Banda portuguesa mais antiga do Canadá celebra 60 anos a unir gerações
A mais antiga banda portuguesa do Canadá celebrou no sábado 60 anos, unindo músicos que chegaram durante a emigração da década de 1960 a jovens luso-canadianos que continuam a preservar a tradição.
"Para fazer marchas depressa e essas coisas todas, já fico cansado. Mais ou menos, vou pôr fim à minha carreira", confessou à agência Lusa António Furtado, de 75 anos, que integra a Banda do Senhor Santo Cristo desde 1968.
Natural das Furnas, na ilha de São Miguel, chegou ao Canadá com 17 anos, quando a formação tinha apenas dois anos de existência. Quase seis décadas depois, continua a tocar saxofone, mas admite que os longos desfiles começam a pesar.
"Eu já vinha de lá como aprendiz, era um rapaz novo. Já havia a banda aqui e aqui fiquei", recordou o músico, que chegou a Toronto para se juntar ao pai, emigrado anteriormente.
A Banda do Senhor Santo Cristo foi fundada em 16 de abril de 1966 por um grupo de emigrantes portugueses, para acompanhar as primeiras festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres em Toronto.
José de Medeiros esteve na origem da fundação, juntamente com Manuel Arruda e outros emigrantes, contando com o apoio do padre Alberto Cunha, primeiro presidente da Assembleia Geral, enquanto José Brasil assumiu a direção musical durante mais de duas décadas.
A primeira atuação aconteceu em 10 de junho de 1966, quando a banda desfilou pelas ruas de Toronto até ao Coliseum, no Exhibition Place, durante as comemorações do Dia de Portugal, numa cerimónia que, segundo a história da instituição, reuniu mais de 10 mil pessoas.
Para António Furtado, uma das recordações mais marcantes foi a primeira deslocação da banda aos Açores, em 1978, dez anos depois de ter chegado ao Canadá.
Ao longo das décadas, acompanhou o crescimento da comunidade portuguesa de Toronto, criando amizades que se mantêm até hoje e assistindo à entrada de novas gerações na instituição.
Seis décadas depois da fundação, a Banda do Senhor Santo Cristo continua presente nas festas religiosas portuguesas, mas também em eventos canadianos, incluindo o Desfile do Pai Natal de Toronto, a Parada do Dia do Trabalhador e a Parada do Dia de Portugal.
"Fazemos parte da comunidade portuguesa, e não só. Temos outras comunidades também desde 1966 e continuamos sempre", afirmou à Lusa o presidente Marco Lima, de 47 anos, natural da ilha Terceira, nos Açores.
O dirigente, que integra a banda há mais de 30 anos, começou a tocar aos 14, desempenhou diferentes funções, incluindo a de maestro, e continua atualmente a tocar bombardino.
"Numa instituição como a nossa, durar 60 anos não é fácil. E está cada vez mais difícil. Mas é um marco muito grande para nós. Queremos mais 60 anos. Que venha mais gente para tomar o lugar e continuar sempre", afirmou Marco Lima.
A formação conta atualmente com cerca de 45 músicos e mantém ensaios praticamente todas as semanas, reunindo elementos de diferentes idades e origens, segundo o maestro principal, Adriano Silva.
Nascido no Canadá, filho de emigrantes da ilha Terceira, Adriano Silva, de 45 anos, começou a aprender música aos nove anos, seguindo os passos do pai, que também integrou a banda nos primeiros anos da sua existência.
"Foi o meu pai que me trouxe para as bandas. Eu comecei nas bandas filarmónicas com nove anos de idade e, desde aí, foi sempre para a frente", recordou o maestro, que dirige a formação há uma década.
O repertório reflete também a evolução da comunidade, combinando marchas e músicas populares portuguesas com temas contemporâneos, incluindo 'rock', música 'pop' e fados acompanhados por vocalistas.
