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"Trump é uma personagem de banda desenhada e está a aterrorizar o mundo"

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Minito Fonte Externa
16 de outubro de 2026 • 35 min de leitura
"Trump é uma personagem de banda desenhada e está a aterrorizar o mundo"

Depois de, aos 35 anos, se ter sagrado a escritora mais jovem da época a ser galardoada com o Prémio Booker 2006, Kiran Desai desapareceu da face da Terra. A reclusão prolongou-se durante 20 anos, período no qual cozinhou, a lume brando, o seu terceiro livro, editado em Portugal no mês passado.

 

De passagem por Lisboa antes de seguir para o Festival Literário Internacional de Óbidos (FÓLIO), que decorre até ao próximo domingo, a filha da consagrada autora Anita Desai sentou-se à conversa com o Notícias ao Minuto, tendo vincado que, pese embora o seu novo romance aborde uma "solidão dolorosa", uma parte considerável "trata também da solidão artística requintada e da felicidade de não ter olhares postos em ti".

Para o efeito, Kiran Desai concede-nos entrada aos mundos de Sonia e Sunny, dois jovens cujos destinos se unem e separam ao longo dos anos, entre os Estados Unidos e a Índia, e nos quais ficam patentes as forças que nos moldam enquanto seres humanos - o país, a classe, a raça, a história e os laços que nos ligam a outras gerações.

Pelo meio, a autora assinalou que "o que aconteceu depois do 11 de Setembro está mais uma vez no ar nos Estados Unidos", onde há "um enorme clima anti-imigração e um enorme aumento dos crimes de ódio, especialmente – talvez não especialmente, mas certamente também – na comunidade asiática", motivados pela conduta do presidente norte-americano, Donald Trump, que "é uma personagem saída diretamente de uma banda desenhada e está a aterrorizar o mundo".

Penso que a grande sorte de ser uma escritora de meia-idade – e de levar muito tempo a escrever – é que se começa a perceber ecos e correntes subjacentes que, de outra forma, nunca teria suspeitado ou vivenciado. Tanto a nível pessoal, no seio da família, em que vemos certas coisas a repetirem-se vezes sem conta de formas muito estranhas e, por vezes, nem sequer conseguimos acreditar nisso, [...] mas também a nível político

Demorou 20 anos a terminar "A Solidão de Sonia e Sunny". Como foi ver a sociedade a mudar – e ver-se a si própria e à sua família a mudar – enquanto escrevia este romance? Teve de fazer muitos ajustes à medida que escrevia, devido às mudanças sociais? Houve algum momento em que pensou que o livro nunca veria a luz do dia?

Vou começar pela última parte da pergunta. Durante muito tempo, pensei mesmo que não conseguia encontrar um caminho, uma forma de transformar todas as milhares de páginas que tinha escrito ao longo de 20 anos num romance.

Chegou a ter cinco mil páginas, não foi?

Tinha algo como cinco mil páginas, porque estava a seguir esta ideia de solidão. E pensava nisso usando a metáfora da água, que muda de forma continuamente. Encarava as histórias que estava a criar como um oceano, como se fossem um oceano de histórias; há um antigo texto indiano que se traduz como "o oceano de histórias". Quase me pareceu uma imposição falsa colocar a forma de um livro nestas histórias que eu tinha escrito; o romance parecia uma imposição falsa e um enredo inventado que tinha de criar a partir destas histórias, ao seguir a solidão por diferentes geografias e ao longo da história, personagens de diferentes lugares e de diferentes épocas. De certa forma, senti que poderia ter continuado para sempre.

Mas, como disse a outro jornalista, penso que a grande sorte de ser uma escritora de meia-idade – e de levar muito tempo a escrever – é que se começa a perceber ecos e correntes subjacentes que, de outra forma, nunca teria suspeitado ou vivenciado. Tanto a nível pessoal, no seio da família, em que vemos certas coisas a repetirem-se vezes sem conta de formas muito estranhas e, por vezes, nem sequer conseguimos acreditar nisso, porque se tratam de épocas tão diferentes, de contextos políticos diferentes e de histórias diferentes, mas também a nível político, quando vemos a história de uma nação e como ela se desenrola, como certas correntes subjacentes voltam a surgir à superfície; nunca se sabe quando, e depois vê-se isso a acontecer, e fica-se atento para ver quem é que vai ser apanhado na teia de cada vez que isso se repete. Essas coisas tornaram-se uma parte interessante do romance.

E o que é que a levou escrever esta "história de amor indiana no mundo moderno"?

