Associações lançam campanha para convencer portugueses a ir ao cinema
Uma campanha de incentivo sobre idas ao cinema é lançada na quinta-feira por duas associações do setor, para atrair mais espectadores e garantir o negócio da exibição cinematográfica, disseram à Lusa os responsáveis da iniciativa.
Intitulada "Sente-se. No cinema", a campanha consiste num pequeno filme-manifesto envolvendo vários atores e atrizes portugueses, para exibição nas salas de cinema, televisão e redes sociais, e foi criada pela Associação Portuguesa de Empresas Cinematográficas (APEC) e pela Associação Portuguesa de Defesa de Obras Audiovisuais (FEVIP).
Esta campanha de comunicação é para "criar hábitos que deixaram de estar enraizados" entre os portugueses e "para evitar que a oferta de salas de cinema comece a diminuir. Se houver mais público, as salas não vão fechar", disse à Lusa o diretor-geral da FEVIP, António Paulo Santos.
Quando questionado se é uma campanha de comunicação que vai levar os portugueses ao cinema, nomeadamente os que habitam fora dos grandes centros urbanos, onde a oferta é menor, António Paulo Santos respondeu com a necessidade de "políticas públicas" para o setor.
"Obviamente isto tem de ser acompanhado de políticas públicas e se conseguirmos criar algum hábito – não digo que vamos criar um hábito, isso é uma ilusão – se isto potenciar que consiga ir buscar alguns espectadores nessas zonas, as salas começam a estar mais compostas e, na perspetiva do cinema comercial, a ser rentáveis. E isso é um dos objetivos", disse o responsável da FEVIP.
António Paulo Santos rejeita ainda a ideia de que o problema esteja no preço dos bilhetes que, em média, custavam 6,18 euros em 2025, segundo dados do Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA).
"Os bilhetes não são caros, há uma cultura muito miserabilista, mas vemos os festivais de música, com bilhetes a cem euros, esgotados. Campos de futebol esgotados. Sete euros por um bilhete e com os descontos que existem é muito dinheiro?", perguntou.
A campanha de comunicação – que irá perdurar pelo menos até março de 2027 - é lançada numa altura em que se verifica um aumento tanto do número de espectadores como de receitas de bilheteira nos cinemas portugueses.
Segundo o ICA, com dados contabilizados até setembro, as salas de cinema registaram este ano um aumento de 20% nas receitas de bilheteira, para um total de 64,8 milhões de euros, e uma subida de 9,8% em audiência para 9,2 milhões de espectadores, em comparação com período igual de 2025.
"Este ano não está a correr mal, esperamos chegar ao final do ano com bastante mais espectadores do que no ano passado, mas a verdade é que ainda não chegámos ao que gostaríamos de ter e que seria o ideal para a atividade: provavelmente, termos níveis de 2018, 2019, ter mais de 15 milhões [de espectadores]", afirmou à Lusa o diretor-geral da APEC, Fernando Ventura.
Para a APEC, que representa a maioria dos exibidores cinematográficos, "o cinema português é essencial" para impulsionar o negócio.
"Nós gostávamos de ter no mercado nacional uma maior percentagem de cinema nacional. Se subisse para os 15% [de quota de espectadores], seria uma boa ferramenta para sustentar a atividade da distribuição, da exibição", disse Fernando Ventura.
Até ao final de setembro, estrearam-se nos cinemas 40 filmes portugueses ou com coprodução portuguesa, o que representa 13% da quota de mercado de todos os filmes estreados em sala.
Porém, foram vistos por 291.321 espectadores, ou seja, apenas 3,1%, das 9,2 milhões de entradas registadas entre janeiro e setembro de 2026, e a APEC deseja que essa quota suba para 15%.
Sobre a rede de exibição de cinema no país, até setembro existiam 525 salas, mas o número é flutuante dado que diz respeito às salas que reportam dados de bilheteira ao ICA.
Ainda assim, este número reflete as mudanças ocorridas no panorama da exibição nos últimos meses, com o encerramento de várias salas, nomeadamente pela insolvência da exibidora Cineplace. Há um ano, no final de setembro de 2025, existiam 550 salas em atividade.
"Se não houver uma tendência de espectadores para irem, as salas também não abrem. Isto é um círculo vicioso: não há espectadores, não há salas; não há salas, não há espectadores. Todos têm de remar no mesmo sentido, mesmo que seja necessário o Estado fazer algumas iniciativas e apoios, como julgo que estão a ser pensados", sublinhou Fernando Ventura.
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