Quatro finalistas a prémio literário Goncourt abordam memória e perdas
Yannick Haenel, Philippe Jaenada, Clémentine Melois e Sylvain Prudhomme são os quatro escritores finalistas do Prémio Goncourt, hoje anunciados pela academia, com obras que abordam temas como ensino, memória de um crime, perdas afetivas e relação com a natureza.
O escritor francês Yannick Haenel concorre com "La solitude des professeurs est infinie", editado pela Gallimard, um romance inspirado na experiência do próprio escritor como professor de francês num colégio dos arredores de Paris, na década de 1990.
Através de Jean Deichel, personagem recorrente na sua obra, Yannick Haenel acompanha os primeiros anos de um jovem professor confrontado com as dificuldades do ensino, a violência escolar, o isolamento e a falta de apoio institucional, mas também com a possibilidade de a literatura transformar a relação com os alunos.
Yannick Haenel, que já venceu o Prémio Interallié em 2009, com "Jan Karski", e o Prémio Médicis em 2017, com "Tiens ferme ta couronne", integra também a seleção final do Prémio Femina deste ano.
Outro dos finalistas é o escritor francês Philippe Jaenada, com "L'Inconnue du quai de Javel", editado pela Flammarion, que consiste numa investigação literária sobre o assassinato de Louise Cansot, uma jovem de 29 anos que trabalhava como modelo para artistas de Montparnasse e foi encontrada morta em Paris, em setembro de 1949.
A partir de documentos de arquivo e de visitas aos lugares associados à vítima, Philippe Jaenada procura reconstituir a vida da vítima e esclarecer um crime que permaneceu por resolver, recorrendo a métodos de investigação inspirados no comissário Maigret, personagem criada por Georges Simenon.
Este romance integrou também a seleção do Prémio Renaudot de 2026.
Já a escritora francesa Clémentine Mélois concorre com "Choses que je croyais perdues", com edição de L'Arbalète/Gallimard, um romance sobre a memória e a perda, construído a partir dos objetos que uma mulher encontra quando prepara uma mudança de casa após o fim de uma relação amorosa.
A protagonista, Émilie, separada de Tristan depois de sete anos de relação, revisita episódios da vida em comum, da infância e do passado através dos objetos que vai retirando dos armários e colocando em caixas, numa obra em que a critica destacou a capacidade de transformar objetos banais em testemunhos da memória afetiva.
Escritora e artista plástica, Clémentine Mélois integrou durante vários anos o Oulipo, um grupo literário francês dedicado à experimentação formal, do qual saiu em maio deste ano.
O quarto finalista é o também francês Sylvain Prudhomme, com "De l'autre côté du lac", editado pela Minuit, um romance que combina mistério e reflexão sobre a relação entre o ser humano e a natureza.
Segundo a sinopse da editora, a história decorre junto a um lago situado numa região montanhosa, próximo de uma reserva natural interditada à presença humana, onde uma fotógrafa que acompanha um grupo de investigadores começa a observar fenómenos estranhos.
Depois da descoberta de um cadáver, a mulher decide permanecer sozinha na montanha, acabando por desaparecer meses mais tarde.
Os quatro finalistas foram escolhidos entre oito romances que constavam da segunda seleção do Goncourt, ficando de fora, nesta última fase, obras de Boris Bergmann, Sonia Devillers, Anne Godard e Olivier Rolin.
Da corrida ao prémio, foi também excluída, em setembro, pela Academia Goncourt, o romance de estreia do escritor canadiano-haitinao Thélyson Orélien, "C'était ça ou mourir", após acusações de ter sido escrito maioritariamente com recurso a inteligência artificial (IA).
A decisão "é motivada pela vontade de preservar a integridade do Prémio Goncourt e da própria Academia, cujo papel central é promover e distinguir a literatura escrita por mulheres e homens", justificou na altura a instituição, segundo uma noticia da AFP.
"C'était ça ou mourir" ("Era isso ou morrer"), publicado na primavera pela editora canadiana Boréal, estava integrado na primeira seleção de mais de uma dezena de obras candidatas ao Goncourt, cujo vencedor será anunciado no dia 03 de novembro, no restaurante Drouant, em Paris.
Criado em 1903, o Prémio Goncourt tem uma recompensa monetária simbólica de 10 euros, mas representa uma das mais importantes distinções da literatura francesa, habitualmente acompanhada por um aumento significativo das vendas.
No ano passado, o Goncourt foi atribuído a Laurent Mauvignier, pelo romance "La Maison vide", publicado pela Minuit.
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