Ativistas contra proposta de OE que favorece "negócio imobiliário"
Uma ativista da Casa para Viver considerou hoje que o Orçamento do Estado "não serve a habitação" e favorece "o negócio imobiliário", enquanto um porta-voz da Acampada de Lisboa disse não estranhar o apoio do primeiro-ministro à polícia.
"Este Orçamento de Estado não nos serve, não serve a habitação, é um Orçamento que está cheio de medidas que favorecem os fundos de investimento imobiliário e o negócio imobiliário", afirmou Rita Silva.
Em declarações à Lusa, a investigadora e ativista da plataforma Casa para Viver, que integra uma centena de associações e coletivos pelo direito à habitação e a cidade, acrescentou que a proposta de Orçamento do Estado para 2027 (OE2027) "não favorece a habitação pública, não favorece rendas baixas, não favorece aquilo que as pessoas precisam para viver".
Questionada sobre a adesão à concentração em frente ao parlamento, que discute a proposta do OE2027, Rita Silva admitiu já estar à espera de uma forte mobilização "porque as pessoas estão a mostrar que querem ser ouvidas, estão determinadas na rua e vão continuar".
"Parece-me que há muita gente que está solidária com os protestos e que a crise da habitação afeta também muita gente. E, por isso, felizmente, temos as pessoas a vir para a rua quando podem e a apoiar. Nós tivemos 25 mil pessoas no sábado e continuamos a ter pessoas na rua", salientou.
Milhares de apoiantes enchiam hoje ao final da tarde a Rua de São Bento, defronte do parlamento, em Lisboa, obrigando a PSP a interromper o trânsito ainda antes da hora marcada da concentração pelo direito à habitação, às 18:30.
Em redor de um pequeno palco concentraram-se milhares de pessoas, com espaço muito apertado e muitas pessoas impedidas de circular. No lado do Largo do Rato era maior a concentração porque as pessoas não conseguiam ver o palco.
"Oh Montenegro, presta atenção. As tuas casas vão virar ocupação" foi uma das palavras de ordem entoadas pelos manifestantes, vigiados na escadaria por um dispositivo com pelo menos cinco carrinhas da PSP, e que gritavam também "Fascistas chegou a vossa hora, os imigrantes ficam e vocês vão embora".
Também João Veloso, um dos porta-vozes da acampada de Lisboa, referiu que a adesão de milhares de pessoas "demonstra bastante bem que as pessoas continuam mobilizadas pelo direito à habitação e que também rejeitam este Orçamento do Estado".
Para o jovem ativista, os manifestantes "nunca foram só miúdos" e "sempre foi um pouco transversal, embora tivesse uma boa presença de juventude".
"Por exemplo, no dia da carga policial, pessoas que estavam à frente eram pessoas idosas. Então, sempre tem sido um bom apoio que nós temos tido por parte de toda a população e hoje aqui ainda mais isso é demonstrado", frisou.
Além da manifestação de sábado, com "mais de 25 mil pessoas na Avenida da Liberdade a descer até ao Rossio", as assembleias populares realizadas na Praça D. Pedro IV também "têm sempre contado com centenas ou milhares de pessoas" e "isso é bastante demonstrativo" do apoio, notou.
Sobre as palavras de apoio do primeiro-ministro, Luís Montenegro, à atuação da polícia e das cargas policiais no Rossio, João Veloso não se mostrou admirado, pois "a ação da PSP não foi apenas e só na cabeça da PSP" e "tem uma influência, como é óbvio, governativa".
"Não me admira as declarações do primeiro-ministro. Acho que, na verdade, é bastante demonstrativo é de que a resposta do primeiro-ministro aos protestos que têm havido sempre é bastonadas. Em vez de dialogar, não, envia a polícia para dar bastonadas, para deter pessoas a dormir. É essa a resposta que o ministro [da Administração Interna] tem e que o primeiro-ministro tem à crise da habitação", apontou.
Em relação ao apoio da população aos protestos, o porta-voz da acampada disse que se as pessoas "se tivessem deixado de mobilizar para as ruas" isso indiciaria que não estariam "assim tão certos" sobre a sua luta.
Mas, acrescentou, as pessoas continuam a mobilizar-se: "cá estaremos e continuaremos", prometeu.
Durante a madrugada de domingo, a PSP dispersou, à bastonada e com recurso a cães, as manifestações pelo direito à habitação em Lisboa e no Porto, após mais de duas horas de tensão e ordens para que as pessoas saíssem e as tendas fossem retiradas.
Os manifestantes não acataram as ordens, invocando o direito constitucional à manifestação.
Segundo a PSP, registaram-se, no total, 33 feridos e 33 detidos por desobediência. Em comunicado, as organizações das acampadas referiam dezenas de feridos.
A Inspeção-Geral da Administração Interna (IGAI) abriu um processo na sequência das intervenções policiais que aconteceram na madrugada de domingo em Lisboa e no Porto. Também a provedora de Justiça pediu à PSP, com caráter de urgência, informações sobre a carga policial na madrugada de domingo sobre os manifestantes.
Os partidos de esquerda criticaram a intervenção policial e pediram esclarecimentos ao primeiro-ministro e a intervenção do Presidente da República, António José Seguro.
O chefe de Estado apelou hoje ao diálogo sobre a habitação "e nunca à violência", afirmando que não gostou das imagens que viu, mas que aguarda o resultado dos inquéritos sobre a atuação policial sobre manifestantes.
Os manifestantes exigem a reversão da nova lei do arrendamento, o fim das demolições e dos despejos sem alternativa habitacional, um travão à aquisição de habitação por fundos imobiliários, o aumento da habitação pública, a recuperação de imóveis devolutos para fins habitacionais e tetos "verdadeiramente acessíveis" à renda.
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