Por razões que estou a observar agora mesmo nas ruas de Lisboa. Assim que cheguei, saí para dar uma volta e vi o tipo de casal sobre o qual escrevi, pessoas muito semelhantes à Sonia e ao Sunny. Ou seja, casais jovens e cosmopolitas de origem indiana que se conhecem pela primeira vez e vão de férias para a Europa. Isso nunca tinha acontecido antes. Esta é, de certa forma, a primeira geração que vive assim, em que um casal jovem e solteiro se pode conhecer e levar uma vida muito cosmopolita entre diferentes locais. Por exemplo, o rapaz pode estar a trabalhar em Nova Iorque ou em Londres e a outra metade pode estar a trabalhar em Singapura ou em Hong Kong, e decidem encontrar-se na Europa. Senti que essa história ainda não tinha sido contada.

Talvez hoje em dia já não seja assim mas, normalmente, os casamentos na Índia eram arranjados.

Na Índia, a maioria dos casamentos continua a ser arranjada. E também achei interessante pensar num casal que se considera muito moderno e se preocupa muito com a forma como a vida moderna o está a afetar no que diz respeito às suas histórias de amor, mas que também é profundamente influenciado pelas histórias familiares, e cujos avós e bisavós viveram vidas muito diferentes. Essas histórias também estão a desenrolar-se nas suas mentes. Quando leio escritores europeus da atualidade, muitas vezes a história de amor ou a narrativa centra-se apenas no casal, com algumas outras personagens. Estou a pensar em algo como "Os Dias do Abandono", de Elena Ferrante, que é um livro fantástico sobre uma mulher que enlouquece um pouco durante um divórcio. Mas, como escritora indiana, não parava de pensar: onde estão os pais dela? Onde estão as tias? Não há mais ninguém? Onde está o coro de opiniões e as outras pessoas a intrometerem-se na história? Por isso, essa forma de escrever é, acho eu, impossível para um indiano, para um escritor que escreve sobre um panorama indiano, um panorama familiar. Mesmo que a família seja disfuncional, a ausência dessas pessoas é tão presente que se torna, de alguma forma, uma força na vida de alguém.

Na verdade, isso é muito interessante. Nunca tinha pensado nessa diferença entre os escritores europeus e os escritores indianos ou asiáticos em geral, mas faz sentido. Existe aquele sentimento de comunidade, um afastamento da noção de indivíduo.

Sim, há culturas em que o sentimento de pertença é mais importante e culturas em que a individualidade é mais importante.

Capa de "A Solidão de Sonia e Sunny"
© Penguin Random House Grupo Editorial  

Trabalhou em muitos dos locais retratados no romance. Como foi escrever em todas estas diferentes paisagens? Teve preferência por alguma? Alguma vez se sentiu sozinha?

Sim, este livro fez-me pensar nas paisagens por onde passei, de facto: em Goa e em Itália, no México e em Nova Iorque, e também em Nova Deli. É uma pergunta simpática porque, sem dúvida, senti-me muito feliz em muitas dessas paisagens enquanto trabalhava neste livro. Veneza foi, claro, um lugar lindo para viver, para passar por um período de tempo. Mas acho que os locais onde mais trabalhei foram provavelmente Goa e o México, para onde voltava com bastante frequência durante o período em que escrevi todas as partes sobre a Sonia e o Sunny nesses locais. Talvez o México tenha sido o lugar onde estive completamente sozinha, muitas vezes sozinha, a trabalhar naquela aldeia na costa. Escrevia, ia dar um mergulho e voltava a escrever. Foi, talvez, a altura em que me senti mais intensamente sozinha. Grande parte deste livro trata da solidão dolorosa, mas grande parte trata também da solidão artística requintada e da felicidade de não ter olhares postos em ti e de te perderes verdadeiramente no teu trabalho. 

Houve algumas surpresas. Por exemplo, lembro-me de trabalhar no México durante esse período e, a certa altura, sentir realmente como se o género, o próprio facto de ser mulher, simplesmente se desvanecesse. Ou sentir que, quando olhava, não estava a olhar para o espelho, mas apenas a trabalhar. Percebi o quanto, ao ser mulher no mundo, há tantos olhares postos em ti e o quanto sentes o teu género. Quando isso desaparece, há uma liberdade tão extraordinária que, na verdade, deixas de ter qualquer sensação de ser mulher no mundo. És apenas tu própria. Pensas em tudo o que a sociedade te impõe e, quando tudo isso te é retirado, há uma liberdade imensa.

É verdade. Como disse Judith Butler, as mulheres são construídas. Estou a parafrasear, mas as mulheres são um produto da sua sociedade. Por isso, faz todo o sentido.

Sim, quando estás completamente sozinha, és livre para seres tu própria. E não te vês como mulher nem como qualquer outra coisa. És apenas um ser vivo.

Há muitos casos em que o racismo entre minorias é muito evidente. A própria Sonia e Sunny debatem-se com isso. Além da solidão que sentem, considera que se aproximam de pessoas brancas para tentarem integrar-se, tendo em conta que, na Índia, são parte da elite?

