Moedas prestes a completar 5 anos à frente da CML. Recorde o percurso
Carlos Moedas (PSD) completa no domingo cinco anos à frente da Câmara de Lisboa, num percurso marcado pelo trágico acidente do elevador da Glória, cerca de um mês antes das autárquicas em que foi reeleito para o segundo mandato.
Eleito em 2021 pela coligação minoritária "Novos Tempos" (PSD/CDS-PP/MPT/PPM/Aliança) com apenas sete dos 17 vereadores, Moedas, que tomou posse a 18 de outubro desse ano, enfrentou um bloco maioritário de esquerda (PS, PCP, BE e Livre) que detinha 10 mandatos.
Em 2025 foi eleito para o segundo mandato, pela coligação PSD/CDS-PP/IL, com oito eleitos (incluindo o presidente), ficando a um mandato de obter a maioria absoluta. Alcançou-a em fevereiro deste ano, com a delegação de competências na vereadora independente Ana Simões Silva, que se desfiliou do Chega.
A oposição tem apontado questões como problemas na higiene urbana e a crise da habitação como falhas da liderança de Moedas, criticando ainda a aproximação ao Chega para a aprovação de decisões relevantes na governação da cidade.
A Lusa pediu uma entrevista ao presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML), mas não obteve resposta.
Eis os pontos essenciais dos cinco anos de Carlos Moedas como presidente da Câmara de Lisboa:Elevador da Glória
O caso mais grave da sua governação envolveu o descarrilamento do icónico elevador da Glória, em 03 de setembro de 2025, que causou 16 mortos.
Moedas enfrentou fortes pressões para se demitir e, recentemente, foi criticado por contradições públicas relativamente aos contactos com as famílias das vítimas.
Inicialmente, o autarca disse ter falado diretamente com todas as famílias das vítimas, mas, um ano após a tragédia, os familiares denunciaram, em carta aberta, a falta de contacto direto e um "ano de silêncio" por parte da CML.
O social-democrata veio, então, esclarecer que a lei o impede de contactar diretamente as famílias e que os contactos foram feitos através das embaixadas ou do gabinete municipal, uma contradição que motivou duras críticas da oposição, às quais o presidente da CML respondeu com acusações de "politização ofensiva".
A Assembleia Municipal de Lisboa (AML) aprovou a proposta do PS para criação de uma comissão eventual sobre o acidente, que deverá arrancar em breve.
A comissão incidirá em matérias como a implementação das recomendações de segurança, as alterações aos mecanismos de controlo interno e de gestão da segurança da transportadora Carris, a contratação e fiscalização da manutenção, as auditorias em curso, as medidas de apoio e reparação às vítimas, as condições de regresso dos equipamentos históricos à operação e o desenvolvimento da nova instalação do ascensor da Glória.
Jornada Mundial da Juventude 2023
O maior evento internacional acolhido pela cidade durante a sua gestão resultou na reconversão urbana do Parque Tejo, mas valeu-lhe críticas relativamente ao investimento de até 35 milhões de euros por parte do município, incluindo 4,2 milhões para o altar-palco, valor reduzido para 2,9 milhões de euros após forte contestação.
Segundo a CML, daquele valor de investimento, 25 milhões foram aplicados diretamente em melhorias e infraestruturas permanentes para a cidade.
Habitação
A crise da habitação em Lisboa é um dos problemas mais graves que a governação de Moedas enfrenta e tem levado à saída de moradores para a periferia, à falta de professores, polícias, médicos ou enfermeiros - que não conseguem encontrar habitação em Lisboa compatível com os seus salários - ou ao aumento de situações de habitação precária e sobrelotada.
A situação tem motivado alguns protestos nas ruas da capital e críticas da oposição à "incapacidade" do executivo para responder de forma adequada ao problema.
A liderança garantiu para 2026 "uma aposta enorme na habitação", com mais de 520 fogos em construção nova e reabilitação para concluir e outros cerca de 500 fogos habitacionais em projetos para concretizar, entre outras medidas.
Quanto ao alojamento local, a CML aprovou a alteração do regulamento municipal, reduzindo os rácios de 20% para 10% nas denominadas áreas de contenção absoluta e de 10% para 5% nas áreas de contenção relativa.
Em março de 2023, Moedas foi alvo de críticas de vários partidos por participar numa manifestação de empresários e proprietários do alojamento local contra as restrições ao setor propostas pelo Governo, mas nunca ter marcado presença em manifestações pelo direito à habitação.
Segurança
Moedas tem manifestado preocupação quanto à segurança na capital, exigindo mais meios ao Governo, que já prometeu mais 200 polícias para a PSP e mais 100 para a Polícia Municipal.
A CML tem também o objetivo de instalar 251 câmaras de videovigilância em várias zonas da cidade, num investimento de 18 milhões de euros.
Em agosto deste ano, Moedas protagonizou uma nova polémica após ter considerado "inaceitável" a decisão judicial de libertar um dos detidos após um desacato na Baixa de Lisboa em que uma turista foi baleada.
Sem reconhecer a presunção de inocência, Carlos Moedas afirmou: "Como presidente da capital de Portugal, repudio em absoluto terem libertado um criminoso! Não é só a imagem de Lisboa que fica em causa. É a imagem de Portugal!". Em setembro, a Polícia Judiciária descartou as suspeitas contra aquela pessoa.
Lixo
A oposição tem acusado a liderança de incompetência na gestão da higiene urbana, denunciando a acumulação de lixo na via pública, contentores a transbordar, falta de limpeza regular, proliferação de pragas (como ratos e baratas) e aumento das queixas de munícipes.
