"Título mundial? Não sinto que tenha de provar alguma coisa diferente"
Foi há cerca de um mês que a bandeira de Portugal foi hasteada no lugar mais alto do pódio em Pontevedra. No palanque, e depois de receber a medalha de ouro, estava Vasco Vilaça para ouvir A Portuguesa depois de se ter sagrado campeão do mundo de triatlo de Elites.
Na Grande Final do Campeonato do Mundo, que se realizou na cidade espanhola, Vilaça terminou na segunda posição, com uma reta final decidida em cima da meta com o australiano Matthew Hauser.
Foi a primeira vez que um homem de nacionalidade portuguesa conquistou o o título mundial de elite, 19 anos depois de Vanessa Fernandes ter feito história ao sagrar-se campeã do Mundo em 2007.
Em entrevista exclusiva ao Desporto ao Minuto, Vasco Vilaça falou sobre os momentos que se seguiram a esse título de campeão do mundo e projetou a presença nos Jogos Olímpicos de 2028, que ainda não está confirmada.
Episódio com o Matt Hauser? O mais importante para mim era conquistar o título mundial e consegui fazê-loSagrou-se campeão do mundo há cerca de um mês. Como é a sensação de ser considerado o melhor do planeta no triatlo?
É uma sensação muito especial. As emoções sentem-se e são sempre difícil de descrever com palavras, até porque é algo para que trabalhamos durante muitos anos e, quando finalmente acontece, demora algum tempo até percebermos realmente o que conseguimos. Ser campeão do mundo é obviamente um orgulho enorme, mas tento olhar para isto também como o resultado de muito trabalho, meu e de toda a equipa que está à minha volta. Estou muito feliz, mas continuo a ser a mesma pessoa e o mesmo atleta. Não há diferença entre um e outro.
O Vasco foi muito contido nos festejos no pódio. É mesmo assim como pessoa, ou festejou muito quando as câmaras se desligaram?
Acho que sou mesmo assim. Não sou uma pessoa muito expansiva e, naquele momento, estava sobretudo a tentar perceber tudo o que tinha acontecido. Claro que fiquei muito feliz e depois houve tempo para celebrar com a equipa, com a família e com as pessoas que estiveram comigo ao longo deste caminho. Mas provavelmente nunca me vão ver fazer uma festa muito exuberante, pelo menos à frente das câmaras. (Risos).
A prova ficou marcada por uma pequena picardia com o Matt Hauser. Ele próprio admitiu que foi um pouco cão na prova. Esse empurrão na reta final da corrida impediu-o de ganhar a prova. Como ficou depois desta atitude dele?
Não gostei. Já falei muito sobre isso. As pessoas sabem que respeito todos os meus adversários. Foram eles que fizeram de mim campeão do mundo. Toda a gente viu as imagens. Não vale a pena ficar preso a isso. O mais importante para mim era conquistar o título mundial e consegui fazê-lo.
Vasco Vilaça vai em busca da presença nos Jogos Olímpicos de 2028© Fernando Paz/Red Bull Content Pool
Entretanto já está tudo sanado? O Matt conversou consigo sobre o assunto?
Espero que o tempo resolva a mágoa que sinto, porque o Matt era um atleta que admirava muito.
Como é que vai ser agora lidar com o Vasco campeão? Sente alguma pressão?
Provavelmente vai existir mais atenção e mais expectativas, isso faz parte de ser campeão do mundo. Mas tento não mudar demasiado a forma como faço as coisas. Aquilo que me trouxe até aqui foi trabalhar todos os dias, tentar evoluir e concentrar-me em todos os detalhes. Quero continuar exatamente dessa forma. Há quem diga que sou viciado em trabalho. Talvez seja verdade porque adoro aquilo que faço. O título dá-me confiança, naturalmente, mas não sinto que agora tenha de provar alguma coisa diferente a cada corrida que faça.
Nunca escondeu ter a Vanessa Fernandes como ídolo e repetiu o título de campeão do mundo que ela tinha conquistado no feminino. Ela já lhe deu algumas dicas para lidar com a pressão daqui em diante?
A Vanessa sempre foi uma referência enorme para mim e para qualquer triatleta português da minha geração. Aquilo que ela conseguiu fazer colocou Portugal entre os melhores países do mundo numa altura em que isso parecia impossível. Poder agora também ter o meu nome associado a um título mundial é muito especial. Mais do que qualquer conselho específico, acho que o percurso dela mostra a exigência que existe a este nível e tudo aquilo que é preciso fazer para conseguir estar entre os melhores durante muitos anos. Mas há uma diferença, a Vanessa estava quase sozinha na altura, eu partilho pódio mundial com o Ricardo [Batista] e Portugal tem 4 atletas masculinos no topo do mundo, e duas mulheres a caminho de Los Angeles.
Vasco Vilaça foi quinto classificado nos Jogos Olímpicos de 2024 em Paris© Fernando Paz/Red Bull Content Pool
Título mundial (2026), vice-campeão (2020) e 3.º lugar do ranking (2024). O que se segue para o Vasco que está aí quase a fazer 27 anos?
Continuar a tentar melhorar. Agarrar-me a este título seria muito arriscado. Ficar preso a ele seria hipotecar o que ainda sonho conquistar. Parece uma resposta simples, mas é mesmo aquilo que penso. Ainda há áreas onde sei que posso evoluir e quero perceber até onde consigo chegar enquanto atleta. Ser campeão do mundo era naturalmente um dos grandes objetivos da minha carreira, mas não sinto que tenha chegado ao fim de nada. Pelo contrário.
E essa medalha olímpica em 2028 está mais perto com este título mundial?
O título mundial mostra-me que tenho capacidade para competir com os melhores e ganhar ao mais alto nível, por isso naturalmente dá-me confiança e mostra que esse sonho pode ser um objetivo real. Mas não diria que a medalha está mais perto, porque antes de pensar numa medalha olímpica ainda tenho de conquistar o meu lugar em Los Angeles. Há uma qualificação longa pela frente e os Jogos são uma prova completamente diferente. No fundo, são duas horas que acontecem de quatro em quatro anos, em que tudo pode acontecer. É isso que torna os Jogos tão emocionantes e tão especiais, mas também muito diferentes de um Campeonato do Mundo. Uma medalha olímpica é claramente um dos grandes objetivos da minha carreira, mas quero continuar a fazer as coisas pela ordem certa. Primeiro qualificar-me, depois chegar a Los Angeles na melhor versão possível de mim próprio e só aí pensar no resultado.
Perdeu título para Vasco Vilaça e atira: "Às vezes é preciso ser cão"Matt Hauser pediu desculpa a Vasco Vilaça, assumindo que atitude no sprint da finalíssima do Mundial de triatlo, na tarde de domingo, foi pensada. Atleta português tinha-se queixado do assunto.
Notícias ao Minuto | 19:02 - 28/09/2026Conteúdo importado automaticamente via RSS de Minuto.
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