Ex-primeiro-ministro italiano crê que direita perderá eleições de 2027
O ex-primeiro-ministro italiano Enrico Letta acredita que o populismo de direita em Itália sairá derrotado nas eleições legislativas de 2027, pois há "algumas boas notícias" na Europa no combate aos extremismos, destacando os casos da Hungria e da Sérvia.
Numa entrevista à agência Lusa, à margem da 10.ª edição das Conferências do Estoril, que decorreu quinta e sexta-feira no 'campus' de Carcavelos da Nova SBE (Universidade NOVA de Lisboa), o atual presidente da Fundação Jacques Delors admitiu, contudo, que o extremismo e o populismo estão a crescer em todo o mundo, responsabilizando múltiplos fatores.
"O extremismo e o populismo estão a crescer em todo o mundo. O país mais importante do mundo, os Estados Unidos, está sob a liderança de uma grande interpretação dessa nova política. Por causa da aceleração da globalização, da imigração e dos diferentes movimentos em todo o mundo, as pessoas estão assustadas com o futuro, com a tecnologia para o futuro, com o ser completamente superadas por novos empregos, novas tecnologias para perder seus empregos", afirmou Letta.
Perante este momento de preocupações, Enrico Letta argumenta que a resposta da direita política, aproveitada pela atual primeira-ministra de Itália, Giorgia Meloni, é hoje a saída mais fácil, embora hoje em dia essa tendência comece a virar o sentido.
"A Europa está a trazer algumas boas notícias. O líder mais anti-europeu [o agora ex-primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán] perdeu as eleições no seu próprio país, derrotado pela população. A Sérvia [do ex-presidente Alexander Vucic perdeu para a Lista de Estudantes], embora fora da União Europeia (UE), mas na Europa, também mudou", exemplificou.
À Lusa, Letta mostrou-se esperançado de que as legislativas de 2027 trarão uma mudança em Itália, afirmando-se "fortemente convencido" que as escolhas europeias e a própria dimensão da Europa será um dos principais temas de debate eleitoral.
"É claro que a Itália precisa de uma Europa forte, uma Europa mais forte, e eu espero fortemente que a Itália possa ser mais protagonista no nível europeu", sustentou, argumentando que a mudança passa por "trabalhar para uma maior unidade do país e dar uma maior atenção às necessidades dos jovens", cuja possibilidade de votar deveria baixar dos 18 para os 16 anos.
"Atualmente, os jovens estão sob pressão, porque a Itália é a sociedade mais velha do mundo, com o Japão. Na Europa é a sociedade mais velha. [Os partidos do centro e do centro-esquerda] precisam de ouvir a juventude e dar-lhe protagonismo, não a colocar num canto", acrescentou o antigo presidente do Partido Democrático (2021/2023).
"A juventude italiana é uma pequena minoria do país, pelo que acho que se tem de dar o direito de votar aos 16 anos, para aumentar a consistência da votação da juventude, para dar uma garantia aos que têm 18 anos, para dar-lhes a possibilidade de ter um futuro, de investir no seu futuro. Se não, a população italiana continuará a enfrentar uma drenagem de 'cérebros'. Precisamos dar resposta aos jovens", defendeu o ex-primeiro-ministro (2013-2014), que liderou um governo de coligação de centro-esquerda e centro-direita.
Para Letta, o novo governo a sair das legislativas "tem de ser mais atento e dar esperança", pois tal é "absolutamente importante para o futuro do país".
Questionado pela Lusa sobre se tenciona regressar a política ativa, Letta respondeu que está "absolutamente fora de questão".
"Absolutamente. Eu tenho um longo período de vida política, mas saí de cena, pois acho que o meu ciclo político terminou. Estou na academia, estou muito feliz e trabalho para ajudar a União Europeia na integração do mercado único", frisou Letta, que também é decano na Universidade IE (Espanha).
Apesar de a atual legislatura só acabar em outubro de 2027, a generalidade dos analistas acredita que as eleições em Itália deverão ter lugar na primavera ou no início do verão do próximo ano.
Letta é o autor do relatório com o seu nome intitulado "Muito Mais do que Um Mercado", um documento estratégico independente sobre o futuro do Mercado Único da União Europeia, apresentado em abril de 2024 ao Conselho da UE e destinado a aumentar a sua competitividade face a potências como os Estados Unidos e a China.
O relatório defende a integração profunda de setores historicamente fragmentados, como a energia, as telecomunicações e os serviços financeiros, e introduz o conceito de uma "quinta liberdade" focada na investigação, inovação e conhecimento, além de propor a mobilização de poupanças privadas europeias para financiar a transição verde e digital e garantir a coesão territorial através do direito dos cidadãos de prosperarem nas suas regiões de origem.
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