Xamã Yanomami apela ao apoio da Europa contra a destruição da Amazónia
O público do Folio partilhou hoje uma "roda de escuta" com Davi Kopenawa, em que o xamã apelou ao apoio da Europa contra a destruição da floresta amazónica, alertando para a possibilidade de acontecer se Flávio Bolsonaro for eleito.
"Não podemos deixar que o homem destrua a floresta yanomami e é por isso que aqui estou, a pedir o apoio da Europa", afirmou hoje no Folio – Festival Literário Internacional de Óbidos Davi Kopenawa, porta-voz do povo Yanomami, reconhecido internacionalmente pela defesa dos direitos indígenas e pelo combate contra o garimpo ilegal naquele território indígena.
O xamã (mediador entre o mundo físico e espiritual, que atua como guardião da sabedoria de sua comunidade) e coautor do livro "A Queda do Céu: Palavras de um Xamã Yanomami" (2010), escrito em parceria com o antropólogo francês Bruce Albert, protagonizou hoje "uma roda de escuta", em que o público se sentou no chão da tenda de autores para ouvir os alertas sobre a "urgência" de defender o território yanomami.
Davi Kopenawa, que começou por falar na língua indígena para "mostrar que está viva", falou depois em português do Brasil, língua que aprendeu "para partilhar com outros povos a luta pela floresta" amazónica, mas também "pela terra planeta".
"Somos todos um povo, brancos, negros, índios", mas "o povo da cidade quer acabar com a nossa terra yanomami", disse o xamã, acusando "os políticos indignos que só querem acabar com a floresta, com o nosso povo, para tomar o nosso lugar".
"Estou a falar de Flávio Bolsonaro", precisou, sustentando que, se este candidato for eleito na segunda volta das eleições presidenciais do Brasil, "vai imitar os erros do pai [Jair Bolsonaro] e desrespeitar a Amazónia, como o pai dele desrespeitou", permitindo que "a desmatação e o garimpo ilegal matem o povo yanomani".
Se assim for, assegurou, Flávio Bolsonaro contará com a oposição do povo yanomani, que, "sem armas, nem bombas", continuará as "usar as palavras como flechas" para levar a todo o mundo a mensagem de que "o sub-solo é património do planeta" e que não adianta "andar a retirar ouro, diamantes ou petróleo" quando o que importa é "cuidar da água, dos frutos, do que alimenta".
Na sessão, em que o público deixou o seu apoio à luta de Kopenawa, o xamã deixou também o apelo para que todos e cada um, "nas suas cidades, nos seus países, não se calem, sejam guerreiros e lutem pela terra, que é una, como todos os povos são um".
Os Yanomami são um dos maiores povos indígenas relativamente isolados da América do Sul, com uma população de cerca de 45.000 pessoas que vivem da caça, pesca e agricultura.
O Fólio decorre até domingo, sob o lema "Para além da pele", trazendo à vila do distrito de Leiria 450 autores que, ao longo de 11 dias, participam em cerca de 300 iniciativas.
O festival realiza-se desde 2015, ano em que a vila de Óbidos passou a estar integrada na Rede de Cidades Criativas da UNESCO, como Cidade da Literatura.
Organizado pelo município e pela empresa municipal Óbidos Criativa, o festival tem como parceiros a Fundação INATEL e a Livraria Ler Devagar.
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