O executivo municipal aprovou medidas de reforço de meios e reorganização da recolha e higiene urbana, incluindo a compra de 10 novos camiões de recolha de lixo.
Moedas tem criticado o sistema Volta, considerando que este incentivo à reciclagem está a provocar "problemas sociais graves" na capital, com pessoas a vasculhar caixotes lixo para recuperar os 10 cêntimos por embalagem.
Transportes e Mobilidade
Em 2022, Lisboa implementou a medida de transportes públicos gratuitos para jovens e idosos, através de um acordo com a Transportes Metropolitanos de Lisboa (TML).
Em 2025, entraram em vigor restrições à circulação e estacionamento dos 'tuk-tuk' e TVDE (transporte individual e remunerado de passageiros em veículos descaracterizados a partir de plataforma eletrónica).
Carlos Moedas reduziu ainda para metade o número de trotinetes partilhadas na cidade, negociando com os operadores, e garantiu que iria tomar medidas para combater comportamentos de risco por parte de utilizadores deste meio de transporte. Esta semana anunciou que o sistema de trotinetes partilhadas vai ser suspenso, um tema que deverá ser levado à reunião do executivo da próxima semana.
Jacarandás
A contestação em torno dos jacarandás da Avenida 5 de Outubro foi motivada pelo plano de remoção e pelo abate de dezenas de árvores adultas para a construção de um parque de estacionamento subterrâneo, integrado na grande operação urbanística de Entrecampos.
O plano inicial previa a remoção de 47 árvores no eixo da Avenida 5 de Outubro, definindo que seriam mantidos 30 dos 75 jacarandás existentes, 20 transplantados (a que se juntariam dois plátanos) e os restantes 25 abatidos. Simultaneamente, o projeto determinava que seriam replantados 39 jacarandás, a que se juntariam 49 outras árvores.
O descontentamento gerou manifestações na rua e deu origem a uma petição pública - "Não ao abate dos jacarandás da Avenida 5 de Outubro" - que reuniu mais de 50 mil assinaturas.
A autarquia reformulou os planos, reduzindo o número de transplantes para "apenas três", em vez de 20, e pedindo a reavaliação dos 25 abates previstos.
Detenção do secretário-geral da autarquia
Em março deste ano, a CML foi alvo de buscas relacionadas com a operação "Lúmen", investigação sobre um alegado esquema criminoso com o fornecimento e a instalação de iluminações festivas, que resultou na detenção do então secretário-geral da autarquia, Alberto Laplaine Guimarães - indiciado por corrupção passiva -, da presidente da União de Associações de Comércio e Serviços (UACS), Carla Salsinha, e de um administrador e um funcionário da Castros Iluminações Festivas.
A CML abriu um inquérito à Secretaria-Geral do município, para apurar eventuais irregularidades no protocolo com a UACS.
"Chic-Nic"
A realização do evento "Um Domingo na Avenida - Chic-Nic Musical", no Parque Eduardo VII, em maio deste ano, gerou controvérsia, devido ao apoio de 75 mil euros do município e a isenção de taxas municipais à produtora privada da iniciativa, que cobrava 150 e 300 euros pelos bilhetes.
A autarquia justificou que este montante se destinava exclusivamente a cobrir a componente cultural de acesso gratuito (os concertos de David Fonseca e da Orquestra Académica Metropolitana).
Fábrica de Unicórnios (Hub do Beato)
Lançada em 2022 na Web Summit, por iniciativa da CML, a Unicorn Factory Lisboa (Fábrica de Unicórnios Lisboa), no Hub Criativo do Beato, tem como objetivo potenciar 'startups' e 'scaleups' nacionais e internacionais.
O projeto foi alvo de polémica devido à associação com a empresa tecnológica de tradução e inteligência artificial Unbabel, declarada insolvente em março e que tinha recebido cerca de 13,3 milhões de euros de fundos públicos do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).
Plano Geral de Drenagem de Lisboa
Considerado uma obra importante para enfrentar cheias e inundações na capital, o plano de drenagem foi anunciado em 2006 pelo então presidente da CML, António Carmona Rodrigues (independente, apoiado pelo PSD), mas só avançou em 2015, com Fernando Medina (PS) na presidência da autarquia.
Ainda assim, as grandes intervenções, nomeadamente a construção dos túneis, só arrancaram em 2023, sob a governação de Carlos Moedas.
Em declarações recentes ao canal televisivo Now, o autarca revelou que as obras num dos túneis estavam paradas desde maio por causa da descoberta de vestígios arqueológicos, criticando ainda a Lei de Bases do Património Cultural e defendendo uma alteração legislativa para que haja um prazo de realização de intervenções arqueológicas.
"Cada dia em que a obra está parada são 15 mil euros que os lisboetas pagam. Estamos parados desde maio com custos de mais de dois milhões de euros", disse Carlos Moedas, motivando críticas do Sindicato dos Trabalhadores de Arqueologia (Starq) e da oposição.
Alterações ao regimento e participação dos munícipes nas reuniões da CML
A oposição em Lisboa tem acusado a governação de Carlos Moedas, desde o primeiro mandado, de dificultar a participação de munícipes nas reuniões públicas da CML e de falta de transparência na seleção das intervenções, enquanto a liderança PSD/CDS-PP/IL garante que as regras não mudaram e rejeita critérios políticos.
Moedas aprovou também, em novembro de 2025, um novo regimento da Câmara de Lisboa com o apoio do Chega, sob críticas dos partidos de esquerda de "retrocesso democrático" por concentrar poderes no presidente da câmara e reduzir tempo de intervenção à oposição.
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