PSP "carregou" sobre manifestantes no Porto. 37 terão ficado feridos
O Movimento pela Habitação que está em protesto no Porto desde sábado denunciou que durante a madrugada desta quinta-feira houve uma intervenção policial que causou ferimentos em 37 dos participantes. Dois terão mesmo ficado em estado grave.
"Na madrugada desta quinta-feira, às 2h56, as forças policiais intervieram na acampada pela habitação na Praça D. João I, no Porto, numa operação destinada a pôr termo ao protesto", refere o movimento em comunicado.
De acordo com o movimento, entre as vítimas está uma pessoa com deficiência. Vários participantes na concentração foram hospitalizados e dois terão mesmo sofrido fraturas, o que faz com que as lesões sejam consideradas graves.
O Notícias ao Minuto já está a tentar contactar a Polícia de Segurança Pública (PSP) para obter mais detalhes sobre a situação.
José Soeiro também levou "várias vezes" com cacetete na cabeçaNa sua página de Instagram, o ex-deputado do Bloco de Esquerda (BE) denunciou a carga policial e revelou que também ele foi empurrado e levou "várias vezes com o cacetete na cabeça e nas costas".
"Neste momento, há pessoas acampadas em pelo menos 15 cidades espanholas. Em nenhuma houve cargas policiais, que eu saiba", começou por escrever o bloquista, revelando que o mesmo não acontece na Invicta.
"No Porto, um punhado de bravos e bravas mobilizou muitas centenas de pessoas para lutar pela habitação. Grande sucesso. Uma iniciativa bela, criativa, digna, inspiradora. Pedro Duarte, que atua como um xerife que ignora a Constituição, ameaçou que seria 'absolutamente implacável' contra uma manifestação pacífica, que cumpria todas as regras de segurança e que toca no coração de todas as pessoas que sofrem com a crise da habitação", atirou, garantindo que a polícia de intervenção chegou ao local só "depois de os jornalistas irem embora".
"Eram 2h50, mais minuto menos minuto, a polícia de intervenção chegou e mandou retirar as tendas. Disciplinados, os membros da acampada arrumaram as tendas. Todas. Sem exceção. A polícia teve oportunidade de ver isso. Recolhidas a um canto", disse, acrescentando que, apesar disso, os serviços da Câmara apropriaram-se das tendas, "que já estavam desmontadas e colocadas a um canto", e destruiram-nas, assim como aos "panos com as reivindicações, aos cartazes e aos pertences das pessoas que estavam a dormir (em muitos casos, as mochilas, com telefones, carteiras, tudo".
No seu caso, contou ainda José Soeiro, levaram-lhe "a mochila com livros e uma camisola" "Que lhes sejam úteis", ironizou.
Para o ex-parlamentar, tudo isto aconteceu "sem qualquer motivo". "A polícia de intervenção carregou sobre quem, pacificamente, ocupava o espaço público. Carregou com violência. 35 feridos, pelo menos. Sei do que falo: também eu levei com empurrões e várias vezes com um cacetete na cabeça e nas costas, pelo simples facto de estar a filmar o que acontecia", descreveu, divulgando um vídeo do momento, que poderá ver na galeria acima.
"Há muitos mais e mais graves. Pedro Duarte não é um democrata, ou não mandaria fazer isto. A desproporção e a ilegitimidade desta intervenção indigna qualquer pessoa que defenda a liberdade de expressão. Pela minha parte, digo apenas que não me intimidam nem um pouco. Acredito que seja o mesmo sentimento de muitas outras pessoas que aqui estavam. Não nos calam à força do bastão. Amanhã de manhã, daqui a poucas horas, estarei a trabalhar, para a Universidade em que dou aulas e a que me orgulho de pertencer. E à tarde cá voltarei. Não nos intimidam", assegurou.
A deputada do PS Isabel Moreira já partilhou o vídeo de José Soeiro nas suas redes sociais exige "explicações" sobre o testemunho e as imagens divulgadas.
"A democracia foi abalroada"Quem também esteve no local foi Sérgio Aires, antigo candidato à presidência da Câmara Municipal do Porto.
Na sua página de Facebook, o fotógrafo partilhou várias imagens da carga policial e o seu testemunho. "Pela calada da noite, às 2h50 da madrugada, chegou a polícia de intervenção à Praça D. João I. A Polícia Municipal tinha garantido que não iria intervir e pedido apenas que os manifestantes não fizessem ruído. Pelos vistos, o silêncio era para permitir que a bastonada não acordasse ninguém", salientou.
"Esperaram que a comunicação social fosse embora e tentaram impedir que se filmasse a intervenção. A cobardia torna tudo ainda mais ignóbil: filmar a atuação policial no espaço público não é, por si só, proibido. Tentaram impedir o registo de uma intervenção que deve ser escrutinada e pela qual terão de responder", afirmou, garantindo que a intervenção das autoridades não terminou quando as tendas estava desmontadas.
