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Abigail em casa após "milagre". Técnica usada pela 1.ª vez em Portugal

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Minuto Fonte Externa
5 de novembro de 2026 • 5 min de leitura
Abigail em casa após "milagre". Técnica usada pela 1.ª vez em Portugal

A Unidade Local de Saúde do Santa Maria (ULSSM), em Lisboa, realizou recentemente uma técnica pioneira em Portugal: a primeira colocação de uma prótese biodegradável na traqueia de uma criança, evitando a necessidade de uma traqueostomia.

 

A intervenção, que contou com uma equipa multidisciplinar, constituída por elementos da Pediatria, Pneumologia e Anestesiologia, foi explicada esta quinta-feira, 5 de novembro, no site da unidade hospitalar.

De acordo com o Santa Maria, Abigail nasceu com uma malformação congénita e esteve mais de quatro meses dependente de ventilação mecânica. Aos 8 meses, a menina "está agora em casa a respirar normalmente".

A malformação congénita da criança comprometia a sua capacidade respiratória. Nos primeiros quatro meses de vida, precisou de suporte de ventilação, uma vez que uma parte da traqueia colapsava sempre que se tentava retirar o ventilador, impedindo-a de respirar autonomamente.

"A traqueostomia - procedimento cirúrgico que cria uma abertura na parte anterior do pescoço diretamente na traqueia, permitindo a inserção de uma cânula para a passagem de ar - apresentava-se como a solução mais provável. Mas, neste caso, comportava riscos acrescidos, tendo em conta algumas particularidades da condição clínica e a idade da bebé", realça a ULS.

A situação era tão complexa que, apesar de a menina "ter sido submetida a uma cirurgia inicial noutro hospital para corrigir uma malformação vascular e a aorta já não comprimir a traqueia, esta colapsava a cada inspiração, dificultando a passagem do ar e impedindo uma respiração natural".

Solução surgiu em Espanha

Perante este cenário, a equipa multidisciplinar de Santa Maria decidiu procurar uma alternativa à traqueostomia. A solução surgiu em Espanha, no Hospital Universitário La Paz, em Madrid, "onde estava a ser utilizada uma técnica inovadora, com resultados muito promissores em crianças com situações clínicas semelhantes".

"Pusemos a hipótese de colocar um stent biodegradável. Uma técnica inovadora que estava a ter bons resultados em Espanha", explicou na publicação feita hoje Francisco Abecasis, diretor do Serviço de Pediatria Médica da ULSSM.

Francisco Abecasis e Francisco Freitas, médico do Serviço de Pneumologia, avançaram com a proposta e "assim que as condições clínicas permitiram, a bebé viajou para Madrid, em julho deste ano, acompanhada pelos médicos e pela família, onde foi realizada a primeira intervenção".

"Correu tudo bem", mas solução não era definitiva

Os resultados foram imediatos. "Um dia depois de termos colocado a prótese, foi retirado o ventilador e correu tudo bem", recordou o pediatra.

Depois de mais de quatro meses de ventilação mecânica, Abigail conseguiu respirar sem dificuldades e sem necessidade de suporte de ventilação.

"Depois de 3 semanas em Espanha, e já de regresso a Lisboa, a bebé permaneceu ainda algumas semanas internada na Pneumologia Pediátrica de Santa Maria, para acompanhamento e avaliação da sua evolução clínica, antes de regressar a casa em agosto"

A solução, contudo, não era definitiva. "Por serem biodegradáveis, estas próteses vão-se degradando e sendo absorvidas pelo organismo ao longo do tempo. Entretanto, foi necessário um segundo procedimento e colocação de novo stent um pouco maior, adequado às necessidades devido ao crescimento da criança", evidenciou o Santa Maria na publicação onde partilhou várias imagens.

Colocação da 2.ª prótese realizada em Portugal. Foi "a primeira vez"

"A colocação da segunda prótese foi então programada para o início do mês de outubro e já foi feita, pela primeira vez, em Portugal, no Serviço de Pneumologia da ULSSM - Hospital de Santa Maria", anunciaram

Desta vez, o Professor Carlos de la Torre, cirurgião torácico do Hospital La Paz, veio acompanhar esta primeira intervenção no nosso país.

Apesar de alguma aparente simplicidade com a técnica, há desafios inerentes ao procedimento. "Enfrentámos os desafios de ser um bebé. Os instrumentos que temos que usar são à medida. A própria traqueia não comporta instrumentos maiores", narrou o pneumologista Francisco Freitas.

Também no âmbito da anestesia foi a primeira intervenção com a colocação do stent biodegradável na via aérea. Com todas as particularidades inerentes, desde o próprio equipamento às vias aéreas mais pequenas da criança. "Outro grande desafio foi manter sempre a criança em ventilação espontânea, que era algo importante para a equipa", destacou a anestesista responsável pelo procedimento, Célia Mendes Xavier.

Irmãos estavam "ansiosos" para ter Abigail em casa

Quase aos oito meses, Abigail pôde assim regressar novamente a casa e a respirar normalmente. Para os pais, Misa e Walter Gomes, o momento foi particularmente emocionante.

"Os dois irmãos, de nove e sete anos, estavam ansiosos por poder partilhar o seu tempo com a irmã e tê-la em casa", contou o casal, revelando que a solução encontrada pela equipa médica foi "um milagre".

Depois de meses de incerteza e de internamento, poderem finalmente ter a filha nos braços, sem ventilação mecânica e a respirar autonomamente, representou "o melhor que nos podia ter acontecido. Estamos muito contentes!"

Leia Também: Hospital de Santa Maria e INEM vão partilhar profissionais de saúde

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