Acho que fazem parte da elite ocidentalizada, que tradicionalmente se teria aproximado dos britânicos na Índia. Ou seja, o tipo de família que teria recebido educação em inglês e que talvez tivesse sido enviada para Inglaterra para estudar. Por isso, já se sentem profundamente deslocados da Índia, onde vivem quase como estrangeiros. Não falam propriamente bem nenhuma língua indiana, o que costumava ser muito evidente. Muito do que se vê a desenrolar-se politicamente na Índia agora é raiva e indignação contra essa classe que, por sua vez, ocupou também o vácuo de poder. Portanto, uma classe com muito poder. Assim, já se sentem, de certa forma, atraídos pelo mundo branco.

A nível interno, alguém como a mãe do Sunny, a Babita, quer é que o filho case com uma mulher branca e se estabeleça tão profundamente no mundo branco que ela própria sinta que tem uma rede de segurança – algo que nunca é muito mencionado em voz alta, mesmo num país como a Índia, pois seria embaraçoso. Há uma forte sensação de que ainda existe uma enorme disparidade de poder entre as nações, e a metade branca do mundo é a metade mais segura do mundo para se viver.

O que aconteceu depois do 11 de Setembro está mais uma vez no ar nos Estados Unidos. Há um enorme clima anti-imigração e um enorme aumento dos crimes de ódio, especialmente – talvez não especialmente, mas certamente também – na comunidade asiática. Queria escrever sobre a solidão do mundo globalizado, onde tantas pessoas se deslocam, fazem viagens enormes e o que chamamos de migração em massa, mas também sobre a solidão destas viagens

Mas, ao mesmo tempo, ela também tem preconceitos contra as pessoas brancas e, quando se apercebe disso, fica em choque.

Ela tem preconceitos contra toda a gente, porque é uma pessoa completamente confusa. Também sente muito ódio por si própria, muito racismo contra si própria. Ela fica chocada com a cor da sua pele quando está a beber chá em Estocolmo, porque está a tentar ser o que considera absolutamente civilizada, à maneira ocidental, de tal forma que as suas atitudes e o seu comportamento parecem não condizer com a cor da sua pele, e fica surpreendida com a dissonância e a diferença. Estas são pessoas que provavelmente vieram de famílias que se esforçaram ao máximo para aprender um modo de vida diferente e uma forma diferente de ser. Depois, a história mudou e seguiu em frente, deixando-as numa espécie de solidão profunda e extrema, porque não pertencem nem à Grã-Bretanha, nem ao seu próprio país.

Esta é a classe e o tipo de pessoa de onde a Babita provém. A certa altura, ela não sabe se quer conhecer a namorada branca do filho ou não. Não consegue decidir porque, por um lado, acha que se sentiria orgulhosa de a acompanhar pelas ruas de Deli, e de dizer: "Isto é o que o meu filho conseguiu." Por outro lado, não quer partilhar o filho com alguém tão culturalmente diferente que, de certa forma, acabaria por perdê-lo. E, no entanto, ela tem um preconceito enorme contra outras pessoas de pele morena e contra pessoas negras. Entre todas as nacionalidades que vivem nos Estados Unidos, o que aprendi é que cada raça e nacionalidade tem a sua própria hierarquia de preconceitos, e todas elas se contradizem umas às outras. É mesmo engraçado pensar que, mesmo dentro da Ásia, no sentido asiático de hierarquia, cada país tem a sua própria forma de designar quem é quem nessa lista.

Depois de emigrarem para os Estados Unidos, é quase como se sentissem que já não pertencem à Índia, devido à forma como assimilaram a cultura americana, mas também não pertencem aos Estados Unidos, onde são vistos como uma minoria indesejada, especialmente após o 11 de Setembro. É este um lado negativo do mundo globalizado: sentir-se solitário num lugar onde é suposto sentir-se em casa?

Sim, e o que aconteceu depois do 11 de Setembro está mais uma vez no ar nos Estados Unidos. Há um enorme clima anti-imigração e um enorme aumento dos crimes de ódio, especialmente – talvez não especialmente, mas certamente também – na comunidade asiática. Queria escrever sobre a solidão do mundo globalizado, onde tantas pessoas se deslocam, fazem viagens enormes e o que chamamos de migração em massa, mas também sobre a solidão destas viagens: deixar a família para trás, integrar-se no novo local, o sentimento de pertencer a um lugar, a tua família estar lá há várias gerações, e alguém do outro lado do mundo vir viver ao teu lado. Foi Hannah Arendt, creio eu, quem disse que o aumento do nacionalismo provém frequentemente da solidão, que a solidão provoca um aumento do nacionalismo e um desejo por uma única história, uma única raça, uma única religião. Vemos isso a acontecer na Índia e nos Estados Unidos, e há também um enorme sentimento anti-imigração na Índia hoje em dia. Existe um preconceito extremo contra certas pessoas, como os refugiados provenientes de Mianmar, por exemplo, ou do Afeganistão. Assim, a mesma retórica anti-imigração que é dirigida aos indianos é também dirigida por eles a outras pessoas.

