Israel. Omri quer parar o ódio a partir das cinzas do Kibutz Be'eri
Entre a reconstrução do Kibutz Be'eri, que perdeu 102 residentes no 07 de Outubro, um educador e ativista lidera um movimento para mudar o pensamento de israelitas e palestinianos, porque não se pode viver "sob a lei da espada".
Omri Shifroni, 41 anos e pai de três filhos, nasceu e cresceu em Be'eri, educado numa base "sionista, democrática e humanista", e tendo "sempre em mente" que os palestinianos estão apenas a cerca de quatro quilómetros desta comunidade do sul de Israel e "não vão para lado nenhum".
Esta mentalidade acompanhou a sua formação como educador e depois como cofundador do Kumu (ergue-te), um movimento que assumiu dimensão nacional após ter sido fundado por famílias atingidas pelo 07 de Outubro e que pretende partir dos acontecimentos daquela manhã de 2023 para formar "uma nova geração de líderes".
Na véspera de umas eleições legislativas dominadas pela incerteza e pelo peso dos ataques do grupo islamita Hamas, que há três anos mataram cerca de 1.200 pessoas nesta região, Omri Shifroni espera uma mudança de governo na votação de terça-feira. Mas o seu trabalho é uma maratona de longo prazo que não se encerra num ciclo político de quatro anos.
"Claro que Israel precisa de uma nova liderança que assuma responsabilidades e encontre novas soluções para a situação do povo de Gaza e dos palestinianos da Cisjordânia, porque não se pode viver para sempre sob a lei da espada", afirma à Lusa.
Mas espera sobretudo que "a memória do 07 de Outubro se torne num ponto de partida para mudar a forma de pensar em Israel e os valores de Israel", assinala na mesma casa onde se escondeu 12 horas dentro de um abrigo antiaéreo, durante os ataques das milícias palestinianas, que mataram dois tios e dois sobrinhos gémeos de 12 anos.
Os ataques começaram pouco depois das 06:30 daquele sábado em Be'eri e outros kibutzim da região, além do festival de música Nova, que decorria nas imediações, quando, recorda, "mais de 300 terroristas, talvez 400, começaram a ir de casa em casa para cometer assassínios e pegar fogo às construções".
Cento e duas pessoas morreram neste lugar e outras 30 foram levadas para a Faixa de Gaza como reféns.
Antes de ser invadida, a comunidade possuía cerca de 1.200 habitantes e apenas seis armas pessoais, que foram usadas para se defender até á chegada dos militares israelitas: "Foram uns heróis e salvaram muitas famílias, apesar de, claro, não terem salvado as que já estavam perdidas".
Vinte soldados foram também abatidos nos combates que se prolongaram três dias.
"Eu, a minha mulher e dois filhos estávamos na casa do meu pai. Os terroristas entraram, dispararam no interior, mas felizmente não tentaram abrir a porta do abrigo", recorda ainda, na reconstituição daquela manhã.
Enquanto permaneceu no abrigo, teve pouco contacto com o mundo exterior, embora estivesse informado da escala dos ataques no sul do país, mas ignorando que os seus outros quatro familiares tinham sido reunidos numa casa a menos de cem metros de distância num grupo de 15 pessoas, das quais apenas duas sobreviveram.
Três anos depois, parte do kibutz é um estaleiro, entre movimentos de máquinas e trabalhos de reconstrução, exibindo residências térreas brancas quase prontas a reabitar e outras que continuam carbonizadas e em ruínas.
O jardim-de-infância mantém-se fechado, mas a gráfica, que é um dos motores de Bee'ri, está a produzir "e saudável".
Apenas cerca de uma centena de moradores voltaram. Os outros são esperados quando os trabalhos estiverem concluídos e a vida regresse à superfície árida deste local vedado e agora protegido em permanência pelo exército.
"Nenhuma comunidade, por mais pequena que seja e que tenha perdido 100 pessoas num só dia, pode voltar a ser igual. Vai ser um lugar cheio de vida, onde as crianças correm, riem e brincam na relva, e feliz para se viver, mas definitivamente não será o mesmo", lamenta.
A geografia não será porém alterada e a fronteira da Faixa de Gaza continuará a permanecer a dois pares de quilómetros de Be'eri.
Omri Shifroni observa que "o medo sempre fez parte" das vidas destes israelitas e vai continuar a ser, na medida em que "os terroristas do Hamas ainda estão lá e continuam a governar" o enclave palestiniano, apesar da campanha militar em grande escala das forças israelitas desde 2023.
