"Daimon" reúne poesia de António Carlos Cortez desde 1999 e um inédito
A poesia de António Carlos Cortez, publicada entre 1996 e este ano, incluindo o inédito "Terraplanagem", está reunida no volume "Daimon", que é apresentado pela escritora Lídia Jorge, no sábado, em Lisboa.
A antologia, editada pela Imprensa Nacional, com apresentação marcada para sábado à tarde, na Sala de Âmbito Cultural El Corte Inglés, toma por título "Daimon", que evoca uma entidade espiritual da Antiga Grécia, uma força intermediária entre os deuses e os seres humanos.
A escritora Silvina Rodrigues Lopes, ex-professora de Teoria da Literatura na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa, assinala, no prefácio da obra, que o título "convoca o demónio socrático".
Na sua opinião, esta escolha "coloca como ponto de partida da criação poética a confiança do poeta para lá de si mesmo: uma espécie de inspiração inabalável que no exercício da razão lhe resiste e se faz visão de que há o que não é visto nem dito e que, no entanto, se diz em palavras cantadas, as da poesia".
A investigadora refere que, nesse ponto de partida, também se encontra Eros, outra personagem mitológica grega.
A obra "Apologia de Sócrates" é, aliás, referida no poema "O Real e a Análise", de "Skin Deep" (2021), "como fazendo parte da biblioteca filosófica com a qual os poemas são suscetíveis de ser relacionados", argumenta Silvina Rodrigues Lopes.
"Daimon" reúne os poemas publicados nos 15 livros de poesia de António Carlos Cortez, nascido há 50 anos, em Lisboa.
O autor, no texto "Sobre Esta Reunião de Poesia", com o qual encerra a obra, afirma que é "a primeira vez" que reúne, "quase na íntegra, poemas" seus, o que para si tem "uma importância óbvia".
Para o autor, é "uma espécie de balanço de um percurso" iniciado há 25 anos, "que, bem contados, serão praticamente 30, posto que alguns poemas do [seu] primeiro livro datam de 1996" e fizeram parte de um conjunto com o qual concorreu, em 1995, ao Grande Prémio Aula de Poesia, de Barcelona, cujo vencedor foi Luís Quintais.
Hoje, Cortez, considera que só por "ingenuidade e ilusão" enviou os poemas.
"Ritos de Passagem" foi o seu primeiro livro, saído em 1999.
Para o poeta, esta antologia permite "compreender melhor" quanto a sua poesia tem sido para si "o outro lado de um labor" que não dissocia, antes alia, "ao trabalho de escrita literária propriamente dito: o de professor de literatura e o de alguém que, escrevendo crítica também há praticamente 25 anos e lendo a poesia de outros vê melhor aquilo que procura fazer permanecendo fiel a uma conceção de linguagem que não terá muito que ver com certos efeitos de narratividade ainda hoje imperantes".
António Carlos Cortez é poeta, ensaísta, crítico literário e professor de Literatura.
Além dos 15 títulos de poesia que já publicou, é autor de seis livros de ensaio, os mais recentes "Para Ler Camões" e "O Fim da Educação", saídos no ano passado. Assinou ainda um romance, "Dia Lusíada" (2022), e um livro de contos, "Cenas Portuguesas" (2024).
"Uma Estória de 'Os Lusíadas'", uma recriação da épica camoniana, é o seu mais recente título, saído este ano.
O autor tem sido várias vezes distinguido. Este ano recebeu o Prémio de Ensaio Jacinto Prado Coelho, por "O Fim da Educação"; em 2011, o Prémio da Sociedade Portuguesa de Autores para o Melhor Livro de Poesia, por "Depois de Dezembro". Recebeu ainda outros prémios, como o Teixeira de Pascoaes, em 2020, por "Dor Concreta", e o Maria Amália Vaz de Carvalho, em 2022, por "Diamante".
Sobre si escreve: "Certo isolamento (e mesmo certa incompreensão) experimentei-o como coisa natural, até porque não pertenci nunca a qualquer comité central de ordem poética ou crítica e limitei-me, por questões de gosto, de admiração e de comunhão feita amizade, a estar perto de vozes já afirmadas na poesia portuguesa". E aqui enumera Gastão Cruz, Nuno Júdice, Vasco Graça Moura e Manuel Gusmão. Cita também outros poetas que admira, como Ruy Belo e Fiama Hasse Pais Brandão, António Franco Alexandre e Herberto Helder.
António Carlos Cortez afirma que para si a poesia é "o exercício imaginativo da linguagem", e também "o diálogo com as diversas tradições da historicidade".
"Daimon - Poesia Reunida 1996-2026" é apresentado no sábado, às 16:30, na Sala de Âmbito Cultural dos armazéns El Corte Inglés, em Lisboa.
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