"Romperam o cordão, dividiram os manifestantes em dois grupos e avançaram violentamente sobre um protesto pacífico. Segundo os relatos dos manifestantes, pelo menos 35 pessoas foram agredidas com gravidade", evidenciou questionando: "Que atos justificaram esta intervenção? Que perigo representavam aquelas pessoas, que tinham cumprido a indicação de desmontar as tendas? Foi lavrado o auto? Foi entregue aos promotores? Quem deu a ordem? Onde estão os pertences que levaram e quando serão devolvidos?".
"Uma coisa é certa: a democracia foi abalroada. E, se pensam que nos fazem ter medo ou recuar, estão muito enganados. Isto só nos dará mais força. Atacam movimentos pacíficos e ordeiros; depois não se queixem se as pessoas deixarem de acreditar nas instituições democráticas e a radicalização ganhar terreno. Não o desejo, obviamente. É precisamente por acreditar na democracia que me revolta vê-la tratada à bastonada por quem tem o dever de a defender", explicou.
Assim, "depois de maltratarem desta forma quem se manifesta pacificamente", enfatizou Sérgio Aires, "semearam uma revolta que não desaparece quando as carrinhas da polícia saem da praça. A pobreza não se resolve à bastonada e o direito à manifestação não fica suspenso quando a comunicação social vai embora".
"Voltaremos à rua, continuaremos a exigir o direito à habitação e não deixaremos estas agressões cair no esquecimento. Se julgam que esvaziar uma praça acaba com uma luta, perceberam muito pouco do que ali estava. Isto não acabou. Foi só o começo", concluiu.
Pedro Duarte "implacável" com tendas na Praça D. João IOs participantes na manifestação pelo direito à habitação voltaram a instalar tendas durante a noite de quarta-feira, depois de o presidente da Câmara do Porto, Pedro Duarte, ter dito na quarta-feira que será "absolutamente implacável com qualquer tentativa de colocação de tendas" na Praça D. João I".
Na nota divulgada pelo Movimento pela Habitação, o mesmo "denuncia veementemente o uso de força extrema, desproporcional e injustificada durante a intervenção policial na acampada, que se manteve, desde o primeiro momento, pacífica, sem nunca incitar à violência".
O Movimento considerou que a "violência exercida" é "inaceitável" e exige "o apuramento rigoroso e independente dos acontecimentos, a preservação das imagens e de outros elementos de prova, o esclarecimento público das circunstâncias da operação e a responsabilização por eventuais condutas ilegais".
Na quarta-feira, em declarações após a manifestação, seguida de assembleia popular, que reuniu mais de 500 pessoas naquela praça da baixa portuense, Pedro Manuel, do Movimento, revelou que a vontade das pessoas, ditada por braço no ar, "foi que continuassem o protesto [contra a crise na habitação] na praça e, novamente, a dormir em tendas".
Sobre a legitimidade para continuarem o protesto na praça, Pedro Manuel assumiu terem "autorização para manifestação até dia 20", argumentando, sobre a questão das tendas "terem o mesmo tipo de autorização que tinha a polícia da câmara quando veio cá retirar as tendas, que é nenhuma, porque não apresentaram ordem de dispersão formal e mantém as tendas apreendidas num processo totalmente feito à margem da formalidade e da burocracia legal".
Movimento quer "crescer e não só no Porto"Outra expectativa do grupo de jovens é a de "continuarem a crescer e não só no Porto", afirmando que estão a apelar para que o mesmo possa "acontecer em outras cidades, como já está convocado em Lisboa para sábado". a crise na habitação] na praça e, novamente, a dormir em tendas".
Na manhã de segunda-feira, a Polícia Municipal retirou as cerca de 50 tendas que estavam armadas naquela praça.
A Câmara garantiu na altura que o acampamento em protesto contra os preços da habitação estava a ocupar indevidamente o espaço público, razão pela qual foi retirado pelas autoridades.
Em comunicado, a autarquia indicou que "a ocupação da Praça D. João I através da instalação de um acampamento foi avaliada pelas entidades competentes e forças de segurança, a quem cabe atuar em conformidade com a lei, não permitindo a ocupação ilegal e degradação do espaço público".
Manifestantes pela habitação vão montar tendas para continuar protestoManifestantes concentrados na Praça D. João I, no Porto, vão manter-se no local e montar tendas esta noite, após decisão em assembleia popular, revelou o porta-voz Pedro Manuel.
Lusa | 21:02 - 14/10/2026Conteúdo importado automaticamente via RSS de Minuto.
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