Herbert Blomstedt, maestro de Mahler e Bruckner, morreu aos 99 anos
O maestro sueco Herbert Blomstedt, que atuou por diversas vezes em Portugal e se distinguiu nas interpretações de Mahler e Bruckner, morreu na quarta-feira, aos 99 anos, em Gotemburgo, Suécia, anunciou hoje a sua agência, KünstlerSekretariat am Gasteig.
Ao longo de mais de 70 anos de carreira, "Herbert Blomstedt ganhou o respeito sem restrições do mundo musical", lê-se na página da Fundação Calouste Gulbenkian dedicada ao maestro, que dirigiu em Lisboa a Gustav Mahler Jugendorchester (Jovem Orquestra Gustav Mahler), no âmbito das temporadas de música da fundação.
"Nobreza, fascínio, sobriedade e modéstia são qualidades que desempenham um importante papel na coexistência humana e que são certamente apreciadas. No entanto, são algo atípicas de personalidades proeminentes como os maestros. Neste domínio, Herbert Blomstedt será sempre visto como uma exceção", escreve a Gulbenkian, sublinhando como Blomstedt sempre desafiou "os clichés usuais", concentrando-se "na essência da música", representando sempre "o tipo de artista cuja competência profissional e autoridade natural tornam supérflua qualquer ênfase externa".
Blomstedt nasceu em Springfield, Massachusetts, nos Estados Unidos, em julho de 1927. Cresceu na Suécia, onde se formou na Real Academia de Estocolmo. Estudou musicologia em Uppsala, música antiga em Basileia, na Suíça, música de vanguarda em Darmstadt, com John Cage, na Alemanha, direção de orquestra com Leonard Bernstein, nos Estados Unidos.
A sua estreia como regente remonta a 1954 com a Filarmónica de Estocolmo. Seguiram-se as orquestras de Norrköping, Oslo, da Rádio Dinamarquesa e da Rádio Sueca, até chegar à Staatskapelle de Dresden, em 1975, que o confirmou na primeira linha dos regentes mundiais.
Dez anos mais tarde assumiu a titularidade da Orquestra Sinfónica de São Francisco, transformando "uma orquestra regional numa das grandes orquestras dos Estados Unidos", ao longo da década seguinte, como escreve a revista especializada Scherzo. Foi ainda maestro principal da Sinfónica da Rádio Norte da Alemanha (NDR) de Hamburgo e diretor musical da Orquestra do Gewandhaus de Leipzig.
As suas interpretações de Anton Bruckner e Gustav Mahler mantêm-se como referência da crítica, assim como os ciclos dedicados a Carl Nielsen e Jean Sibelius. Mas as preferências de Blomstedt estendiam-se a toda a música.
Conquistou dois Grammy, um pela gravação de "Carmina Burana", de Carl Orff, e outro por "Um Requiem Alemão", de Johannes Brahms. Entre 2014 e 2017, completou a integral das sinfonias de Beethoven, assente nas edições originais do compositor. Johannes Brahms e Franz Schubert foram também "abordados com abertura", como gostava de referir.
A sua verdadeira missão, segundo o próprio maestro, era "dar visibilidade a compositores pouco valorizados", como Nielsen, Sibelius, Berwald e Stenhammar.
A revista Scherzo recorda que Blomstedt regia sem batuta, "posicionando-se como mais um músico entre os músicos". Para o maestro, era sempre o compositor "a primeira e a última autoridade".
Herbert Blomstedt apresentou-se por diversas vezes em Portugal, contando-se a regência da Jovem Orquestra Gustav Mahler, na Gulbenkian, em Lisboa, entre as suas últimas apresentações no país. Em 2013, o trabalho foi acompanhado de uma residência artística, que culminou na interpretação do 4.º Concerto para piano de Beethoven, com Leif Ove Andsnes, como solista, e num documentário de Oliver Becker, sobre o processo. Em 2019, dirigiu Bruckner e Anton Dvorák.
Blomstedt programava celebrar o seu centenário à frente da Gewandhaus de Leipzig, em abril e julho do próximo ano, a dirigir Joseph Haydn e Bruckner.
O seu último concerto realizou-se em 15 de maio passado, à frente da Sinfónica de São Francisco, com a 9.ª Sinfonia de Mahler.
"Herbert Blomstedt era um daqueles artistas cuja autoridade não exigia grandes gestos", escreve hoje o Festival de Salzburgo, recordando as suas atuações. "O seu afeto humano e a sua paixão inabalável pela música eram tão impressionantes como a sua estatura artística".
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