Caine Prize prepara edição portuguesa da antologia de contos africanos
O Caine Prize prepara uma edição portuguesa da sua antologia de contos africanos, que em 2026 será integralmente traduzida para suaíli, numa estratégia para ultrapassar barreiras linguísticas, económicas e sociais à circulação da literatura em África, foi hoje revelado.
A edição portuguesa, que poderá abranger a totalidade da antologia ou apenas alguns contos, depende ainda de financiamento e de parcerias editoriais em Moçambique, Angola e Brasil, explicou hoje a diretora interina do Caine Prize for African Writing, Susi Owusu, numa intervenção por videoconferência no último dos Dias da Literatura de Lisboa.
Já a tradução integral da antologia de 2026 para suaíli está a ser desenvolvida em parceria com uma editora da Tanzânia e inclui a formação de dois tradutores naquele país, acrescentou.
Criado em 2000, o Caine Prize distingue anualmente um conto de um escritor africano publicado em inglês, incluindo obras traduzidas de outras línguas, e publica uma antologia que reúne os textos finalistas e contos produzidos nas suas oficinas de escrita.
Segundo Susi Owusu, o prémio, inicialmente orientado para aproximar os escritores africanos da indústria editorial internacional, está agora a colocar a tradução no centro da sua estratégia, procurando também fazer chegar as obras aos leitores do próprio continente.
Na apresentação conjunta com Susi Owusu, a editora e tradutora moçambicana Sandra Tamele alertou que as barreiras à circulação da literatura africana não são apenas linguísticas, mas também económicas e sociais, sobretudo em países onde o preço dos livros é incomportável para grande parte da população.
"Estamos abertos às mercadorias, à música, à televisão e às pessoas, mas as histórias não viajam", afirmou, referindo-se à escassa circulação de literatura contemporânea entre Moçambique e os países vizinhos.
Sandra Tamele recordou que os escritores moçambicanos Lília Momplé e Mia Couto estiveram entre os finalistas do Caine Prize há cerca de 25 anos, lamentando que, desde então, a literatura da África lusófona tenha permanecido praticamente ausente do prémio.
"Não acredito que isso aconteça porque deixámos de escrever boas histórias. Acredito que acontece porque não construímos pontes suficientes para que essas histórias possam viajar", afirmou.
Para ultrapassar algumas dessas barreiras, a editora explicou que traduziu e publicou contos associados ao Caine Prize em pequenos volumes individuais, procurando reduzir os custos e tornar a leitura mais acessível ao público moçambicano.
Em vez de uma antologia com cerca de 200 páginas, cujo preço poderia atingir 15 a 20 euros, optou por publicar contos que podem ser lidos em aproximadamente 15 minutos, comercializados em conjuntos de quatro por 200 meticais (cerca de 2,80 euros).
Os textos foram também disponibilizados em formato de audiolivro, para chegar a pessoas que compreendem português, mas não sabem lê-lo ou escrevê-lo.
Sandra Tamele defendeu que a tradução não pode ser encarada como uma atividade secundária, sublinhando a necessidade de modelos de financiamento que contemplem simultaneamente a tradução, a produção editorial e a formação de leitores.
A editora denunciou também as desigualdades enfrentadas pelas escritoras moçambicanas, considerando que a falta de prioridade atribuída à educação das raparigas e a desvalorização do trabalho intelectual feminino continuam a limitar a sua afirmação literária.
"É muito, muito difícil para as mulheres, em geral, porque existe um problema cultural: a educação das raparigas não é considerada uma prioridade. E, se não tivermos raparigas instruídas, não teremos escritoras", afirmou.
Sandra Tamele evocou o percurso de Paulina Chiziane, primeira mulher moçambicana a publicar um romance, distinguida com o Prémio Camões em 2021, recordando que pertence à mesma geração de Mia Couto, mas enfrentou maiores dificuldades de reconhecimento.
"Acredito que a maioria dos escritores homens no nosso mercado nem sequer lê as suas colegas escritoras. Há um enorme apagamento", acusou.
Sandra Tamele afirmou considerar um "dever patriótico" promover a criação literária entre mulheres negras e questionou a representatividade de Mia Couto no panorama literário moçambicano, apesar de reconhecer a qualidade da sua escrita.
"Se olharmos para o topo da pirâmide dos autores mais vendidos em Moçambique, encontramos Mia Couto. Nada contra ele. Na verdade, admiro a sua escrita e conheço-o pessoalmente, mas penso que um homem branco, de olhos azuis e cabelo louro, com 71 anos, não é representativo da literatura moçambicana", declarou.
A editora explicou que a escolha de traduzir e publicar contos de escritoras africanas associadas ao Caine Prize procura contrariar essa desigualdade, aumentar a visibilidade das autoras negras e incentivar novas gerações de mulheres a escrever.
Defendeu ainda a necessidade de inverter os circuitos de reconhecimento internacional, para que os escritores africanos possam conquistar leitores e afirmar-se primeiro no próprio continente, sem dependerem da consagração nos mercados editoriais da Europa ou dos Estados Unidos.
"Não é realista que seja necessário partir para o exílio ou mudar-se para a Europa, para os Estados Unidos ou para o Norte global para se conseguir afirmar como escritor", afirmou.
As intervenções decorreram na sessão de encerramento do congresso "E agora? Congresso Internacional do Setor Literário em Tempos de Agitação Política", integrado nos Dias da Literatura de Lisboa, que decorreu desde quarta-feira na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, e que reuniu escritores e responsáveis por festivais literários para debater os desafios da literatura num contexto de conflitos políticos, censura e polarização.
Também por videoconferência, a escritora turco-britânica Elif Shafak alertou para o perigo da apatia perante o sofrimento humano, considerando que a literatura pode funcionar como um antídoto contra a indiferença.
A autora descreveu a atualidade como a era dos três A – 'angst' (angústia), 'anger' (raiva) e 'AI' (inteligência artificial) -, advertindo para as consequências de um quarto: 'apathy' (apatia).
"Se esta se tornar a era dos quatro A, ou seja, se acrescentarmos a apatia à equação, penso que o mundo se tornará um lugar muito mais perigoso", afirmou, defendendo a capacidade da literatura para contrariar a insensibilidade perante o sofrimento alheio.
Elif Shafak destacou também a importância dos festivais literários, que considerou estarem entre os últimos espaços democráticos existentes, defendendo a necessidade de os proteger.
Já o escritor e tradutor alemão Stefan Weidner propôs que os festivais literários apostem na divulgação das tradições literárias árabe e persa como forma de ultrapassar alguns dos obstáculos políticos à participação de escritores contemporâneos.
Stefan Weidner referiu as dificuldades de obtenção de vistos, a censura, os impedimentos à circulação de autores e os boicotes culturais, defendendo que a apresentação de obras clássicas pode contribuir para dar a conhecer literaturas frequentemente ignoradas pelos públicos europeus.
O escritor destacou a riqueza da tradição poética árabe, com cerca de 1.500 anos, recordando que, numa época anterior aos meios de comunicação modernos, a poesia desempenhava funções hoje distribuídas por diferentes suportes, da expressão amorosa à intervenção política.
Conteúdo importado automaticamente via RSS de Minuto.
Todos os direitos autorais e de propriedade intelectual pertencem ao veículo de origem. Leia a matéria completa na fonte original
Leia Também
Ver todas as notícias →Comentários (0)
Nenhum comentário publicado ainda.
Seja o primeiro a compartilhar sua opinião sobre esta matéria!
Deixe seu comentário
Seu e-mail não será divulgado publicamente. Comentários passam por moderação antes da publicação.