"Não é com violência que vão esmagar a luta pelo direito à habitação"
Na Acampada de Lisboa desde o primeiro dia, Mariana Carneiro diz que já foi agredida duas vezes pela polícia, mas promete continuar na rua a lutar pelo direito à habitação, como hoje frente ao parlamento, recusando intimações e ameaças.
"Podem ter a certeza absoluta que não é com intimidação, não é com ameaça e não é com uma violência atroz que faz lembrar a ditadura, não é assim que vão esmagar a nossa luta que é legítima e que representa a esmagadora maioria da população neste país que não consegue ter acesso a uma casa digna para viver", disse Mariana Carneiro, em declarações à Lusa.
A manifestante, uma dos milhares que enchem desde o final da tarde de hoje o largo em frente à Assembleia da República, em Lisboa, e as ruas adjacentes, contou à Lusa que integra a Acampada de Lisboa desde o primeiro dia, considerando tratar-se de "uma luta que é digna, que é legitima, que é legal e que é um direito constitucional".
"Já são mais de 10 dias de luta", notou, insistindo que os manifestantes pelo direito à habitação têm estado a exercer o "direito constitucional de liberdade de expressão e liberdade de manifestação", mas, ao mesmo tempo, têm sido "confrontados com uma violência atroz" por parte das autoridades policiais.
"Eu, aliás, fui agredida nas duas cargas policiais. Na primeira partiram-me o dente, abriram-me o lábio, na segunda carga policial levei bastonadas e fui atirada para o chão, por isso é que estou com o joelho completamente enfaixado, foi uma violência extrema, sem qualquer justificação", salientou.
Por isso, continuou, é preciso que sejam "apuradas responsabilidades cabais", tanto da parte das forças policiais que agrediram ao manifestantes, mas também de "quem as mandou, quem as lançou para a rua enfrentar os manifestantes pacíficos, ordeiros e legítimos com uma força de intervenção armada até aos dentes, à bastonada, com balas de borracha".
"Isto é inacreditável, lembra outros tempos, isto é um precedente gravíssimo", insistiu, apelando à continuação dos protestos na rua.
"Temos de continuar as mobilizações, as mobilizações têm de crescer, nós estamos na rua, não é assim que vão esmagar as nossas convicções", disse.
Com cartazes e gritando palavras de ordem, muitos cidadãos responderam à mobilização para hoje, que junta o movimento que organizou a Acampada de Lisboa, no Rossio, e a plataforma Casa Para Viver.
Ao contrário do que se tem verificado nas concentrações realizadas na praça do Rossio, organizadas pela Acampada de Lisboa e que juntam maioritariamente jovens, hoje junto à Assembleia da República havia mais diversidade etária e também menos adereços associados a causas como a Palestina.
A manifestação ocorre no dia em que começou no parlamento a discussão na generalidade da proposta do Governo de Orçamento do Estado para 2027 (OE2027).
Durante a madrugada de domingo, a PSP dispersou, à bastonada e com recurso a cães, as manifestações pelo direito à habitação em Lisboa e no Porto, após mais de duas horas de tensão e ordens para que as pessoas saíssem e as tendas fossem retiradas.
Os manifestantes não acataram as ordens, invocando o direito constitucional à manifestação.
Segundo a PSP, registaram-se, no total, 33 feridos e 33 detidos por desobediência. Em comunicado, as organizações das acampadas referiam dezenas de feridos.
A Inspeção-Geral da Administração Interna (IGAI) abriu um processo na sequência das intervenções policiais que aconteceram na madrugada de domingo em Lisboa e no Porto. Também a provedora de Justiça pediu à PSP, com caráter de urgência, informações sobre a carga policial na madrugada de domingo sobre os manifestantes.
Os partidos de esquerda criticaram a intervenção policial e pediram esclarecimentos ao primeiro-ministro e a intervenção do Presidente da República, António José Seguro.
O chefe de Estado apelou hoje ao diálogo sobre a habitação "e nunca à violência", afirmando que não gostou das imagens que viu, mas que aguarda o resultado dos inquéritos sobre a atuação policial sobre manifestantes.
Os manifestantes exigem a reversão da nova lei do arrendamento, o fim das demolições e dos despejos sem alternativa habitacional, um travão à aquisição de habitação por fundos imobiliários, o aumento da habitação pública, a recuperação de imóveis devolutos para fins habitacionais e tetos "verdadeiramente acessíveis" à renda.
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