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Israel: Da América para Telavive para votar e "salvar a democracia"

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Minuto Fonte Externa
26 de outubro de 2026 • 7 min de leitura
Israel: Da América para Telavive para votar e "salvar a democracia"

Yael, Benny e Gidi, três israelitas residentes nos Estados Unidos, acabam de chegar a Telavive para mudar o governo e "salvar a democracia", juntando-se a outras dezenas de milhares de eleitores no estrangeiro que viajaram expressamente para votar.

 

A menos de 24 horas das eleições legislativas em Israel, uma das mais incertas de sempre e vistas como um referendo ao atual primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, as estimativas variam entre 50 mil e quase 70 mil eleitores que não podem votar no exterior, mas que regressaram ao seu país para comparecer nas assembleias de voto.

"Desde janeiro de 2023 que o Governo de Israel declarou guerra à democracia", justifica à Lusa Yael Meroz, habitante em Washington, referindo-se à controversa reforma judicial que Netanyahu procurou executar no início do mandato e que levou a manifestações em grande escala por todo o país, em protesto contra uma política encarada como manipulação da justiça.

Chegada há poucos dias a Telavive, a eleitora israelita não perdeu tempo e participou no sábado à noite na megaconcentração no centro da cidade para exigir uma comissão de inquérito independente aos ataques do grupo islamita Hamas, em 07 de outubro de 2023 no sul de Israel.

O chefe do Governo recusou até agora criar uma estrutura de investigação sobre o dia mais sangrento de Israel, enquanto enfrenta uma torrente de suspeições sobre a sua atuação desde aquele dia, que se soma a um julgamento por corrupção. No domingo, o seu principal adversário e líder do partido Yashar!, o ex-general Gadi Eisenkot, prometeu que será o seu primeiro ato de gestão se chegar ao poder.

"Netanyahu assumiu como missão enfraquecer todos os mecanismos de controlo e equilíbrio com o primeiro-ministro e o governo. Enfraqueceu o Knesset [parlamento] e o Supremo Tribunal ao ponto de Israel ficar tão dividido e fragilizado que o Hamas viu uma oportunidade no 07 de Outubro", prossegue Yael, que traz uma 't-shirt' azul com a frase "salvar a democracia".

A analista empresarial na capital norte-americana considera que o líder israelita tem sido "um desastre absoluto" e deixou o país numa posição "muito mais fraca a nível mundial e em termos de segurança nacional" do que no estava em 06 de outubro, véspera dos ataques das milícias palestinianas. O seu lugar é "em casa ou na prisão".

Além disso e a par da "segurança e a proteção de Israel", o próximo governo deve mudar a imagem do país no mundo, nomeadamente na ONU, com a qual tem estado em confronto aberto desde o início da guerra na Faixa de Gaza. Mas também "reparar as relações com as outras nações que são os seus aliados naturais e pôr fim a esta loucura" dos últimos anos, marcados por várias frentes de combate - na Palestina, no Líbano e contra o Irão.

"As guerras, porque há várias, não podem ser decididas recorrendo exclusivamente à força militar", defende a israelo-americana, que pede negociações e acordos de paz com todas as partes, com o Líbano, com o Irão e "com quem quer que seja" - e incluindo "o reconhecimento de crimes de guerra"-, que conduzam também a um afastamento do Hamas na Faixa de Gaza, de modo a que os dois povos "possam coexistir".

Sem partilhar o seu sentido de voto nas legislativas, esta eleitora integra um contingente de mais de 800 mil israelitas no exterior, que, com exceção de diplomatas e militares, estão impedidos de votar, a menos que o façam no seu país.

A Aid Coalition, uma organização não-governamental sediada nos Estados Unidos que apoia a logística das viagens destes eleitores através do programa "voe e vote", estima que 67 mil estarão nas assembleias de voto na terça-feira, em grande parte norte-americanos e canadianos, mas as proveniências atravessam o globo inteiro, incluindo Portugal.

