Urnas abrem numa Sérvia dividida entre Vucic e um movimento de estudantes
As urnas abriram hoje na Sérvia para as eleições legislativas, consideradas um confronto entre o líder populista do país balcânico, Aleksandar Vucic, e um movimento de estudantes universitários que liderou protestos contra ele durante quase dois anos.
Ao início da manhã, os eleitores faziam fila nos locais de votação por todo o país, algo que Ilija Srdanovic, um médico que é o primeiro dos 250 candidatos do movimento juvenil, afirmou ser o prenúncio de "uma afluência às urnas recorde na história recente da Sérvia".
"Espero que este dia decorra num ambiente democrático e pacífico e que escolhamos legitimamente um novo governo na Sérvia", afirmou Srdanovic após votar na cidade de Novi Sad, no norte da Sérvia.
Os opositores de Vucic, bem como alguns grupos de observação independentes, alertaram para possíveis irregularidades no processo eleitoral.
Apesar de Aleksandar Vucic ter afirmado que reconheceria a derrota caso perdesse a votação, também advertiu que quaisquer protestos que pudessem eclodir alegando fraude, no caso de triunfo do seu partido, seriam imediatamente reprimidos.
Embora os 6,4 milhões de eleitores da Sérvia possam escolher entre 18 partidos que aspiram a entrar no Parlamento, composto por 250 membros, a eleição assumiu a forma de um referendo entre o Partido Progressista Sérvio de Vucic, de direita, e a Lista dos Estudantes, apoiada pela juventude.
Acredita-se que os principais candidatos estejam empatados nas sondagens, tornando a eleição de hoje a mais incerta dos últimos anos. Espera-se que a afluência às urnas seja elevada e possa empurrar a maioria dos partidos mais pequenos para abaixo do limiar de 3% necessário para entrar na assembleia.
Embora Vucic tenha, no passado, superado sistematicamente a oposição fragmentada da Sérvia, o movimento juvenil sem líder revelou-se um adversário difícil que abalou o seu firme domínio do poder na Sérvia como ninguém mais conseguiu nos últimos 14 anos, desde que o seu partido assumiu o poder.
Uma vitória dos estudantes provavelmente teria repercussões para além da Sérvia, numa altura em que países por toda a Europa enfrentam protestos de jovens e estudantes.
As eleições recentes foram marcadas por irregularidades, pelo que a União Europeia está a acompanhar de perto o desenrolar da votação de hoje num país que é candidato à adesão ao bloco europeu.
Tanto os observadores eleitorais internacionais como os locais já manifestaram preocupação quanto à segurança e à imparcialidade de uma campanha eleitoral marcada por detenções, controlo quase total do Governo sobre os meios de comunicação social e relatos de vigilância e ciberataques contra ativistas.
As eleições locais realizadas no início deste ano em 10 municípios da Sérvia foram palco de ataques violentos contra jornalistas e ativistas. A anterior votação parlamentar, em 2023, foi seguida de protestos da oposição que alegavam fraude.
Se o seu partido, o SNS, obtiver a maioria dos votos, Vucic tornar-se-á primeiro-ministro após ter cumprido dois mandatos quase completos como Presidente. Renunciou à presidência no mês passado para liderar a campanha.
A popularidade dos populistas tem vindo a diminuir desde que 16 pessoas morreram há dois anos, quando uma cobertura de betão ruiu numa estação ferroviária no norte da Sérvia, desencadeando uma onda de protestos juvenis que exigiam responsabilização pelo desastre e justiça para as vítimas.
A indignação refletiu acusações generalizadas de corrupção de alto nível e nepotismo, com os manifestantes a afirmarem que a corrupção desenfreada levou à negligência durante as obras de renovação na estação de Novi Sad e ao consequente desabamento da cobertura.
Apesar dos protestos, Vucic mantém um apoio considerável entre os eleitores sérvios. Os seus admiradores veem-no como um líder capaz de conduzir a nação através das incertezas globais — uma imagem que foi cuidadosamente construída pelos meios de comunicação social tradicionais.
Por sua vez, o movimento "Lista dos Estudantes", recentemente formado, difere de qualquer outra organização política na Sérvia. É constituído por estudantes universitários, mas nenhum deles figura efetivamente na lista. Em vez disso, os candidatos são especialistas pouco conhecidos, desportistas, agricultores e artistas.
Esta abordagem teve como objetivo contrariar o Governo unipessoal de Vucic e restaurar um sentido de comunidade e solidariedade. A mensagem "Nós sabemos como" durante a campanha prometeu um esforço apartidário para reconstruir a economia e a democracia da Sérvia após uma mudança de governo.
Com a sua energia juvenil, os estudantes atraíram eleitores desiludidos com os políticos locais. Difamados pelos meios de comunicação pró-governo, os estudantes percorreram o país de bicicleta e a pé para chegar aos eleitores das zonas rurais — os tradicionais bastiões de Vucic.
Não se espera que a comissão eleitoral estatal divulgue a contagem oficial antes de segunda-feira.
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