Poeta Olinda Beja pôs árabes a cantar crioulo e afasta jovens do TiktTok
A poeta são-tomense Olinda Beja garante que as suas histórias vencem os ecrãs e as redes sociais na disputa pela atenção dos mais jovens e que o segredo está em chamá-los para a narrativa, porque todos conhecem o "era uma vez…".
Contadora de histórias, Olinda Beja assinala 35 anos de carreira literária no próximo ano, quando completar 79 anos de idade. Tem mais de 20 obras publicadas e nenhuma vontade de parar de escrever, de contar e de cantar o que compõe.
Escreve para crianças e adultos e os seus poemas, contos e romances revelam o país onde nasceu – São Tomé e príncipe -, de onde a levaram aos três anos para Portugal e onde regressou aos 37, para conhecer a mãe biológica.
"Eu costumo dizer que eu ando descalça entre dois mundos. Durante muitos anos fazia-me impressão não ser nem de cá, nem de lá, mas um dia um professor que muito estimo chamou-me a atenção para o tesouro que tinha – e tenho – em mãos, que é ter duas civilizações", afirmou, em entrevista à agência Lusa.
As primeiras histórias que ouviu contar foram em Portugal, por quem, antes de dormir, falava sobre as peripécias do dia, em narrativas intervaladas com adivinhas.
"Na Europa contavam-se histórias para passar o serão. Em África, há uma profissão que é o contador de histórias, que em São Tomé tem um papel fundamental, sobretudo nos funerais", disse.
E acrescentou: "Quando estamos a fazer o velório em São Tome, há sempre alguém que vai de propósito para contar histórias e depois ainda fazemos sete dias de nojo, durante os quais alguém se encarrega de contar histórias".
Histórias que, entre Portugal e São Tomé e Príncipe, Olinda Beja assimilou e foram matéria-prima para os seus livros, sempre com o objetivo de travar o esquecimento.
"Eu tento sempre alertar para que não se torne a repetir aquilo que se passou com a escravatura, os contratados ou o 1953", quando ocorreu o massacre de Batepá, em que tropas coloniais massacraram a população nativa que protestava contra o trabalho forçado em São Tomé e príncipe.
Da parte materna, Olinda é bisneta de um indiano e de uma gabonesa, a qual foi contratada para as roças de São Tomé e Príncipe. A mãe contou-lhe muitas histórias dos contratados, da forma desumana como viviam e como lidavam com o trabalho forçado e a falta de cuidados.
Quando regressou a São Tomé e Príncipe, em 1985, respondendo a "um apelo do canto do ossobô, dos rios caudalosos, do vento e da floresta", Olinda constatou a realidade dos contratados, sobretudo cabo-verdianos, que foram para este país no tempo colonial e que por lá ficaram, sem meios para voltar para a sua terra da morabeza.
"A minha mãe falava-me das mulheres contratadas para trabalharem nas roças, da alimentação que era toda controlada e como comiam o peixe que vinha de Moçâmedes (Angola), mas que quando chegava a São Tomé, e principalmente por causa do calor, ao fim de dois ou três dias já cheirava mal e já estava meio estragado, mas era o que lhes davam para comer".
As pessoas que tinham de comer aquilo eram as mesmas que se juntavam à noite para lamentar as suas desgraças, mas que ainda assim cantavam: "Comer Moçâmedes, mas ter o coração limpo, e não ter pecados, até dá saúde; comer carne com o coração sujo, não vale a pena, porque o coração não limpa".
A estas histórias juntou a "beleza única e deslumbrante" de São Tomé e Príncipe, com as suas praias com coqueiros e palmeiras, os vários tipos de bananas, a fruta-pinha e o inhame que cresce em 15 dias, disse.
Professora de profissão, tendo lecionado durante 40 anos, entre Portugal e a Suíça, Olinda Beja publicou o seu primeiro livro ("Bô Tendê?") em 1992 e no mesmo ano começou a contar e a cantar as histórias das duas ilhas.
A este livro de poemas seguiram-se muitos outros, entre os quais "Um Grão de Café" (2013), o primeiro livro para crianças no panorama literário infantojuvenil de São Tomé e Príncipe, que está traduzido em várias línguas, inclusive japonês.
Esta obra fala de um dos mais importantes recursos de São Tomé e Príncipe que é o café, a par do cacau.
E mesmo os públicos mais difíceis acabam por render-se à forma como Olinda Beja conta os seus contos, quase sempre com música, e o segredo está em trazer as crianças e jovens para a história.
"Quem não quer ser rei? E princesa de um reino encantado? E até o bobo da corte tem candidatos", disse, afirmando que raramente sai de uma escola sem outro convite para uma nova iniciativa.
No universo literário de Olinda Beja estão presentes as histórias de São Tomé, muitas narradas por contadores, como a do juiz que viveu muitos anos e a sua bengala ganhava raízes à terra, ou a do padre Rocha, que tinha muitos filhos e que dizia que era melhor ser um bom pai do que ser um mau pai e um bom padre.
"As minhas histórias, sobretudo para crianças, têm sempre a finalidade de transmitir os usos e costumes da ilha", disse.
Acompanhada à viola pelo músico santomense Filipe Santo, pelo percussionista guineense Carlos Camará ou o guitarrista português Luís d'Almeida, Olinda Beja tem feito recitais de poesia e canto em vários palcos do mundo.
Já contou histórias em 15 países e orgulha-se de ter posto os árabes a cantar crioulo, no Dubai, durante a Expo 2021.
O seu último livro foi "Mikoló, A Nossa Estrela" (2025), um conto escrito em português e em língua forra (língua crioula são-tomense).
Olinda Beja esteve recentemente na capital de Cabo Verde, onde participou no IV Encontro de Escritores de Língua Portuguesa, um evento promovido pela União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA), em conjunto com a Câmara Municipal da Praia, no qual as suas intervenções foram recebidas com fortes aplausos.
Voltou ao arquipélago, onde está a participar na primeira edição do Festival Internacional de Contos – "Cidade Velha na Solera Porta Ku Nos Gentis Grandi", uma iniciativa da RJ ANIMA (Associação de Dinamização Ambiental, Social e Cultural).
O evento que começou na sexta-feira e termina hoje, junta contadores de histórias, animadores, mediadores de leitura, educadores, investigadores e outros participantes de diferentes países lusófonos.
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