É um círculo vicioso, não é?

Sim, e está a acontecer em todos os países. Não é só nos países ocidentais, está a acontecer também nos países não ocidentais. Quero dizer, lemos sobre o que está a acontecer na África do Sul, com um enorme sentimento anti-imigração, e isso só vai tornar-se ainda mais extremo. É algo sobre o qual temos mesmo de falar porque, com as alterações climáticas, as pessoas vão ter de se deslocar. Este é um dos aspetos do livro, mas também queria escrever sobre o lado mais belo. Hoje em dia falamos de identidade nestes termos de nacionalismo, mas os seres humanos sempre quiseram mudar de pele. Os seres humanos sempre encontraram diferentes versões de si próprios nas viagens, no amor e na religião. Somos criaturas mutáveis que procuram sempre escapar, por isso essa questão também fez parte do livro: todos os aspetos importantes da solidão, a importância de não pertencer.

A eterna questão permanece: essa elite, em que podemos comer sushi, comprar roupas que são publicitadas apresentando diferentes raças e pessoas – que também proclama tolerância e ética –, na verdade, não está ao alcance da maioria da humanidade, nem das pessoas que preparam essa comida e criam essas roupas

Como membro da diáspora, sente que estamos a retroceder no que diz respeito aos direitos humanos? Como mencionou, existe um preconceito de minorias contra minorias, que é influenciado pelas elites, que colocam os pobres contra os pobres.

Parece que, após as grandes guerras, houve, em muitas partes do mundo, uma enorme ênfase na democracia secular, que é uma invenção tão requintada, na medida em que permite que uma minoria viva como cidadão de pleno direito, e isso parece estar ameaçado em muitas partes do mundo – certamente nos Estados Unidos e na Índia. Há um direito humano fundamental sobre o qual, penso eu, não falamos o suficiente. Falamos do direito à saúde, aos cuidados, à educação, à água, à alimentação, mas um direito humano fundamental é o direito de viver sem medo. Assim que o medo se instala numa sociedade, creio que é o início do fim. Quando as pessoas têm medo de falar, de serem detidas, e estão constantemente preocupadas com a sua própria existência. É algo sobre o qual queria muito escrever, essa solidão que advém do medo de uma minoria.

Voltando à Sonia, a sua solidão leva-a a ter uma relação abusiva com um homem muito mais velho, que a assombra ao longo de toda a sua vida. Sunny pode não ter sofrido violência física, mas foi alvo de comentários xenófobos por parte da sua namorada americana. Mencionou noutra entrevista que sentiu que a sua identidade social pareceu dissolver-se devido à solidão. Era isto que estava a tentar retratar com Sonia e Sunny – a forma como outras pessoas podem, na verdade, fazer-nos sentir mais sozinhos através das suas ações?

A forma como este livro está secretamente estruturado é esta – e é por isso que tenho a pequena figura do Badal Baba no centro do livro: quem é reivindicado pelos olhos de quem, quando se trata de género numa relação como a de Sonia e Ilan, ou quando se trata de países, e de quem é o olhar sobre quem, quando se trata de jornalismo, de arte, de raça, de nação. Ou seja, quem é capturado pelo olhar de quem. Então, de quem é o olhar que detém o poder, num mundo em que as divisões de poder são extremas e intactas, que se mantêm, que não foram superadas? Tentei escrever sobre o que acontece quando o teu sentido de identidade é completamente apagado. Quando a Sonia diz que se olha ao espelho como um animal o faria, porque perdeu de forma tão absoluta o seu sentido de identidade e está a ver o mundo através dos olhos do Ilan, ela questiona-se sobre a sua situação. Primeiro, não sabe como sair desta relação, porque diz que é preciso ser uma pessoa para sair, e ela já não é uma pessoa. Segundo, como é que pode ser escritora enquanto jovem mulher, quando vê o mundo através dos olhos de outra pessoa? Além disso, foi-lhe atribuído um tema que não deseja. Como é que se supera? Pior ainda, trata-se de um tema repetitivo e estereotipado que continua a acontecer. E Sonia questiona-se: será que isto continua a acontecer porque continua a ser escrito? Ou será que continua a ser escrito porque continua a acontecer? Então, que papel é que ela desempenha nisto? 

