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Companhia põe em cena romance de Erpenbeck para dar atenção a "invisíveis"

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Minuto Fonte Externa
5 de novembro de 2026 • 4 min de leitura
Companhia põe em cena romance de Erpenbeck para dar atenção a "invisíveis"

A companhia Cegada estreia na sexta-feira, em Alverca, a peça "Eu vou, tu vais, ele vai", a partir do romance homónimo de Jenny Erpenbeck, para mostrar a necessidade de os refugiados se tornarem visíveis na sociedade contemporânea.

 

Em declarações à agência Lusa, o diretor artístico da companhia Cegada e encenador da peça, Rui Dionísio, traçou um paralelismo entre a peça e as acampadas em Lisboa e Porto onde as pessoas reclamam pelo direito à habitação.

Isto porque o que se passa atualmente em Portugal tem semelhanças com a ação do romance da autora, que se centra num agregado de tendas montadas por imigrantes africanos numa praça em frente à Câmara Municipal de Berlim.

Jenny Erpenbeck "tem, de facto, um olhar muito cirúrgico, muito microscópico e duro" no romance a ser posto em cena no Teatro-Estúdio Ildefonso Valério, sede da companhia.

O erguer desta peça da autora de obras como "Kairos" ou "Visitação" surgiu na sequência de uma proposta da dramaturgista da companhia, Marta Dias, que apresentou à companhia há cerca de três anos quando esta estava a preparar as candidaturas aos apoios sustentados ao teatro da Direção-Geral das Artes, contou Rui Dionísio.

À semelhança do que fizeram com os romances "A gorda", de Isabel Figueiredo, ou"Os transparentes", de Ondjaki, resolveram pôr em palco "Eu vou, tu vais, ele vai" por, também esta obra, ter o que o coletivo chama "um olhar pelo avesso".

Ou seja, "um olhar para lá da primeira camada, para lá da primeira observação", frisou o encenador.

Porque a autora do romance "proporciona precisamente esse olhar", já que depois da manifestação de imigrantes na praça berlinense e depois de as autoridades alemãs terem tomado medidas em relação àqueles refugiados, quer os tenha acolhido em residências ou em centros de acolhimento, a pergunta que a autora deixa é "o que é que passa a acontecer disto", argumentou.

"Nesta pergunta acabámos por encontrar paralelismos com as pessoas que, há uns tempos estavam na igreja de Arroios. Para onde foram, ficou o problema resolvido?", questionou Rui Dionísio, para logo responder: "À partida parece que sim".

"Mas, depois, se formos investigar como a Jenny Erpenbeck foi passado mais de um ano com estes refugiados, percebendo os becos sem saída legislativos e os votos de empurra entre os países da União Europeia, esse olhar para o depois da manifestação foi um dos motes para nos apaixonarmos por este texto e o colocarmos como objeto teatral para ser refletido", enfatizou o encenador.

Até porque, a companhia procura abordar "temas que, pela sua profundidade, acabam por se tornar, infelizmente, intemporais", sublinhou.

Com esta obra, a companhia vai "ao encontro dos acampamentos no Rossio e no Porto, das pessoas que lutam por habitação e que têm este ponto em comum com a obra de Erpenbeck, embora se esteja a falar de contextos completamente diferentes".

"A luta pela habitação não tem nada a ver com a luta dos refugiados, mas tem um ponto em comum que é juntarem-se numa praça central para se tornarem visíveis, para forçarem as autoridades políticas a confrontarem-se com a situação e darem uma palavra sobre a situação", referiu.

O que se passou em Berlim e o que se passa agora nas acampadas de Lisboa e do Porto "são gritos de desespero das pessoas que se unem para se tornarem visíveis", concluiu.

A peça está em cena até 22 de novembro, com récitas de quinta-feira a sábado, às 21:00, em ao domingo, às 16:00.

A interpretar a peça estão Luís Ilunga, Nylon Princeso, Paulo Matos e Susana Sá.

Com música original de Mick Trovoada, "Eu vou, tu vais, ele vai" tem cenografia, adereços e figurinos de Sérgio Miguel Reis.

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