Mais de 200 pessoas protestam em Coimbra pelo direito à habitação
Mais de duas centenas de pessoas concentraram-se hoje, em Coimbra, para cantar e dançar pelos direitos à habitação e à manifestação, condenar a violência policial e pedir a demissão do primeiro-ministro, Luís Montenegro.
Já passava das 19:00 quando os manifestantes começaram a cantar e a dançar ao som de palavras de ordem como "Eu quero teto, eu quero chão, quero direito à habitação" e "Oh Montenegro, presta atenção, as tuas casas vão virar ocupação".
Nos cartazes empunhados pelos participantes, a crítica à especulação imobiliária cruzou-se com a contestação à atuação policial, bem como ao Governo.
"Tenho mais medo do Montenegro no poder do que de uma cacetada. Demissão já", "Violento é não conseguir pagar a casa e ainda levar bastonada" e "Sem casa nem respeito é na rua que me deito", foram algumas das frases pintadas em pedaços de cartão.
Na iniciativa, que decorreu no dia em que na Assembleia da República, em Lisboa, começou a discussão da proposta do Governo de Orçamento do Estado para 2027, a redução de 6% na verba prevista para a política de habitação pública foi criticada por Fernando Teixeira, advogado e membro do movimento Porta a Porta, integrado na plataforma Casa para Viver.
"É um contrassenso, vivemos um agudizar de um problema no acesso à habitação e o Governo escolhe reduzir aquilo que tem previsto gastar na habitação", sustentou.
Em declarações à agência Lusa, Fernando Teixeira condenou ainda "a repressão sobre o direito à manifestação e não deixar passar em claro a atitude de violência que tem ocorrido".
"Violência são as condições de vida de muitas pessoas!", lamentou, alertando igualmente para o que considera ser um caminho de confronto entre o Governo e os cidadãos que se manifestam e que "não trará nada de bom para o Governo".
Entre os manifestantes encontrava-se também Luísa Francisco, de 62 anos, arquivista "no único centro dedicado ao 25 de Abril existente no país", que vive em Coimbra há mais de quatro décadas.
Sem casa própria, disse acompanhar as manifestações sempre que pode por considerar que Portugal chegou "ao limite da especulação imobiliária".
Também Luísa Almeida, professora do ensino secundário, participou na concentração, apesar de ter habitação própria, adquirida "com muito sacrifício" há 23 anos, nos arredores de Coimbra.
"Aqui em Coimbra é gritante o preço das casas, das rendas e dos quartos", salientou, explicando que decidiu sair à rua pelos seus três filhos e pelos seus alunos.
"Tenho essa obrigação moral de mostrar que não nos devemos calar perante a opressão", indicou.
Já João Nunes, de 53 anos, empunhava um cartaz com a frase "Zeca: obrigam-nos a vir para a rua gritar", numa referência ao músico e símbolo da resistência à ditadura Zeca Afonso.
"Temos de lutar pelos nossos direitos e Zeca Afonso é o símbolo do que os nossos pais e avós conseguiram", afirmou.
Para o manifestante, a crise da habitação é apenas parte de um problema mais vasto e exige uma resposta coletiva.
"A habitação é só a ponta do iceberg e se não fizermos nada vai piorar. Temos de defender o que foi conquistado", sustentou.
À Lusa, o membro do movimento Porta a Porta Fernando Teixeira recordou ainda que para o dia 14 de novembro está agendada a manifestação "Casa para viver – Não nos vão roubar o direito a morar".
O protesto irá estender-se por 15 cidades: Lisboa, Porto, Coimbra, Leiria, Faro, Covilhã, Viseu, Nazaré, Braga, Beja, Évora, Viana do Castelo, Setúbal, Portalegre e Ponta Delgada.
Durante a madrugada de domingo, a PSP dispersou, à bastonada e com recurso a cães, as manifestações pelo direito à habitação em Lisboa e no Porto, após mais de duas horas de tensão e ordens para que as pessoas saíssem e as tendas fossem retiradas.
Os manifestantes não acataram as ordens, invocando o direito constitucional à manifestação.
Segundo a PSP, registaram-se, no total, 33 feridos e 33 detidos por desobediência. Em comunicado, as organizações das acampadas referiam dezenas de feridos.
A Inspeção-Geral da Administração Interna (IGAI) abriu um processo na sequência das intervenções policiais que aconteceram na madrugada de domingo em Lisboa e no Porto. Também a provedora de Justiça pediu à PSP, com caráter de urgência, informações sobre a carga policial na madrugada de domingo sobre os manifestantes.
Os partidos de esquerda criticaram a intervenção policial e pediram esclarecimentos ao primeiro-ministro e a intervenção do Presidente da República, António José Seguro.
O chefe de Estado apelou hoje ao diálogo sobre a habitação "e nunca à violência", afirmando que não gostou das imagens que viu, mas que aguarda o resultado dos inquéritos sobre a atuação policial sobre manifestantes.
Os manifestantes exigem a reversão da nova lei do arrendamento, o fim das demolições e dos despejos sem alternativa habitacional, um travão à aquisição de habitação por fundos imobiliários, o aumento da habitação pública, a recuperação de imóveis devolutos para fins habitacionais e tetos "verdadeiramente acessíveis" à renda.
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