Quanto ao Sunny, ele pode ser visto de uma certa forma pelos olhos da namorada, mas também é muito xenófobo. Ele diz coisas horríveis sobre a família dela, e acha que os republicanos e os norte-americanos do Midwest são muito incivilizados e atrasados. Diz que não têm passaportes, que não usam especiarias e que, segundo ele – que cresceu nos círculos mais altos da sociedade de Nova Deli –, estão mesmo no fundo da escala social. O que é profundamente interessante para Sunny é também a forma como as notícias funcionam, quais as histórias que estão a ser contadas, quem controla as notícias, quem as divulga e quão drasticamente diferente tudo isto é noutra parte do mundo. Qual é o papel dele nas notícias? Vai falar sobre uma parte não ocidental do mundo para um meio de comunicação ocidental? E, por conseguinte, refletir sobre o mundo não ocidental, sobre o que as notícias ocidentais dizem sobre essa parte do mundo? Por isso, ele não sente que possa ser um bom jornalista em lado nenhum. Essa foi a razão por detrás disto, foi a ideia de como o livro está construído.

Como mencionou, a arte e a literatura podem ser vistas como um meio de escapar à realidade, mas também podem ser uma fonte de exploração. O Ilan foi criado para ilustrar estas ideias e para servir de personificação de tudo o que está errado no mundo artístico, e de como isso também nos pode consumir?

Estava interessada na forma como as pessoas são retratadas na arte. Por isso, criei uma história paralela sobre o avô da Sonia, que vem para a Índia, viaja e interessa-se pela teosofia, um tema muito em voga na época em que estava a crescer. É uma filosofia que acredita que todas as raças e religiões são iguais, uma filosofia muito mística e idealista. Ele vem para a Índia e, de certa forma, também perde o seu sentido de identidade, devido aos acontecimentos na Alemanha. Estava interessada em saber como os artistas europeus teriam retratado os indianos no passado, e o que isso significa, bem como na forma como os homens retratam as mulheres na arte e o que isso implica. 

O Ilan faz parte de uma elite cosmopolita que é poderosa, e vemos esse tipo de artista em todo o lado. Nunca são questionados, são famosos e, ao elogiá-los, estamos, de certa forma, a elogiar-nos a nós próprios. Isso remete para o facto de que elogiá-los significa reivindicar para nós próprios essa sofisticação e esse sentido cosmopolita do mundo da elite. A eterna questão permanece: essa elite, em que podemos comer sushi, comprar roupas que são publicitadas apresentando diferentes raças e pessoas – que também proclama tolerância e ética –, na verdade, não está ao alcance da maioria da humanidade, nem das pessoas que preparam essa comida e criam essas roupas. Era isso que estava a tentar fazer: falar de alguém como o Ilan que, de igual modo, também se sente bastante sozinho, porque é muito anónimo no meio dessa fama.

Nunca pensei que os Estados Unidos chegassem a um ponto tão drástico. A minha impressão era de que os norte-americanos eram pessoas profundamente patrióticas, que valorizavam a sua democracia. O facto de isso não se ter, na verdade, confirmado, de estarem ocupados a desmantelá-la e de Donald Trump ter um grande apoio, além de ser uma personagem tão clássica dos desenhos animados, é impressionante para mim

Sinto que ele quase precisa de se alimentar de alguém como a Sonia para superar essa solidão.

Ele precisa mesmo de se alimentar da Sonia porque, de certa forma, é um exemplo clássico de um narcisista que precisa de receber apreço constante, e isso é algo que está no ar hoje em dia, porque as pessoas querem ser famosas. Quando se pergunta às pessoas qual é o seu objetivo de vida, a resposta é simplesmente ter fama e, por vezes, é-se famoso apenas por ser famoso. Não se consegue perceber por que razão a pessoa é famosa, porque não está a fazer absolutamente nada além de ser famosa.

Tendo em conta que vive nos Estados Unidos há tanto tempo, como é que encara o clima social atual com a administração de Donald Trump? Alguma vez lhe passou pela cabeça que nós, enquanto sociedade, chegaríamos a este ponto?

Nunca pensei que os Estados Unidos chegassem a um ponto tão drástico. A minha impressão era de que os norte-americanos eram pessoas profundamente patrióticas, que valorizavam a sua democracia. O facto de isso não se ter, na verdade, confirmado, de estarem ocupados a desmantelá-la e de Donald Trump ter um grande apoio, além de ser uma personagem tão clássica dos desenhos animados, é impressionante para mim. Tendo crescido na Índia, havia uma biblioteca de banda desenhada onde se pagava uma rupia ou algo do género e pedíamos uma banda desenhada emprestada. Pedíamos o "Riquinho" e o "Pato Donald". Agora penso, "Meu Deus, Trump é uma personagem saída diretamente de uma banda desenhada e está a aterrorizar o mundo". 