"Às vezes sentimos o que está popular agora, o que o pessoal está a ouvir, as músicas 'pop'. Se a gente pode tocar isso, às vezes atraímos o interesse de quem está a ouvir a banda", explicou o maestro, que procura adaptar as atuações aos diferentes públicos sem perder a identidade cultural da instituição.
Em junho, a banda regressou à ilha Terceira para participar em festividades locais, numa deslocação que o maestro classificou como um dos momentos mais marcantes da sua carreira.
A transmissão da tradição musical entre gerações está também presente na história dos irmãos Ruben e Lucas da Rocha, de 20 e 19 anos, respetivamente, ambos nascidos no Canadá e filhos de portugueses.
Ruben da Rocha começou a tocar caixa aos 11 anos, depois de assistir a uma festa e ficar impressionado com uma medalha recebida por um músico, o que despertou o seu interesse pela banda.
"Perguntei à minha mãe como podia ter uma coisa assim e ela disse-me que precisava de estar na banda. Foi aí que disse ao meu pai que queria fazer isto", contou à Lusa o jovem, que integra a formação há cerca de nove anos.
O irmão, Lucas da Rocha, juntou-se à instituição este ano e também toca percussão.
"É muito divertido, saímos de casa, convivemos com outras pessoas. Esta banda é uma família para nós", afirmou Lucas da Rocha, manifestando a intenção de continuar ligado à formação.
Para Ruben da Rocha, a participação na filarmónica ultrapassa a aprendizagem musical, constituindo uma oportunidade de convívio e de ligação à comunidade portuguesa.
"Muitos jovens agora não querem fazer isto. Eu acho que deviam, porque é algo muito bom. Para os jovens luso-canadianos, saiam de casa e juntem-se à banda. Precisamos de mais jovens", apelou.
Também Julia Silva, de 16 anos, nascida no Canadá, integra a Banda do Senhor Santo Cristo há cerca de quatro anos, desempenhando a função de porta-bandeira.
Filha do maestro Adriano Silva, a jovem representa uma nova geração de luso-canadianos que mantém a ligação à cultura portuguesa através da participação nas atividades da instituição.
"É muito importante socializar, falar com toda a gente, divertirmo-nos e manter a cultura viva", declarou à Lusa.
Julia Silva pretende continuar ligada à banda, considerando essencial assegurar que as tradições portuguesas sejam transmitidas às gerações seguintes.
"É importante manter a banda viva, para que continue durante gerações e gerações, e preservar as nossas tradições", acrescentou.
Apesar da presença de jovens, Marco Lima reconheceu que a diminuição da emigração portuguesa e a redução do número de festas tradicionais representam desafios financeiros para a instituição.
"A emigração para cá começou a acabar, as festas começaram a acabar. As nossas tradições, se não tiverem cuidado, vão-se acabando. E financeiramente não é fácil, porque só se ganha com as festas e estão a acabar", alertou.
O presidente explicou que a banda depende do trabalho voluntário, das receitas das atuações e de iniciativas comunitárias, beneficiando da ligação à Igreja de Santa Maria, em Toronto, que permite reduzir os custos de funcionamento.
"É tudo voluntário, ninguém ganha dinheiro. É com ajudas de pessoas, da comunidade, jantares e festas que se consegue andar para a frente. Não há ajudas do Governo, é tudo do nosso trabalho", explicou.
Marco Lima apelou ainda a uma maior participação da comunidade portuguesa na vida das instituições culturais, considerando que a sua sobrevivência depende do envolvimento das famílias e dos mais jovens.
Durante a gala comemorativa, realizada no Centro Cultural Português de Mississauga, na província do Ontário, a vice-presidente Debbie Goulart recordou que conheceu o marido na banda, com quem está casada há 30 anos, e destacou a ligação dos três filhos à instituição, numa história familiar que atravessa quatro gerações.
Para António Furtado, que acompanhou praticamente toda a história da instituição e agora admite estar próximo de abandonar os desfiles, a continuidade da banda está sobretudo nas mãos das famílias que nela cresceram.
"Enquanto viverem os netos e os filhos, sempre vai continuar", concluiu.
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