muito nas consequências."
Outra preocupação é a criação de perfis detalhados e a publicidade direcionada. Os dados coletados por empresas de tecnologia podem ser usados para traçar retratos cada vez mais precisos dos interesses, hábitos e comportamentos dos usuários, permitindo que anunciantes e outras organizações direcionem mensagens com maior precisão.
Muitas das principais empresas de IA afirmam oferecer controles de privacidade, incluindo configurações que limitam o uso de conteúdo para treinar e aprimorar modelos futuros.
Em nota ao Serviço Mundial da BBC, a OpenAI afirmou que confiança e privacidade são pilares centrais de seus produtos. Segundo a empresa, os usuários mantêm o controle sobre suas informações e podem excluir seus históricos de conversa.
A companhia também destaca que, ao usar o modo de Chat Temporário, as conversas não são salvas, lembradas e nem utilizadas para treinar seus modelos.
'Privacidade é poder'
Na visão de Doria, vale a pena pensar bem antes de embarcar em tendências virais como a das fotos inspiradas nos anos 80.
Mas muitos especialistas em privacidade afirmam que o mais importante não é deixar de usar a IA, mas usá-la com cautela. Para isso, recomendam refletir sobre quais informações você compartilha e como elas são compartilhadas. Veja algumas dicas:
Evite publicar fotos de crianças. Como crianças não podem consentir de forma informada, pais e responsáveis devem refletir antes de publicar imagens que possam se tornar parte de seu histórico digital permanente.
Prefira imagens de resolução mais baixa. Fotografias em alta definição podem revelar informações biométricas mais detalhadas.
Escolha plataformas consolidadas. Ferramentas de IA mais conhecidas geralmente possuem políticas de privacidade mais claras e mecanismos de governança mais robustos do que aplicativos pouco conhecidos que surgem durante modas virais.
Revise as configurações de privacidade. Muitas ferramentas de IA permitem que os usuários impeçam que seu conteúdo seja utilizado para treinar ou aprimorar modelos futuros. Vale a pena verificar essas opções quando estiverem disponíveis.
Desative recursos de memória desnecessários. Alguns chatbots armazenam informações de conversas anteriores para personalizar respostas. Desativar esses recursos pode reduzir a quantidade de dados pessoais retidos.
À medida que a inteligência artificial se incorpora ao dia a dia, o desafio, segundo especialistas, é aproveitar seus benefícios sem perder de vista os riscos envolvidos.
"Privacidade é poder, porque protege as pessoas contra possíveis abusos", afirma Véliz.
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