Algo semelhante está a acontecer na Índia. Assim, ambos os países – e é bastante irónico que um se autodenomine a democracia mais antiga do mundo e o outro a maior democracia do mundo – estão a afundar-se. O que acontece se o mundo perder estas duas democracias? Toda a conceção de democracia desaparece quando estes dois pilares, de certa forma, são destruídos. A Índia é um país enorme; quando a Índia se torna autoritária, é um desastre para a ideia de democracia no mundo. É também um país não ocidental que era uma democracia secular.

Sonia tem um percurso semelhante ao seu, tendo estudado em Vermont e trabalhado numa biblioteca universitária, além de ser de uma família de Deli com um cozinheiro particular. Noutra entrevista, mencionou que o avô de Sonia é inspirado na sua avó.

De certa forma, de certa forma… Quer dizer, ela não era artista, nem sequer teosofista, mas sim, no sentido de que veio para a Índia na década de 1920.

Então, até que ponto é que o livro é autobiográfico?

Algumas partes são, outras não. Acho que essa é a resposta que muitos escritores lhe dariam, no sentido de que me inspirei em histórias de família, mas também muito disso é inventado e imaginado, por isso é uma amálgama completa, uma mistura dessas coisas. E, claro, acho que todos os escritores se inspiram nas suas histórias de família e nas suas experiências, ou em histórias de amigos, ou de pessoas que conheceram. Creio que as experiências mais profundas de uma pessoa acontecem quando se está sentado a conversar com alguém no café de um aeroporto. Alguém conta-nos uma história, a sua história mais profunda, naquela meia hora, que partilha apenas com um estranho e que não contaria a alguém que conhece, e temos essa experiência extraordinária. Conheci uma senhora enquanto carregava o meu computador, e ela falou-me sobre a filha que colocou termo à própria vida. Pensas: "Estás a dizer-me isso e sou uma estranha para ti."

Mas do nada?

Quase, sim. Como viajo muito sozinha, acho que tenho um baú com centenas, milhares destas histórias. Estava sentada a conversar com um padre que estava a sair do Congo para se encontrar com o seu mentor, que estava a morrer. Trabalhava numa favela num bairro muito pobre do Congo, mas era das Filipinas, e disse-me: "Sinto-me tão sozinho. Toda a gente descarrega os seus problemas em mim, mas não tenho ninguém a quem contar os meus problemas." Fiquei a pensar: "Aqui está o padre a contar-me isto. Deve ser tão difícil, mas está a confessar-me a sua solidão, algo que provavelmente não pode contar a muita gente." Talvez pudesse contar aos seus amigos mas, mesmo assim, estas coisas são muito interessantes. Guardo cadernos e diários, e estou sempre a tomar notas. Há histórias de família, mas há outras coisas que simplesmente invento, como a Babita, que não é ninguém que conheça particularmente, mas conheço aquela mulher tão bem, porque cresci com ela.

É uma caricatura.

Sim. E, na verdade, é algo difícil de escrever; só quando se conhece mesmo essa pessoa é que se torna mais fácil escrever de forma satírica sobre ela. É mais fácil escrever de forma satírica sobre a nossa própria classe social e o nosso próprio tipo de família do que quando saímos de casa.

Percebi que não podia deixar este elemento de fora, mas ainda estava a debater-me com a minha decisão de o ter incluído. Sabia que, se fosse criticada por alguma coisa, seria por isto, e parece-me que o romance ocidental ainda se sente profundamente desconfortável com esta forma de escrever. No entanto, senti que, se o retirasse, o livro se desmoronaria – de certa forma, é esta vertente esotérica que, na verdade, mantém o romance coeso

Há quem defenda que o realismo mágico exotiza uma cultura. Qual é a sua opinião sobre isto e porque é que decidiu incluir elementos deste recurso literário na obra? Foi, de certa forma, para contrariar essa crença?

Para tentar fazer as duas coisas ao mesmo tempo, sim. Quando escrevi o meu primeiro livro, que já foi há quase 30 anos, havia muita preocupação sobre isso em muitos países não ocidentais, e refiro-me aos africanos, latino-americanos e asiáticos. Muitos escritores falavam e escreviam sobre esta literatura específica com elementos mágicos que era, de certa forma, favorecida no mundo editorial internacional, por provir destes países em particular, que este era o tipo de escrita que as pessoas esperavam e queriam, e que estava simultaneamente a infantilizar e a exotizar estes países. De alguma forma, é tudo mais fácil de destruir; um país que não é bem real e cheio de elementos mágicos e exóticos. 

