São Tomé. Autoridades intensificam combate à venda ilegal de água potável
As autoridades são-tomenses estão a intensificar a fiscalização e combate ao negócio ilegal de venda de água por particulares que têm instalações de captação e armazenamento não autorizadas em prejuízo das populações, disse hoje à Lusa fonte oficial.
Segundo o diretor de água da Empresa de Água e Eletricidade (EMAE), Nilton Lima, a EMAE tem desmantelado vários reservatórios e alerta a população para denunciar esta prática.
"Sempre que nós conseguirmos, nós vamos desmantelar", disse Nilton Lima, alertando para a necessidade de leis para uma melhor punição dos infratores, alguns reincidentes.
Nos últimos anos, tornou-se cada vez mais visível a circulação de carrinhas com grandes depósitos de água, sobretudo na capital são-tomense, evidenciando o crescimento do negócio, numa altura em que a água deixou de correr nas torneiras comunitárias e nas residências da maioria da população.
Um comerciante de água, que se identificou à Lusa como Moreira, afirmou que tinha um contrato oficial com a EMAE para captar água para comercialização.
"Vendo aos mais necessitados, que não tem a possibilidade de ter água em sua casa. Isto não é minha vontade, não tomei a deliberada decisão de o fazer. Primeiro solicitei à EMAE se eu posso ter um contrato comercial, que eu compro água e revendo", disse.
No entanto, o comerciante foi desmentido pelo diretor de água da EMAE, que em seguida orientou os serviços para desmantelar a referida instalação.
Nilton Lima rejeitou a existência deste tipo de contrato comercial para revenda de água, garantindo que a empresa só celebra contratos para consumo doméstico.
"Isso não é autorizado pela EMAE. A EMAE de forma alguma autoriza e autorizou alguém a fazer a venda de água. É uma prática que nós condenamos, obviamente", disse.
Moreira, que disse desenvolve este negócio há cerca de dois anos, referiu que uma das suas instalações foi encerrada recentemente pela EMAE, sem aviso prévio, após "queixas constantes" da população.
O comerciante, que diz ter negócios também no ramo da agricultura, considerou que o problema de água é grave no país e referiu que a partir do seu reservatório em Madalena, consegue levar mais de 10 mil litros de água para comercializar diariamente no centro da capital, fornecendo uma média de 10 clientes por dia.
"Nós somos nesse momento, eu e mais outros companheiros nesta área, aqueles que têm ajudado a EMAE a suprir a lacuna que existe, só que a EMAE é que deve fazer a sua parte. Deve haver um projeto, sentar junto ao Governo em busca de um parceiro que possa realmente trabalhar", defendeu.
O ativista pela preservação da água em São Tomé e Príncipe Adélcio Costa lamentou o crescimento deste negócio e apelou às autoridades para tomarem as devidas medidas.
"Essa pessoa está a desequilibrar o abastecimento de água que passa de um reservatório para outro e isso traz consequências para a população, porque a pessoa que vai fazer isso tem água a toda hora. Se ele, por exemplo, vende 10 mil litros, quer dizer que ele desequilibra por completo o sistema durante a fase de carregamento e também de abastecimento da população", explicou Adélcio Costa.
"Então, essa situação é alarmante e nós temos que procurar formas (…) se calhar, de levar o caso à autoridade, levar para a justiça para poder pôr cobro porque está a crescer o negócio", acrescentou o ativista.
Entretanto, a população continua a reclamar por causa da escassez de água.
"A água aqui está mal (…) a gente não vai ter água nem para lavar roupa, nem para fazer praticamente nada", reclamou uma mulher, que pediu para não ser identificada.
Segundo a população, em muitos casos há água nas torneias, mas sem qualidade para o consumo.
"A água, às vezes, corre muito fraca, que nem dá para fazer nada. Às vezes, corre suja, praticamente só dá para lavar o chão, porque não dá nem para cozinhar", reclamou outra mulher.
As autoridades apontam as mudanças climáticas como a principal causa da escassez de água no país, mas também admitem a necessidade de mais financiamento, sobretudo para modernizar as infraestruturas e os modelos de captação para deixar de depender maioritariamente das nascentes e recorrer-se mais aos rios.
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