Esta vaga junta-se a um universo de 7,3 milhões de cidadãos elegíveis para votar e pode contribuir para a definição dos resultados numa eleição altamente incerta e que confere aos partidos mais pequenos a possibilidade de influenciar a formação de uma coligação governamental.

As últimas sondagens continuam a colocar o Yashar! ligeiramente à frente do Likud, de Netanyahu, embora nenhum dos dois partidos consiga a maioria de 61 lugares para controlar o Knesset, nem através de alianças pós-eleitorais com os grupos pró-governamentais ou do chamado bloco da mudança, que precisaria do apoio extra das duas forças árabes.

No mês passado, o primeiro-ministro foi recebido em Nova Iorque com protestos de israelitas e judeus residentes nos Estados Unidos, devido às suas campanhas militares no Médio Oriente e escalada de violência na Cisjordânia ocupada, antes de se dirigir à assembleia-geral da ONU, onde dezenas de delegações nacionais boicotaram o seu discurso e abandonaram a sala.

Não é clara a preferência partidária do conjunto dos eleitores que pagaram do seu bolso para viajar milhares de quilómetros e votar, mas a maioria dos que falaram com a Lusa e outros meios 'media' internacionais e israelitas defendem uma mudança.

É o caso de Benny, que também deixou Washington para votar e para que os israelitas na diáspora tenham "um Estado inclusivo, que não seja fanático nem fundamentalista, mas democrático e um refúgio seguro para os judeus".

Em concreto, condena a alianca do Likud com forças de extrema-direita, lideradas pelos ultranacionalistas Itamar Ben-Gbir e Bezalel Smotrich, que são "uma mancha" no seu judaísmo.

"Estou disposto a gastar o meu dinheiro para garantir que estas pessoas nunca mais façam parte de um governo", declara Benny, que acaba de se reformar aos 66 anos.

Por fim, adiciona outra "razão muito boa" para votar, ao sustentar que "não há condições para que o Governo durante o massacre do 07 de outubro volte ao poder", tendo juntado a sua voz aos cerca de 100 mil participantes estimados pela organização no protesto na praça dos Reféns em Telavive, para exigir responsabilização sobre os acontecimentos daquela manhã de 2023.

A imagem de um chefe de Governo em fim de linha, mas que continua vivo nas sondagens, foi explorada numa das derradeiras ações de campanha do Yashar! (íntegro ou justo), na noite de domingo no porto de Telavive, ao projetar retratos dos dois principais candidatos, Eisenkot em fundo azul e Netanyahu a vermelho, acompanhadas da frase: "Se não for Gadi, é Bibi", em referência à alcunha do líder israelita.

Entre uma multidão de candidatos e apoiantes de Eisenkot, que o aclamava como "próximo primeiro-ministro", estava outro israelita residente na América, com a missão de votar numa "eleição de grande importância histórica".

Recém-chegado de Nova Iorque, Gidi Grinstein acredita que o ex-general "é a pessoa certa neste momento, tanto pelas suas qualificações pessoais como em matéria de política externa e segurança", ao apresentar-se com "um percurso perfeito, que veio das margens da sociedade israelita e chegou ao mais alto nível nas forças armadas".

Nos Estados Unidos, este eleitor israelita casado com uma portuguesa que dirige o Grupo Reut, uma organização não-governamental vocacionada para o pensamento estratégico de Israel, vê também no ex-general um dirigente que "tem as ideias certas" em relação às frentes de guerra que o país se encontra.

"Eisenkot afirma que vai voltar ao plano do [Presidente norte-americano, Donald] Trump, que é o que precisamos em Gaza. Da mesma forma, também tem as ideias certas para o Líbano, para a Síria e dará conta do recado", contribuindo também para a imagem de Israel, ao prometer acabar com a violência dos colonos radicais na Cisjordânia.

Se o antigo general for eleito e conseguir formar "um governo ao centro" nos ajustes pós-eleitorais, "a imagem de Israel só pode melhorar", segundo Gidi Grinstein, enquanto deve procurar unir a sociedade israelita, que "está em crise" e tem agora "uma oportunidade para sair dela".

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