Sánchez: Saída de ministro ajuda a recuperar confiança na alta velocidade
O primeiro-ministro de Espanha, Pedro Sánchez, considerou hoje que a demissão do ministro dos Transportes ajuda a recuperar a confiança na alta velocidade espanhola após dois acidentes ferroviários em nove meses em que morreram 115 pessoas.
"Com a sua renúncia, Oscar Puente ajuda Espanha a recuperar não só a confiança no nosso sistema ferroviário, mas também na dignidade política", considerou hoje Sánchez, numa declaração a partir do Palácio da Moncloa, em Madrid, a sede do Governo espanhol.
Já o Partido Popular (PP, direita), que lidera a oposição, considerou que a demissão de Oscar Puente é "um teatrinho" a menos de um mês das eleições legislativas espanholas de 29 de novembro e foi motivada pelas sondagens, que antecipam a vitória da direita e o fim dos governos socialistas após oito anos.
Sánchez anunciou hoje que o primeiro vice-primeiro-ministro e ministro da Economia, Carlos Cuerpo, assumirá transitoriamente, até às eleições, a pasta dos Transportes, na sequência da demissão de Oscar Puente.
O ministro dos Transportes demitiu-se na terça-feira à noite, no final de uma audição no parlamento para dar explicações sobre o acidente ferroviário em Urda, Toledo, de 28 de outubro, em que morreram 69 pessoas, e o estado e segurança da rede de alta velocidades espanhola, a maior da Europa e a segunda maior do mundo, a seguir à da China.
O acidente de Urda foi o segundo com vítimas mortais este ano com comboios de alta velocidade em Espanha, depois de em 18 de janeiro terem morrido 46 pessoas em Adamuz, Córdova.
Sânchez elogiou hoje Oscar Puente por na última semana, após o acidente de Urda, ter "dado a cara, ter dado explicações e também ter apresentado soluções que a sociedade exigia e também merecia" antes de se demitir e deixar o cargo.
A demissão do ministro foi pedida, na última semana, por quase todas as forças políticas representadas no parlamento, de esquerda e de direita e incluindo aliados dos socialistas no Governo e no Congresso dos Deputados.
Após quatro horas de audição no parlamento na terça-feira, Oscar Puente anunciou a demissão aos deputados e invocou o exemplo do antigo ministro português e dirigente do PS Jorge Coelho, em 2001, com o acidente da ponte de Entre-os-Rios, em que morreram 59 pessoas.
"Usou então uma frase que quero fazer minha: a culpa não pode morrer solteira", disse Oscar Puente, que nos seis dias anteriores tinha rejeitado demitir-se e afirmado que o seu dever e responsabilidade era manter-se no cargo, esclarecer o ocorrido e apresentar soluções.
Na terça-feira garantiu que, porém, tomou a decisão de se demitir logo após o acidente em Urda.
Um ministro dos Transportes "de um país como Espanha não pode continuar no cargo com dois acidentes dessa gravidade em menos de um ano, por mais diferentes que sejam e tenha ou não responsabilidade direta neles", afirmou.
"É uma questão de dignidade política, de coerência e de empatia com s vítimas", acrescentou.
Oscar Puente justificou a demissão na terça-feira por já ter "cumprido o trabalho mais urgente" após o acidente, nomeadamente, fazer as primeiras investigações para tentar apurar o que ocorreu, avançar com os apoios às vítimas e famílias e adotar medidas de curto prazo e imediatas para "melhorar a segurança" ferroviária.
Essas medidas foram anunciadas na terça-feira, após a reunião seminal do Conselho de Ministros, a se seguiu a audição parlamentar para dar explicações.
Os acidentes de Urda e Adamuz fizeram saltar pra o espaço público críticas e queixas de sindicatos e especialistas em relação à gestão da alta velocidade em Espanha.
Inaugurada em 1992, Espanha possui uma rede ferroviária de alta velocidade de 3.993 quilómetros, que liberalizou e abriu à concorrência no final de 2020.
Três companhias operam comboios de alta velocidade no país e a abertura à concorrência fez disparar o número de passageiros para perto de 44,5 milhões em 2025 (o dobro de 2019), provocando uma intensidade de utilização que resultou no desgaste acelerado do material circulante e da infraestrutura, segundo especialistas.
Sindicatos e especialistas denunciam ainda que esse crescimento não foi acompanhado de um reforço correspondente e suficiente de meios humanos e de investimento em manutenção.
Aantes de se demitir, Oscar Puente defendeu na terça-feira, durante quatro horas, a gestão da alta velocidade em Espanha e rejeitou estas críticas e denúncias.
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