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Ucranianos feridos na guerra curam corpo num antigo seminário em Ourém

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Minuto Fonte Externa
17 de outubro de 2026 • 5 min de leitura
Ucranianos feridos na guerra curam corpo num antigo seminário em Ourém

Um antigo seminário na Aldeia Nova, concelho de Ourém, onde durante décadas centenas de rapazes tiveram formação espiritual, é hoje um centro para militares ucranianos feridos na guerra contra a Rússia encontrarem cura para corpo e alma.

 

É o caso de Serghii Nazarenko, de 32 anos, com parte de uma perna amputada, depois de, em outubro de 2024, uma mina antipessoal o ter atingido na região de Lugansk, no leste da Ucrânia.

Antes, o jovem tinha um "trabalho normal", numa empresa de telecomunicações, tendo-se juntado às Forças Armadas em fevereiro de 2022, quando a Rússia iniciou a ofensiva militar.

À agência Lusa, Serghii Nazarenko, de Kiev, desvaloriza o impacto que a guerra deixou marcada no seu corpo, que o obriga a colocar uma prótese para poder deslocar-se.

"A minha pior memória, sem dúvida, não é a minha lesão. A pior memória da guerra é quando perdes os teus companheiros, quando vês as suas mortes e vais aos seus funerais", afirma o militar após fazer uma sessão de magnetoterapia, tratamento para ajudar a cicatrização, no Centro de Reabilitação Fénix.

O soldado salienta que outra memória terrível é o que acontece com as crianças devido aos ataques russos com mísseis e drones em cidades pacíficas.

"Kiev, a capital da Ucrânia, por exemplo, é alvo de ataques todos os dias e, diariamente, registamos vítimas entre a população civil, e isto é muito assustador", lamenta Serghii Nazarenko, que chegou a Portugal, no passado dia 04 de outubro, com a filha de 6 anos.

O militar veio por causa dela, "nem que fosse por um curto período", e, na aldeia da freguesia do Olival, a filha pode estar tranquila, e conseguir "relaxar e dormir tranquilamente", sem os sobressaltos que a guerra provoca.

"Ela faz os trabalhos de casa à distância", explica Serghii Nazarenko, lembrando que na Ucrânia a situação é perigosa todos os dias por causa dos ataques aéreos, com as crianças a precisar de abrigar-se em caves "cinco vezes ao dia".

O jovem sustenta que "isso não é um processo de aprendizagem normal".

"As crianças não deveriam ver isto", adianta Serghii Nazarenko, acalentando o desejo de paz, que tarda em ser assinada, para "viajar pelo mundo inteiro" com a filha.

Este soldado integra o grupo de 10 militares e respetivas famílias, 31 pessoas no total, incluindo um bebé, que chegaram a Portugal no início do mês, para um programa de recuperação e reabilitação, segundo informação da associação Ukrainian Refugees UAPT (HelpUA.pt).

Faz parte do Centro de Operações Especiais 'Omega', da Guarda Nacional da Ucrânia, que reúne militares especializados que têm participado em operações de elevada exigência na defesa do território.

De acordo com a associação, "é a primeira vez que militares desta unidade de operações especiais, incluindo combatentes altamente condecorados, são autorizados a deixar temporariamente a Ucrânia para realizar um programa de tratamento e reabilitação num país estrangeiro, neste caso, Portugal", destacando que esta operação humanitária mobilizou instituições, Exército português, empresas e sociedade civil.

Também Olga Polishchyk, de 37 anos, oriunda de Odessa, está no centro, acompanhada pela filha, após ter estado ao serviço das Forças Armadas da Ucrânia entre 2018 e 2024. Enfrenta agora nova batalha que dá pelo nome de cancro.

"Vim para Portugal com a minha filha apenas para estarmos em segurança devido aos ataques russos na Ucrânia. Aqui, finalmente conseguimos dormir e relaxar, não precisamos de ir para um abrigo todos os dias e estamos a fazer a reabilitação", conta a militar, numa entrevista feita num dia soalheiro, um contraste absoluto com os dias negros que há quase cinco anos pairam sobre a Ucrânia.

Olga Polishchyk diz que as guerras têm de acabar, garantindo que os militares estão a fazer o seu melhor para que tal suceda.

"Gostaria de partilhar um breve relato sobre a minha filha: tem 10 anos, sofre de uma doença genética e fazia tratamento na cidade onde morávamos. Com o início da invasão em larga escala, a cidade foi ocupada pelos russos. Por isso, a minha filha ficou três meses sem tratamento e o seu quadro de saúde piorou", explica, para destacar que, em Portugal, "a condição ocular dela melhorou em apenas uma semana".

Manifestando-se muito grata a quem permite que estejam no país, ao qual repete elogios, Olga Polishchyk resume: "É isso que posso dizer sobre estar em Portugal".

O antigo seminário, conhecido como Casa da Criança da Aldeia Nova, ligado à Obra do Frei Gil, da ordem religiosa de São Domingos (Dominicanos), foi cedido à associação a título gratuito por períodos renováveis.

O espaço tem segurança própria e vigilância das autoridades portuguesas, refere a Ukrainian Refugees UAPT.

Leia Também: Suécia doa 47 milhões de euros à Ucrânia para "necessidades urgentes"

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