"O povo de Gaza vai continuar lá e nós vamos ficar aqui. Ninguém vai para lado nenhum. Temos de encontrar uma forma de vivermos, não juntos, mas lado a lado", sustenta, advertindo que "o ódio é fomentado sobretudo pelo medo" de parte a parte.
Só que esta coexistência, defende, "não pode acontecer sob domínio de uma organização terrorista e é preciso, antes de tudo, desarmar o Hamas, para que se possa conversar", uma iniciativa contemplada no roteiro de paz proposto pelos Estados Unidos, um ano após o cessar-fogo em vigor no território, apesar das sucessivas acusações mútuas de violação da trégua e continuação dos ataques israelitas.
A proposta colidiu com a recusa do primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, em retirar as suas tropas do enclave até que o grupo palestiniano entregue as suas armas, e as negociações de paz caíram num impasse, sendo um tema chave das próximas legislativas em Israel.
As últimas sondagens indicam que o Yashar!, do ex-chefe das Forças Armadas Gadi Eisenkot, tem ligeira vantagem sobre o Likud, de Netanyahu, mas em ambos os casos nenhum deles consegue a maioria de 61 lugares para controlar o parlamento, nem através de alianças pós-eleitorais com forças pró-governamentais ou do chamado bloco da mudança, a não ser que este último se entenda com os partidos árabes.
Com horizontes mais vastos no calendário, Shifroni acredita que é preciso "reeducar a população de Gaza, após décadas em que foi incitada ao ódio pelo Hamas", do mesmo modo que, tanto em Israel como no território vizinho, "a guerra não é, sem dúvida, a solução".
Receia no entanto que "a paz também não seja a solução neste momento", uma vez que "é difícil alcançá-la quando há tanto ódio", o que reclama "um novo sistema educativo" nos dois lados da fronteira.
"É por isso que estamos a tentar que todas as pessoas, todas as comunidades, se sintam parte da história do 07 de Outubro. Porque isto afetou toda a gente", destaca o ativista, sobre o trabalho do Kumu, que realiza a única cerimónia nacional de memória do dia mais sangrento do país.
A polarização nestas legislativas reflete "uma sociedade muito dividida", segundo o israelita de Be'eri, e a iniciativa nacional do 07 de Outubro acaba por funcionar como casa de partida para refletir os acontecimentos daquela manhã, "quer se trate de soldados, de membros de um partido, de pessoas dos kibutzim ou em cidades como Ofakim e Sderot", nas imediações da Faixa de Gaza.
"Estamos a proporcionar uma forma de reconstruir os valores do país, através das suas histórias - de uma pessoa árabe ou da direita religiosa - e que realmente aconteceram, na base da dor comum para nos unirmos nos próximos anos", esclarece.
Toda esta região às portas do deserto de Negev é perseguida pela assombração do 07 de Outubro, não só Be'eri, mas também os kibutzim de Nir Oz e Kfar Aza, além do festival Nova, onde cerca de 350 pessoas foram mortas e dezenas levadas como reféns.
Foi para lá que um taxista de Ashkelon se dirigiu quando começou a receber vídeos do irmão mostrando a namorada a ser agredida.
"Quando cheguei lá, estava morta. Mais tarde soube que o meu irmão também morreu", relata à Lusa Ofir, 52 anos, exibindo a bandeira de Israel e a data de 07 de outubro de 2023 tatuadas no braço direito.
Além das duas perdas, conta que o seu filho sobreviveu mas foi levado em mau estado para o hospital e ele próprio acabou por conseguir fugir das imediações do festival. Mas antes disso foi severamente agredido. Quando voltou a Ashkelon, o seu prédio tinha sido atingido por um 'rocket' do Hamas.
"Há muitas histórias destas por aqui", comenta o fundador do movimento Kumu, refletidas no recinto do festival Nova, tornado num lugar de memória às vítimas de um "ataque cruel e bárbaro", como se descreve à entrada, e também de visitas, reflexões e sessões de esclarecimento organizadas.
Várias dezenas de visitantes deambulam entre instalações artísticas, eucaliptos e acácias resistentes à aridez desértica, que enquadram centenas de homenagens às vítimas, com os seus nomes, retratos, velas e até pequenas biografias.
Em alguns casos, foram deixados objetos pessoais, como peças de roupa, um livro ou o cachecol de um clube de futebol, que pertenceram a nomes ausentes nos cadernos eleitorais na próxima terça-feira, mas que de algum modo estarão presentes numa votação decisiva.
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