Mas também era verdade, penso eu, que o que se escrevesse naquela parte do mundo, fizesse o que se fizesse, era rotulado dessa forma. O livro que tinha escrito assemelhava-se mais a um conto popular e não propriamente a realismo mágico. Talvez houvesse uma frase, um pequeno elemento mesmo no final, mas foi imediatamente rotulado como realismo mágico, algo que simplesmente não acontecia aos escritores ocidentais, que também escreviam histórias de fantasmas ou histórias com elementos mágicos estranhos. Era uma forma de colocar todos esses países numa caixa específica, numa estante específica. Muitos autores estavam preocupados com isso e acreditavam que essa já não era a forma de escrever sobre os seus países. No entanto, havia também a preocupação de que, ao aderir a esta ideia, se estivesse a permitir que a sociedade ocidental alterasse um país – países onde isso fazia parte integrante de um modo de vida, onde as superstições, as histórias de fantasmas, elementos de magia fazem parte da narrativa, e não há necessariamente diferença entre os termos realismo mágico, mito, conto popular, lenda e, diria eu, até mesmo religião. O que é a religião senão uma história em que algo mágico acontece na vida real, em que coisas mágicas acontecem na vida real? Por isso, nem sequer conseguia compreender o uso do termo, e é verdade que foi inventado por um académico alemão na década de 1920. No entanto, naquela altura, estava convencida de que essa não era a forma de escrever sobre a nossa parte do mundo e, em "A Herança do Vazio", não há sequer um pingo disso, nem um sussurro. 

Quando estava a escrever "Sonia e Sunny", situei o meu livro neste elemento, neste mundo esotérico – tem uma vertente esotérica, diria eu – escrevia sobre o medo primitivo da Sonia, e sobre as correntes políticas subjacentes, as florestas sombrias, crescer nas montanhas e entrar em mosteiros adornados com seres mágicos, quando as florestas eram realmente muito antigas e cheias de histórias de animais mágicos. E, na verdade, sobre a solidão de perder essas florestas e essa natureza, e o que isso faz à imaginação humana, ver tudo isso a desvanecer-se – histórias em que havia, de facto, criaturas mágicas reais a viver na floresta são tão importantes para a imaginação humana. Descobri que também os pesadelos que Sonia tem, que são, de alguma forma, mais reais do que a própria vida, quando sente que está a ser perseguida pela escuridão e por algo maléfico, e que talvez tenha encontrado o diabo na vida real, é algo que as pessoas vivem constantemente. Quero dizer, quando nos deparamos com muitos dos líderes políticos de hoje, pensamos que encontrámos o diabo na vida real e, na verdade, apertámos mesmo a mão ao mal puro. Percebi que não podia deixar este elemento de fora, mas ainda estava a debater-me com a minha decisão de o ter incluído. Sabia que, se fosse criticada por alguma coisa, seria por isto, e parece-me que o romance ocidental ainda se sente profundamente desconfortável com esta forma de escrever. No entanto, senti que, se o retirasse, o livro se desmoronaria – de certa forma, é esta vertente esotérica que, na verdade, mantém o romance coeso.

Mas foi criticada?

Sim. Quer dizer, não de forma direta, nem de forma drástica, mas li críticos que disseram que essa foi a parte que os deixou inquietos. Acho que, mais uma vez, só se reconhece a importância disto se já se tiver sido arrancado da vida normal em algum momento, e também acredito que, em algum momento, todos nós vamos sair da vida normal. Algum luto ou algum trauma vai acontecer, e estarão todos a viver uma vida normal, uma vida racional, enquanto tu te encontras num estado de medo irracional, com fantasmas e traumas. A certa altura, isso vai acontecer a todos nós. Mas, até teres passado por essa experiência, acho que não consegues acreditar totalmente, e perguntas-te: "Será isto uma coincidência? Será que há realmente algo? Será que existe algum tipo de corrente subjacente estranha? Será que é o acaso? O que se está a passar? Isto é bizarro". Ou, então, sentes um medo tão primitivo, que sais do teu eu humano para um eu animal.

Isso acontece muitas vezes com o luto.

Sim, o luto faz isso, porque o luto e o medo sobrepõem-se. Ficas num mundo muito estranho, imerso no mundo dos fantasmas, porque estás constantemente a falar com a pessoa que morreu, ou estás constantemente a pensar nessa pessoa, ainda mais do que pensavas quando ela estava viva. O meu pai morreu de cancro e essa foi uma das experiências em que percebi que somos arrancados da vida normal. Fica connosco para toda a vida. Isso, por si só, é um verdadeiro realismo mágico. É tão estranho. Como é que alguém pode morrer? Deparamo-nos com esse facto avassalador.

Ganhou o Prémio Booker aos 35 anos, o que fez de si a escritora mais jovem da época a receber essa distinção. Como foi isso? Sentiu alguma pressão adicional para escrever algo que pudesse potencialmente superar "A Herança do Vazio"?

Senti várias coisas, devo dizer. Já muito cedo, decidi escrever sobre o tema da solidão. Pensei: "Agora sinto-me pronta para escrever o meu livro sobre a solidão." Deu-me uma espécie de coragem para escrever exatamente sobre aquilo de que estamos a falar, que é o tema mais difícil, penso eu. Escrever sobre assuntos mais políticos é muito mais fácil. Mas também devo ter sentido alguma pressão, porque me refugiei num modo de vida e de trabalho muito reservado; desapareci do mundo literário durante muito tempo. Foi fantástico escrever de forma tão reservada, porque podes perder-te completamente no teu trabalho, o que é, claro, o que qualquer escritor deseja. É o que mais se quer fazer.

A minha mãe tomou decisões numa altura em que era muito mais difícil enquanto jovem mulher, e era uma jovem mulher na Índia. Na verdade, é extraordinário. É extraordinário ter feito essa escolha. Não é nada normal decidir fechar-se sozinha num quarto e trabalhar num lugar e numa época em que ninguém levava isso a sério, em que era quase considerado um pequeno passatempo. É uma decisão notável. Depois, tomou outras decisões notáveis. Deixou o casamento, deixou a Índia. Tudo isso é muito invulgar

Mas escrever, por si só, é um ato de solidão, não é?

Sim. Por isso, de certa forma, tens de estar sozinho. Vi uma entrevista da escritora irlandesa Edna O’Brien em que ela disse: "Acho que um escritor tem de ser solitário. Acho que até um leitor tem de ser um pouco solitário. Tens de querer sair da vida real, ler e desaparecer num livro." O que é bom no YouTube é que podemos ver escritores do passado, todas aquelas mulheres com vozes antigas, incrivelmente grandiosas e teatrais, quando as pessoas falavam e se apresentavam dessa forma.

Também encontrou muito apoio na sua mãe, certo?

Tive, de facto, muito apoio da minha mãe, que também é uma escritora muito solitária. Ela vive sozinha, como uma eremita. Ter, de certa forma, duas solidões juntas tem sido a grande sorte da minha vida. A minha mãe tomou decisões numa altura em que era muito mais difícil enquanto jovem mulher, e era uma jovem mulher na Índia. Na verdade, é extraordinário. É extraordinário ter feito essa escolha. Não é nada normal decidir fechar-se sozinha num quarto e trabalhar num lugar e numa época em que ninguém levava isso a sério, em que era quase considerado um pequeno passatempo. É uma decisão notável. Depois, tomou outras decisões notáveis. Deixou o casamento, deixou a Índia. Tudo isso é muito invulgar para uma mulher do seu meio e da sua época.

Foi inspirada a tornar-se escritora por causa dela?

Sim. Ela tomou a decisão notável, mas segui com o negócio da família, de certa forma. Sabia o que isso significava e sabia o que estava a assumir; cresci com as suas estantes de livros e com uma ideia de como seria ser escritora. Mas ela fez isto numa época em que não havia nenhum exemplo semelhante, não havia ninguém como ela, na verdade.

Em que está a trabalhar neste momento? E tenho a certeza de que todos os jornalistas lhe perguntam isto, mas teremos de esperar mais 20 anos para ler outro romance seu?

Não, definitivamente não quero demorar 20 anos, porque teria 75 anos.

Sim, mas é possível.

É possível, mas preferia escrever alguns livros agora, enquanto tenho tempo livre. O tempo que me resta, o que é ridículo dizer, aos 55 anos. Creio que os escritores também pensam assim: acham que querem escrever um certo número de livros e, na verdade, só a partir da meia-idade é que começam a pensar dessa forma. Não pensava assim quando tinha 35 anos, agora penso. Cortei imensas páginas e linhas narrativas deste livro e, na verdade, estou interessada em voltar a esta ideia, esta ascensão do nacionalismo, e tentar abordá-la em contextos diferentes. Vamos ver. Parece aborrecido dito assim, mas é muito interessante para mim, especialmente tendo em conta aquele fragmento de história alemã na história da nossa família. E, além disso, a Alemanha e a Índia, a certa altura, estiveram profundamente ligadas por algumas ideias muito desprezíveis.

"Nova tendência para romantasy é mesmo um movimento. Nunca vi nada assim"

Markus Dohle distribuiu, imprimiu e produziu livros "praticamente em todo o mundo", mesmo antes de assumir o cargo de CEO da Penguin Random House. Em conversa com o Notícias ao Minuto, partilhou a sua perceção do panorama atual no setor livreiro, numa altura em que a IA é encarada como uma "ameaça existencial" e as democracias estão "sob pressão".

Daniela Filipe | 08:10 - 25/09/2026

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